A soberania digital é sobre resultados, não sobre ideais teóricos

A discussão em torno da soberania digital está a ganhar força em todo o mundo.

Executive Digest
Dezembro 9, 2025
9:00

Christian Klein é chief executive officer da SAP, a empresa tecnológica mais valiosa da Europa

No atual contexto de incerteza geopolítica e de competição tecnológica, é natural, e até necessário, que as nações procurem um maior controlo sobre o seu futuro digital. A verdadeira questão não é se os países devem perseguir a soberania em sectores críticos, mas sim como o devem fazer.



Muitas nações têm respondido a este novo ambiente mundial com investimentos massivos em centros de dados, partindo do pressuposto de que possuir a infraestrutura física para a cloud, dados e inteligência artificial (IA) é sinónimo de independência. No entanto, associar servidores e processadores a soberania é o mesmo que ignorar a realidade da interdependência tecnológica global e de desviar o foco das reais capacidades digitais de um país.

Mesmo quando um centro de dados é operado por um fornecedor local em território nacional, os seus principais componentes – os processadores, equipamentos de rede e modelos de IA que ali funcionam -, são quase sempre concebidos ou fabricados numa geografia externa. Alcançar uma total autossuficiência tecnológica implicaria excluir todo o hardware estrangeiro e, por extensão, o software estrangeiro que está profundamente integrado tanto nas empresas como na administração pública. Tal estratégia não é prática nem viável economicamente, pois isolaria qualquer nação da corrente contínua de inovação proveniente de outras partes do mundo.

Em vez de perseguirem uma autossuficiência contraproducente, os países devem investir de forma estratégica e adotar regulamentações pragmáticas centradas em resultados e não em ideais teóricos. A verdadeira soberania digital consiste em manter o controlo sobre os dados e ativos críticos, enquanto se tira partido das melhores tecnologias disponíveis, alinhadas com os interesses nacionais.

A partir desta perspetiva, várias prioridades tornam-se evidentes.

Antes de mais, os governos devem direcionar os seus recursos limitados para onde terão maior impacto. A verdadeira corrida não é por quem possui mais servidores, mas por quem desenvolve e controla o software e as aplicações de IA que estão a moldar o futuro da indústria. É nesse campo que se definem a soberania e a competitividade a longo prazo, e onde o investimento público gera os maiores retornos. Os governos que incentivam a adoção de software e IA nos setores público e privado estimulam, de forma natural, a procura por centros de dados e semicondutores, alcançando ambos os objetivos ao mesmo tempo.

Além disso, nem todos os dados exigem o mesmo nível de soberania digital e níveis mais elevados de proteção implicam, inevitavelmente, custos maiores em tempo e dinheiro. Para maximizar o impacto, as nações devem ajustar o grau de proteção à criticidade dos dados. Informações essenciais à segurança nacional ou à proteção pública, por exemplo, exigem os mais altos níveis de controlo, com operações geridas sob autoridade nacional, por pessoal autorizado e em ambientes regulados. Em alguns casos, proteger a soberania mantendo os dados localmente pode ser apropriado, como acontece em sectores regulados, como o da saúde. Já dados menos sensíveis e aplicações empresariais comuns podem ser operados de forma segura e económica em ambientes de cloud confiáveis, desde que respeitem padrões reconhecidos de cibersegurança.

Por outro lado, os governos devem adotar normas internacionais de soberania (tais como ISO, IEC, entre outras), em vez de desenvolverem regras próprias e isoladas. A utilização de normas comuns facilita a entrada de mais fornecedores no mercado e permite obter economias de escala. Além disso, possibilita que governos e empresas utilizem soluções soberanas alojadas em países vizinhos que sigam os mesmos padrões. O resultado é uma oferta mais ampla de soluções de cloud soberana, com custos mais baixos e implementação mais rápida nos sectores público e privado.

É igualmente sensato que as nações invistam em educação, formação e investigação nas áreas de cloud, dados e IA aplicada. Dessa forma, poderão capacitar sistematicamente os seus cidadãos com o conhecimento e as competências necessárias para assumirem o destino digital do país. Nessa dimensão, a soberania vai muito além da simples posse de hardware.

Por último, o futuro digital de uma nação não será decidido nas salas de servidores, mas pelas empresas e instituições públicas que tomarem decisões inteligentes e pragmáticas sobre sua soberania e competitividade digital, concentrando-se em resultados concretos, não em ideais teóricos, e aplicando as melhores tecnologias disponíveis para criar valor duradouro.

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