Por Manuel Azevedo, CEO da Energia Simples
Muitos ansiavam pela chegada de 2020, porque seria “o ano”. O ano em que se iria definir quais os países que conseguiram alcançar os objectivos propostos e exigidos pela União Europeia. Todos colocámos enormes expectativas para este ano e sempre soubemos que ia ser o marcar de uma nova década e que tudo iria mudar. Mas nunca pensamos que a razão fosse uma pandemia Global, que, inevitavelmente, mudou a vida de todos e que poderá também pôr em causa esforços conseguidos, até ao momento, relativamente às renováveis.
Se antes considerávamos que 2020 seria o ano em que o sector energético se iria revolucionar, onde surgiriam novas iniciativas ligadas à sustentabilidade e à eficiência energética, actualmente, apenas esperamos que nada volte atrás. Apesar de as empresas, os governos, bem como a sociedade no geral, estarem muito mais proactivos e consciencializados no que diz respeito aos temas das energias renováveis e das emissões de carbono, agora surgem novas prioridades com que têm de lidar, e, por isso é fundamental que nunca se perca de vista todo o trabalho já alcançado relativamente a este tema.
Se em 2018, se celebrou o facto de Portugal estar a conseguir acompanhar as exigências da União Europeia, com uma maior aposta em energias renováveis e com uma consciencialização, cada vez maior, da população para estas questões; em 2019, foi o ano em que se considerou que Portugal acordou para a produção de energia renovável, reduzindo, significativamente, as emissões de carbono, em quase cinco milhões de toneladas, de acordo com a Associação Zero.
Desta forma, a produção renovável, no total do ano passado, abasteceu 51% do consumo nacional de energia eléctrica, com a eólica a representar 26% do consumo, a quota mais elevada de sempre para esta tecnologia, a hidroeléctrica 17%, a biomassa 5,5% e a fotovoltaica 2,1%. Em contrapartida, o carvão registou a quota mais baixa desde a abertura da Central de Sines, em 1989. Todos estes valores representam uma nova conquista e Dezembro foi exemplo disso, ao ser atingido um novo marco histórico das renováveis: 5 dias e meio consecutivos em que a produção da electricidade renovável foi suficiente para satisfazer as necessidades de consumo em Portugal Continental.
Mas será que em 2020 conseguiremos atingir as metas a que nos propusemos? Apesar de 2019 ter ficado marcado por uma produção renovável com níveis recorde, 2020 é ainda uma incógnita. E embora ainda seja cedo para se fazer uma antevisão do impacto desta crise, impulsionada pela pandemia da Covid-19, o início de 2020 está já a ser afectado de forma significativa.
Segundo os dados divulgados recentemente pela Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN), as fontes de energia renováveis contribuíram com 69.9% do total da produção de electricidade de Portugal Continental em Março deste ano, o que são sinais positivos no meio desta crise, que ainda só vai no início.
Ainda que os combustíveis fosseis continuem a ser uma realidade, o peso das renováveis vai, inevitavelmente, crescer no mix energético, devido ao crescimento das preocupações ambientais e à redução de custos que vão tornar a energia renovável cada vez mais competitiva em termos de preço. Contudo, a dependência dos combustíveis fósseis no acesso à energia, nomeadamente das reservas de petróleo, gás e carvão, irá diminuir e, em contrapartida, a energia eólica, hídrica ou solar passará a ter uma maior relevância. Espera-se que em 2050 a energia eléctrica, passe a ser gerada a partir de fontes de energia com baixa produção de carbono, como o eólico e o solar, podendo então representar cerca de um quarto da procura energética.
Apesar de, actualmente, todos os esforços estarem concentrados em controlar e vencer a pandemia que assola o mundo e o nosso país, é fundamental que façamos tudo para continuar a aumentar o nosso consumo de energias renováveis e a contribuirmos para um mundo mais verde e mais sustentável.




