Por Maria João Guedes, Professora do ISEG, Lisbon School of Economics and Management e Coordenadora do POWER (Portuguese Women’s Equality Observatory)
O Observatório Género, Trabalho e Poder, uma iniciativa do ISEG Research – Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa, tem vindo a destacar as desigualdades de género nas esferas laboral e económica em Portugal. O Observatório analisa a participação de mulheres e homens no mercado de trabalho, o diferencial remuneratório, o equilíbrio de género nos órgãos de gestão das empresas e disponibiliza um repositório com estudos académicos, legislação e notícias relevantes.
Em setembro de 2025, lançou o “Barómetro do Equilíbrio de Mulheres e Homens nos Órgãos de Gestão das Empresas em Portugal – WoBómetro”, assinalando os oito anos da aprovação da Lei Nº62/2017, que estabelece as regras para a representação equilibrada entre mulheres e homens nos órgãos de administração e fiscalização das entidades do setor público empresarial e das empresas cotadas em bolsa.
Os dados de 2024 revelam que o progresso é real, mas que o topo continua pouco acessível às mulheres, mostrando que as desigualdades persistem. Nas empresas cotadas em bolsa, as mulheres ocupam 34% dos lugares nos órgãos de administração, com maior presença em cargos não executivos (46%) do que executivos (15%). No PSI, os números são semelhantes, mas nenhuma mulher ocupa o cargo de CEO. Já no Setor Empresarial do Estado (SEE), os indicadores são mais positivos: 42% de mulheres nos órgãos de administração, com distribuição equilibrada entre cargos executivos (43%) e não executivos (45%). No Setor Empresarial Local (SEL), a presença feminina é de 35%, com ligeira predominância nos cargos executivos (39%).
Apesar de as empresas cumprirem o limiar mínimo legal de um terço do sexo sub-representado, as mulheres continuam a ocupar sobretudo funções não executivas, ligadas à fiscalização e supervisão, ficando afastadas dos cargos de maior poder e decisão. Ou seja, as empresas cumprem as “quotas”, mas falham em mostrar mudanças substantivas — o topo continua masculino.
Os Planos para a Igualdade, exigidos também pela Lei, são instrumentos estratégicos para promover a igualdade nas empresas. No entanto, nem todas as entidades cumprem esta obrigação, e a falta de transparência dificulta o acompanhamento público. Mais uma vez, verifica-se uma oportunidade pouco aproveitada de implementar mudanças e promover a igualdade no topo.
Para acelerar a mudança, o Observatório recomenda reforçar a fiscalização do cumprimento da Lei, aumentar a transparência na divulgação dos planos de igualdade, definir metas mensuráveis e integrar a igualdade de género na estratégia global das organizações. Para tal, é necessário o empenho e compromisso no topo, de todos os que têm responsabilidade nas organizações e que querem contribuir para uma sociedade mais justa e equilibrada.
Em suma, cumprem-se números, mas ainda falha-se na mudança!




