A IA é o Novo Tamagotchi

Opinião de Luís Rasquilha, CEO do Ecossistema Inova. Board Member/Non Executive Diretor (NED) da GIANT Brasil e da Maza Tarraf. Líder do Comitê de estratégia do Consórcio Unifisa. Professor convidado na FDC, Hospital Albert Einstein e ESALQ/USP. Colunista do MIT Sloan Review Brasil e Executive Digest Portugal.

Executive Digest

Alimentamos a Inteligência Artificial… e ela passa a alimentar-nos

Em 1996, milhões de pessoas em todo o mundo carregavam no bolso um pequeno ovo de plástico com um ecrã monocromático. Chamava-se Tamagotchi. O conceito era simples: alimentar, cuidar, limpar, brincar e acompanhar um pequeno ser digital que dependia totalmente da atenção do seu dono. Se deixássemos de interagir, ele adoecia. Se o ignorássemos durante demasiado tempo, desaparecia. Na altura parecia apenas um brinquedo. Hoje percebemos que talvez fosse uma antecipação extraordinária da relação que estamos a construir com a Inteligência Artificial.

A diferença é que, desta vez, não estamos apenas a cuidar de um pequeno animal virtual. Estamos a alimentar uma inteligência que, em muitos casos, acabará por cuidar de nós.

A IA aprende connosco

A Inteligência Artificial não nasce inteligente. Ela aprende. Aprende com milhões de documentos, livros, imagens, vídeos e conversas. Mas, sobretudo, aprende através da interacção humana.

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Cada pergunta.
Cada correcção.
Cada contexto fornecido.
Cada documento carregado.
Cada decisão validada.

Tudo contribui para tornar os modelos mais eficazes.

Tal como o Tamagotchi precisava de comida digital, a IA precisa de dados. Sem dados, não existe inteligência.

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O novo ativo estratégico chama-se Contexto

Durante décadas acreditámos que informação era poder. Hoje percebemos que informação, por si só, vale pouco. O verdadeiro diferencial está no contexto. Uma IA genérica consegue responder a quase tudo.

Mas uma IA que conhece a empresa, os clientes, os processos, a estratégia, a cultura e os objetivos consegue gerar valor exponencialmente superior. É exatamente isso que está a acontecer com os novos agentes inteligentes. Já não são apenas motores de pesquisa sofisticados. São colaboradores digitais que aprendem continuamente com cada interação. Quanto mais trabalham connosco, melhores ficam.

Estamos a criar colaboradores digitais

Nas empresas, começa a surgir uma nova categoria de trabalhadores. Não recebem salário. Não têm horário. Não entram em férias. Não adoecem. São agentes de Inteligência Artificial especializados.

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Existe um agente para marketing. Outro para vendas. Outro para recursos humanos. Outro para finanças. Outro para estratégia. Cada um vai acumulando conhecimento específico da organização.

Tal como um colaborador sénior, conhece processos, aprende exceções, memoriza decisões e melhora continuamente. Quanto mais tempo permanece na empresa, maior se torna o seu valor.

O paradoxo do Tamagotchi

O Tamagotchi dependia totalmente do seu dono. A IA parece seguir o mesmo caminho.

Mas existe uma diferença fundamental. À medida que a alimentamos, ela também começa a alimentar-nos. Ajuda-nos a decidir. Escreve connosco. Analisa cenários. Cria estratégias. Resume reuniões. Desenvolve código. Produz apresentações. Apoia diagnósticos médicos. Sugere investimentos. Ensina. Aprende. E, cada vez mais, toma decisões em nosso nome.

A relação deixa de ser unilateral. Passa a ser simbiótica.

O risco da dependência

Tal como aconteceu com a Internet e, mais tarde, com o smartphone, a IA traz um novo risco. A dependência cognitiva. Se deixarmos que a Inteligência Artificial pense sempre por nós, deixaremos gradualmente de exercitar competências fundamentais:

  • pensamento crítico;
  • criatividade;
  • capacidade analítica;
  • memória;
  • resolução de problemas;
  • tomada de decisão.

A IA deve ampliar a inteligência humana. Nunca substituí-la. As organizações mais inteligentes serão aquelas que conseguirem equilibrar automação com pensamento humano.

Quem alimenta quem?

Talvez esta seja a pergunta mais interessante da próxima década. Estamos a alimentar a Inteligência Artificial. Mas ela também está a moldar a forma como pensamos. Influenciando decisões. Sugerindo caminhos. Organizando prioridades. Criando conhecimento. O Tamagotchi precisava de nós para sobreviver. A IA precisa de nós para evoluir. Mas talvez nós passemos, também, a precisar dela para competir.

O verdadeiro desafio

A questão nunca foi tecnológica. É humana. Quem conseguir ensinar melhor a Inteligência Artificial terá uma vantagem competitiva extraordinária. Porque, no futuro, o ativo mais valioso deixará de ser apenas o conhecimento. Será a capacidade de construir inteligências que aprendem connosco. Talvez o maior legado do velho Tamagotchi não tenha sido um brinquedo. Tenha sido ensinar-nos, há quase trinta anos, que aquilo em que investimos atenção cresce.

Hoje continuamos a fazer exatamente isso. Só que, em vez de alimentarmos um pequeno animal digital, estamos a alimentar uma inteligência capaz de transformar empresas, profissões e sociedades. E talvez a pergunta mais importante já não seja se vamos utilizar Inteligência Artificial. A verdadeira questão é: que tipo de Inteligência Artificial estamos a ensinar todos os dias?

 

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