Se perguntarem a Tirha Herzig, a minha sobrinha de 11 anos, ela dirá que os AirPods foram a melhor prenda de 2019. Ficou estupefacta quando o último presente na árvore de Natal foi uma minúscula caixa com o seu primeiro par de AirPods. Sabia perfeitamente o que era, como uma caixa de jóias Tiffany de alta tecnologia, e saltou de alegria ainda antes de abrir. Tenho de admitir que fiquei um pouco surpreendido com o seu entusiasmo por um pequeno par de auscultadores sem fios – não é bem o tipo de acessório de moda que se esperaria de uma rapariga que furou as orelhas há pouco tempo e ainda nem tem um smartphone. Mas é razão mais do que suficiente para reflectir sobre a revolução nos produtos “wearable” que a Apple criou.
Segundo a Apple, os “wearable” são responsáveis por até nove mil milhões de euros das suas receitas trimestrais, subindo dos 6,7 mil milhões do ano anterior, com os AirPods e os AirPods Pro a liderarem. A Apple não separa os valores para cada linha de produtos “wearable”, mas Tim Cook confirmou que a empresa está a ter dificuldade em satisfazer a procura dos Pro, dado o apelo das suas funções inteligentes que cancelam o ruído. Para fazer a comparação, os “wearable” ultrapassaram toda a linha de produtos Mac como contribuintes para as receitas da Apple. Alguns analistas prevêem que em breve será um negócio de 90 mil milhões de euros – praticamente o tamanho da General Motors.
Tenho de confessar que sinto algum cepticismo em relação ao último produto popular da Apple (não é a primeira vez), embora esteja cada vez mais convencido de que quase toda a gente que conheço acabará por andar por aí com aparelhos de áudio inteligentes e sem fios nos ouvidos até final de 2020.
Esteticamente, não sou fã das antenas AirPod que, ao contrário dos auscultadores normais, as pessoas tendem a deixar nos ouvidos o dia todo, mesmo quando não estão a ser usadas. E temo que os AirPods Pro e os seus sucessores irão definir um novo padrão para os produtos tecnológicos facilmente descartáveis, tendo em conta a facilidade e frequência com que se podem perder e precisam de ser substituídos. Não é mau em termos empresariais e bastante típico da habitual desconsideração da Apple pela sustentabilidade.
Talvez esteja na altura de repensar a minha relutância e pensar na possibilidade de um futuro onde as extensões áudio não são apenas ubíquas, mas culturalmente apropriadas de uma forma que nenhuma outra tecnologia “wearable” digital consegue actualmente. Como mostrou o fracasso dos Google Glass, não é fácil chegar a um ponto em que este tipo de extensões é culturalmente aceite. O entusiasmo e os desejos de uma rapariga de 11 anos sugerem que os AirPods ultrapassaram uma série de obstáculos. A minha sobrinha já se considera uma especialista no seu funcionamento, andando pela casa a ouvir música de manhã, com as mãos livres para tratar do pequeno-almoço… A Apple criou um conjunto de interacções ponderadas e naturais que não exigem qualquer interface. Tirha demonstrou orgulhosamente como a música pára de forma automática quando retira os auscultadores dos ouvidos. Foi exactamente este tipo de nuance no design que faltava quando a Google lançou os Glass em 2013.
Mas os AirPods não são apenas aparelhos bonitos que apelam aos caprichos de uma criança de 11 anos. Podem também ser usados como aparelhos auditivos, satisfazendo uma necessidade médica real.
Com o aumento da urbanização, grandes conjuntos de pessoas estão a passar para grandes cidades, onde a poluição sonora é uma ameaça constante à sua sanidade e bem-estar. À medida que as populações urbanas envelhecem, haverá provavelmente um enorme aumento da perda de audição associada a esta migração em massa. Segundo um estudo, a poluição sonora já custa ao Reino Unido cerca de 24 mil milhões de euros anualmente em custos económicos, sociais e médicos. A poluição sonora tem sido associada a inúmeras questões de saúde, incluindo o aumento na hipertensão e nas doenças cardíacas, com custos a poderem chegar aos 3,5 mil milhões de euros nos EUA, de acordo com um estudo publicado pela NIH em 2015. Há uma relação forte e positiva entre a poluição sonora nas cidades e a perda de audição (64%, segundo o Worldwide Hearing Index). Estas questões médicas podem surgir muito mais cedo do que aconteceu em gerações anteriores, com um impacto significativo na saúde mental e na qualidade de vida. Além de terem uma das piores qualidades de ar do mundo, os habitantes de Deli (a segunda pior cidade no mundo em termos de poluição sonora) têm uma perda de audição equivalente a pessoas 20 anos mais velhas.
Durante mais de um século, a maioria da população mundial teve um acesso relativamente fácil a aparelhos de extensão da visão. Mas os que ouvem mal não tiveram a mesma sorte. Em 2015, o preço médio de um aparelho auditivo situava-se nos 2.100 euros.
O enorme impacto da perda de audição chamou-me a atenção durante as férias. Passei algum tempo com o meu energético pai de 89 anos, a gerir as suas frustrações durante encontros familiares à medida que tentávamos lidar com o seu dispendioso aparelho auditivo. Estudos mostram que a perda de audição tem um efeito combinado nos idosos, tal como vi em primeira mão. Segundo um estudo, a perda de audição por tratar aumenta os riscos de demência em 50%, da depressão em 40% e de quedas em 30% durante um período de 10 anos. À medida que se torna mais difícil participar em discussões de grupo, o meu pai fica muitas vezes frustrado e recua, isolando-se ainda mais. Isto tem efeitos significativos no seu funcionamento cognitivo e na sua qualidade de vida como um nova-iorquino vibrante, independente e activo. Espera- -se isto de alguém com perto de 90 anos, mas então e de alguém com cerca de 50 ou 60 anos?
Infelizmente, o meu pai parece estar demasiado velho para se sentir confortável com uma nova tecnologia, principalmente quando mal a consegue segurar para ajustar o volume ou mudar as pilhas. Mas o que aconteceria se tivesse usado estes aparelhos de extensão de audição durante décadas, habituando-se ao seu toque e funcionamento à medida que se ajustam progressivamente às suas necessidades auditivas? E se o software se torna igualmente familiarizado com o ambiente acústico, incluindo os perfis de voz das pessoas que lhe são mais importantes? Embora isto esteja para lá das capacidades dos AirPods Pro de hoje, não é difícil imaginar a forma como o software da Apple se pode tornar cada vez mais inteligente ao longo do tempo, como aconteceu com a Siri e a Alexa. Compreendo a potencial desvantagem de ter uma grande empresa tecnológica a ouvir todas as nossas conversas nos próximos 30 anos. Mas talvez haja uma vantagem. Será que a adopção de AirPods agora – tenho resistido a comprar um par – poderá ser uma boa aposta para o meu futuro?
A futura oportunidade de mercado pode ser enorme para a Apple tendo em conta o envelhecimento da população norte-americana. O meu pai, e a maioria dos seus amigos, gastaram dezenas de milhares de euros num conjunto de produtos que odeiam, não apenas por não funcionarem bem, mas por estarem associados a uma incapacidade. Os aparelhos auditivos convencionais foram mal concebidos e não são amigos do utilizador. Estes aparelhos feios estão escondidos por trás de um plástico tom de pele, como se fosse um pedaço de carne que nasceu no ouvido, e são vistos como um sinal de fraqueza, de embaraço, pela sua geração e pela minha. A Apple e outras empresas estão bem preparadas para reposicionarem as próteses auditivas para um futuro vibrante e orgulhoso que nos pode beneficiar a todos numa abundância de diferentes aparelhos que podem ser usados como joalharia – e não como um defeito pessoal que deve estar escondido. Esta mudança já começou a ter lugar noutras áreas das próteses.
Irá a empresa seguir esse caminho? A Apple criou a sua fortuna – e apostou no futuro dos produtos “wearable” graças a parcerias com a Gucci e outras marcas – personificando a mais recente mistura de moda e tecnologia, não incapacidade. Podemos também olhar para a história das inovações de produto bem-sucedidas que nasceram para ajudar pessoas com necessidades especializadas. Em 1872, Alexander Graham Bell inventou o telefone para apoiar o seu trabalho a ajudar os surdos. Uma pessoa pode sentar-se numa cadeira Aeron (cujo tecido foi originalmente desenvolvido para impedir escaras) e mandar um email a um amigo ou colega (que Vint Cerf inventou em parte para comunicar melhor com a sua mulher, que era surda). Há uma longa tradição de um design amigo do utilizador que nasce de um enfoque nas necessidades de pessoas com deficiência e que levam a benefícios para todos. O impacto dos produtos auditivos de baixo custo podem ir bem para lá do meu pai, chegando a um condutor de tuk tuk em Mumbai. Mas só empresas como a Apple têm a capacidade de reformular as nossas expectativas culturais e ao mesmo tempo alterar a cadeia de valor de forma a tornar o custo dessas tecnologias inteligentes acessível a todos.
Se não for a Apple, será outra empresa. Afinal de contas, muitos executivos de Silicon Valley estão também a envelhecer, juntamente com os seus pais. Embora a Google possa não estar interessada no regresso dos Glass para os consumidores gerais, o conceito foi aproveitado pela Aira, uma plataforma remota que apoia os cegos e melhora muitas áreas das suas vidas, principalmente a capacidade de ganhar um salário. Os fundadores da produtora de aparelhos auditivos Eargo juntaram-se à empresa de design industrial Ammunition para aproveitarem este mercado, oferecendo a sua linha de auscultadores inteligentes entre os 1800 e os 2750 euros (dispendiosos, mas não tanto como alguns aparelhos) que combinam estética agradável, software inteligente e imagem contemporânea para reposicionar os aparelhos auditivos para os nomes de Silicon Valley.
Isso não significa que não existam desafios antes de este futuro ganhar forma.
Os nossos cérebros estão feitos para evitar qualquer pessoa que pareça doente ou alterada, um instinto que pode ser difícil de ultrapassar. Por isso, pessoas a descer a rua a falar sozinhas, como acontece quando se usa AirPods, pode ser pouco apelativo, principalmente quando faltam pistas visuais importantes, como os habituais fios brancos. Esperamos também que as interacções sociais sejam recíprocas, o que faz com que uma tecnologia que cria ambiguidade (ele/ela está a falar comigo? Por que é que ele/ela me está a ignorar?) seja extremamente frustrante e rude. Espero que este desafio em particular seja abordado pela Apple num futuro próximo através de algum tipo de solução simples, como um LED discreto que acende quando os AirPods estão ligados. Embora essa solução possa interferir na privacidade do seu utilizador, acredito que os benefícios gerais sociais ultrapassarão esse receio. Há dúvidas com as quais designers como eu lidamos diariamente, sem encontrarmos respostas fáceis. Dito isto, sempre saudei a oportunidade que produtos como os AirPods criam para repensar os aparelhos negligenciados e utilitários nas nossas vidas, principalmente aqueles que limitam a forma como pessoas como o meu pai poderiam viver o mundo. Esperemos que 2020 traga mais oportunidades.






