O Mundo para lá do nosso confinamento

Não estaremos a alimentar uma falsa sensação de dever cumprido, que nos desresponsabiliza de olhar para os mais frágeis entre os frágeis?

Executive Digest

Por Isabel Martins da Silva e Pedro Amaro Santos, co-fundadores da MEERU | Abrir Caminho — organização que através do diálogo e da proximidade constrói comunidades

Os dias que vivemos não são só um grande teste à capacidade das nossas sociedades se organizarem. São um teste à nossa humanidade e solidariedade.



Assim que nos sentimos ameaçados, narramos a história de que estamos todos no mesmo barco a lutar contra um inimigo comum. Sem aviso, o inimigo lembrou-nos o quão vulneráveis somos e a importância da solidariedade.

Talvez por isso, começamos a escrever narrativas de proximidade reforçada com a nossa comunidade, amigos e família. Reinventamos formas de encontro. Reconhecemos a resiliência e o serviço de milhares de pessoas que garantem o cuidado de todos.

Num tempo de poucas respostas e de muitas perguntas, estas histórias têm sido o alento para acreditarmos que “vai ficar tudo bem”.

Importa pensarmos se esta será a história de todos ou será uma história confortável vivida apenas por alguns, esquecendo todos os que já antes ocupavam as periferias da sociedade.

A partir do nosso recanto desafiante de confinamento, olhamos, agora, com uma distância ilusória, perigosa e ainda maior outras histórias de dor acumulada, noutros contextos e geografias. Apagamos até algumas delas. Igualamos o sofrimento de milhões de pessoas ao nosso. Substituímos a capacidade de empatia por quem sofre mais, há mais tempo e em circunstâncias diferentes, pela simpatia por quem sofre o mesmo e ao mesmo tempo que nós.

Não estaremos a construir histórias de solidariedade que continuam a ser apenas sobre nós próprios ou sobre o que sentimos como nosso? Não estaremos a alimentar uma falsa sensação de dever cumprido, que nos desresponsabiliza de olhar para os mais frágeis entre os frágeis? Multiplicam-se, por todo o mundo, as notícias de como o lockdown tem agravado as desigualdades sociais. Quem sofria de violência, vivia na rua, estava desempregado, tinha fome, vivia num conflito armado, era excluído ou esquecido, enfrenta esta pandemia carregando sofrimento acumulado. Os dados apontam para 265 milhões de pessoas arrastadas para situações de fome aguda até ao final de 2020, por causa da pandemia. Mas, mesmo antes, o número já era de 135 milhões: como resultado de conflitos armados (77 milhões), alterações climáticas (34 milhões) e crises económicas (24 milhões). Em países como a Nigéria, Sudão do Sul, Síria, Iémen e tantos outros milhões de pessoas já tinham a vida presa por um fio.

Mas, olhemos para a Europa. No campo de refugiados grego de Moria, num espaço construído para 3000 pessoas, vivem mais de 20.000. Já antes da pandemia a situação era alarmante: 1 casa de banho para 167 pessoas; 1 torneira para 1300 pessoas; filas de espera de 3 horas; famílias de 6 pessoas vivem em espaços de 3m2; o acesso aos cuidados básicos de saúde é limitado. Esta crise toma agora proporções maiores devido ao elevado risco de propagação da COVID-19. Em Moria há cerca de 500 casos vulneráveis e apenas 6 camas de cuidados intensivos. As medidas para impedir o contágio são impraticáveis.

Se a resposta perante esta pandemia se limitar a tornar urgente o necessário apoio aos nossos vizinhos e adiar a urgência de soluções para situações como Moria, construímos uma solidariedade circunscrita aos limites do nosso confinamento.

O dia depois de amanhã trará as consequências desta história única e desta solidariedade frágil e com prazo. O dia depois de amanhã trará o agudizar das assimetrias e dos egoísmos do velho mundo. Uma vez mais, o nosso ‘nós’ é incompleto.

Para podermos ter uma falsa sensação de tranquilidade, tendemos a demarcar-nos de quem não incluímos neste ‘nós’. Com estas etiquetas sentimo-nos do lado certo, a fazer a coisa certa, ignorando o que está para lá da diferença e perpetuando o sofrimento nas periferias. A história da comunidade de refugiados de Braga, que tem apoiado centenas de pessoas com refeições, é um bom exemplo do esforço de construir um ‘nós’ com espaço para todos. Para lá das histórias de sofrimento por guerras, perseguições, fugas e recomeços, a comunidade acolhida pelo CLIB — Colégio Luso Internacional de Braga tem os olhos postos fora dos limites de si mesma.

Há anos que, para o CLIB, o acolhimento de refugiados é uma prioridade. Com a pandemia, não deixaram de lado essa missão. Antes, assumiram-na, olhando os desafios do mundo em seu redor. Juntos, apoiam agora pessoas sem abrigo, pessoas que viviam da prostituição, famílias que ficaram sem emprego, migrantes e muitos idosos isolados.

A crise que vivemos exige mais comunidades como o CLIB. Olhemos para lugares como Moria não como um problema adiado e distante, mas como parte do nosso desafio atual. A perspetiva de solidariedade que estamos a construir tem que incluir uma resposta urgente a todas as pessoas em todos os contextos.

Este é o tempo de pensarmos na necessidade de um ‘nós’ inteiro.

A crise mais importante das nossas vidas exige o desconforto de um olhar mais profundo que não deixe esquecer todas as vidas que, mesmo antes da pandemia, já se encontravam suspensas. Em tempos de crise, sofremos todos. Mas sofrem muito mais os últimos entre os últimos.

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