Nove portugueses morreram no 11 de Setembro: um deles salvou os colegas nas Torres Gémeas e nunca conseguiu sair

Foram necessários dois anos de investigação para identificar nove portugueses e luso-descendentes entre as quase três mil pessoas que morreram nos atentados de 11 de Setembro de 2001. Um quarto de século depois, esse número pode ainda não estar fechado

Francisco Laranjeira

Foram necessários dois anos de investigação para identificar nove portugueses e luso-descendentes entre as quase três mil pessoas que morreram nos atentados de 11 de Setembro de 2001. Um quarto de século depois, esse número pode ainda não estar fechado.

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Henrique Mano, jornalista e atual chefe de redação do jornal ‘Luso-Americano’, está a investigar o nome de uma mulher que poderá ter origem portuguesa. Caso a ligação familiar seja confirmada, será a décima vítima identificada pela publicação e a primeira mulher.

A revelação surge numa reportagem da ‘Euronews’ publicada esta sexta-feira, quando passam 25 anos sobre os ataques, que recupera a investigação realizada pelo ‘Luso-Americano’ e algumas das histórias dos portugueses e luso-descendentes que morreram naquele dia.

Uma investigação que começou no dia seguinte

Henrique Mano estava na redação do ‘Luso-Americano’, em Nova Jérsia, quando os aviões atingiram as Torres Gémeas. Nova Iorque encontrava-se do outro lado do rio Hudson e, nas primeiras horas, nem sequer era claro quantos ataques estavam em curso.

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“Ficámos completamente incrédulos”, recorda à ‘Euronews’. “Primeiro, durante umas horas, não se sabia bem o que se tinha passado, quantos aviões mais iriam cair.”

O jornalista recorda também a “sensação de insegurança” provocada pela dimensão de um ataque que até então parecia difícil de imaginar.

No dia seguinte, antes de regressar a casa, passou por Tribeca e Soho, onde existia uma comunidade portuguesa. Foi aí que encontrou pessoas preocupadas com António Rocha, que trabalhava nas Torres Gémeas e de quem não havia notícias. “E eu disse: bem, não me digam que há vítimas portuguesas”, recorda.

Começou assim uma investigação que duraria dois anos. Henrique Mano concentrou-se nas vítimas residentes em Nova Iorque, enquanto Fernando Santos, então chefe de redação do ‘Luso-Americano’, procurou as vítimas de Nova Jérsia.

No total, chegaram a nove nomes. Segundo Mano, nenhuma pessoa era considerada de origem portuguesa antes de existir confirmação da respetiva família.

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António Rocha estava no 105.º andar

Uma das primeiras vítimas identificadas foi precisamente António Rocha, o homem cuja ausência tinha desencadeado a investigação. Tinha 34 anos, chegara aos EUA ainda bebé e era casado e pai de dois filhos. Trabalhava para a empresa de serviços financeiros Cantor Fitzgerald e encontrava-se no 105.º andar da Torre Sul.

O seu corpo esteve entre os primeiros a ser recuperado dos escombros e o funeral realizou-se na Catedral de Newark.

Muito diferente foi o caso de João Aguiar Jr., de 30 anos, cujos restos mortais nunca foram encontrados. Conhecido como J.J., era filho de pai português, tinha nascido nos EUA e passara parte da adolescência em Portugal. Trabalhava na Keefe, Bruyette & Woods e preparava-se para viver com a namorada.

João Aguiar ajudou os colegas a sair

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Segundo a irmã, Taciana Aguiar, João percebeu, depois de o primeiro avião atingir a Torre Norte, que os trabalhadores tinham de abandonar o edifício. Começou a percorrer o escritório, avisou os colegas e certificou-se de que chegavam aos elevadores. “E eles sobreviveram. Sem ele, essas pessoas provavelmente não teriam sobrevivido”, conta Taciana à ‘Euronews’.

João, porém, ainda estava na Torre Sul quando o segundo avião atingiu o edifício.

A família nunca conseguiu determinar exatamente onde se encontrava naquele momento. A irmã admite a possibilidade de ter regressado ao interior para tentar ajudar outras pessoas.

Antes do impacto, João ainda telefonou à namorada para dizer que o primeiro edifício tinha sido atingido e que estavam a sair.

Taciana vivia então em São Francisco e acompanhou os acontecimentos pela televisão. “Quando vi a imagem do segundo avião a cair no segundo prédio, por alguma razão, eu soube imediatamente que ele tinha morrido”, recorda.

Um polícia português entrou nas torres para ajudar

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Além de António Rocha e João Aguiar Jr., três das vítimas identificadas pelo ‘Luso-Americano’ trabalhavam também no setor financeiro no World Trade Center: Raymond James Rocha, de 29 anos, Dennis Gomes, de 40, e Mark Jardim, de 39.

Carlos da Costa, de 41 anos, e António Rodrigues, de 37, pertenciam à Autoridade Portuária.

António Rodrigues não estava nas Torres Gémeas no momento dos impactos. Encontrava-se no terminal de autocarros da Rua 42, mas, como outros agentes da Autoridade Portuária, foi chamado ao World Trade Center para participar nas operações de emergência. Segundo Henrique Mano, Rodrigues integrou o último contingente de 14 polícias que entrou nas torres. Todos morreram.

A sua história foi posteriormente retratada no filme ‘World Trade Center’, de Oliver Stone, no qual António Rodrigues foi interpretado pelo ator Armando Riesco.

Antes de trabalhar para a Autoridade Portuária, Rodrigues tinha sido agente da polícia de Nova Iorque. Segundo Mano, decidira mudar de emprego por considerar que estaria mais seguro.

Um marceneiro no Windows on the World e um jovem dentro do primeiro avião

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Manuel da Mota, de 43 anos, também não trabalhava nas Torres Gémeas.

O marceneiro encontrava-se naquela manhã no Windows on the World, restaurante situado nos pisos superiores da Torre Norte, onde estava a instalar uma garrafeira. O voo 11 da American Airlines atingiu o edifício vários pisos abaixo, deixando encurraladas as pessoas que estavam no restaurante.

Entre as nove vítimas identificadas, apenas uma viajava num dos aviões sequestrados. Christopher Mello, bisneto de açorianos, tinha 25 anos e seguia com um colega no voo AA11 da American Airlines, que viria a atingir a Torre Norte. Estava numa viagem profissional com destino a Los Angeles.

Era a vítima mais jovem entre as nove identificadas pelo jornal.

“Está em todo o lado”

A investigação de Henrique Mano não se limitou às vítimas mortais. O jornalista acompanhou também portugueses e luso-descendentes que escaparam aos atentados e pessoas envolvidas nas operações de salvamento e remoção dos escombros.

Entre as memórias mais fortes dos primeiros dias está o cheiro proveniente do local onde tinham colapsado as torres. “Estavam ali quase três mil pessoas mortas. Foi um cheiro que, aliás, durante alguns dias, eu diria que mesmo uma semana, se espalhou por Manhattan inteiro”, recorda.

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Quando regressou a casa, continuava a senti-lo. Os vizinhos confirmaram-lhe o mesmo: “Está em todo o lado.”

Uma possível décima vítima

Passados 25 anos, Henrique Mano continua a investigar as ligações portuguesas aos atentados.

“Agora surgiu o nome de uma mulher que estou a tentar investigar, tentar saber se ela é ou não de origem portuguesa”, revelou à Euronews.

O jornalista explica que a dificuldade passa novamente por localizar familiares que permitam confirmar a ascendência.

Caso consiga fazê-lo, a lista passará de nove para dez vítimas e incluirá, pela primeira vez, uma mulher.

Para Taciana Aguiar, este 11 de setembro continua também a ser um dia dedicado ao irmão. Como os restos mortais de João nunca foram encontrados, a família não tem uma sepultura onde o possa homenagear.

A irmã costuma por isso deslocar-se à escola St. Julian’s, em Carcavelos, que João frequentou durante a adolescência. Depois da sua morte, a escola instalou um banco com uma placa com o seu nome.

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“Geralmente vou lá e ponho flores. Porque não apareceu o corpo, então, esse é o sítio que eu associo a ele”, explica.

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