Há 25 anos, os Estados Unidos preparavam-se para muitas ameaças. Não para aquela.
Tinham as forças armadas mais poderosas do mundo, serviços de informações com enormes recursos e uma capacidade tecnológica sem paralelo. Mas 19 homens transformaram quatro aviões comerciais em armas e mostraram que uma potência pode possuir meios extraordinários para responder a uma guerra e, ainda assim, não reconhecer a tempo a ameaça que está prestes a atingi-la.
Um quarto de século depois, António Brás Monteiro considera que essa talvez seja uma das lições mais atuais do 11 de Setembro: o perigo não está apenas na ameaça que conhecemos. Está naquela para a qual ainda não estamos a olhar.
E se o teste fosse hoje?
Imagine que Portugal sabia que, dentro de exatamente um ano, enfrentaria uma crise grave.
Não sabemos qual. Nem sequer sabemos se, quando começar, perceberemos imediatamente que começou. Pode surgir no ciberespaço, atingir comunicações ou energia, provocar falhas aparentemente desligadas umas das outras e deixar o país durante horas sem conseguir responder à pergunta mais básica: estamos perante uma avaria, uma catástrofe ou um ataque?
O que deveria Portugal fazer nos próximos 12 meses?
António Brás Monteiro começa por algo muito menos espetacular do que comprar novas armas: garantir que o Estado consegue continuar a decidir e a comunicar quando tudo o resto começa a falhar.
É com esta pergunta virada para o futuro que termina a série de três entrevistas da Executive Digest a propósito dos 25 anos do 11 de Setembro. Depois de Nuno Miguel Lemos e de Mário Vaz, António Brás Monteiro regressa a uma das questões fundamentais daquele dia: como se prepara um país para uma ameaça que pode não reconhecer até ela já estar em curso?
Especialista em Defesa do Fundo Europeu de Defesa e do EU Defence Innovation Scheme, António Brás Monteiro preside também a um estudo do NATO Industrial Advisory Group sobre soluções eficientes de defesa aérea e antimíssil.
A resposta que deixa serve tanto para 2001 como para 2026: “O perigo é concentrarmo-nos tanto na última ameaça que deixamos de reconhecer os sinais da próxima.”
O erro de preparar a próxima guerra com os olhos na anterior
O 11 de Setembro obrigou o Ocidente a transformar profundamente a forma como combatia o terrorismo. Serviços de informações passaram a cooperar mais, reforçou-se a segurança da aviação, cresceram as capacidades de contraterrorismo e duas décadas de operações militares foram moldadas pela chamada “guerra ao terror”.
António Brás Monteiro recusa, porém, a conclusão fácil de que todo esse investimento foi desperdiçado.
“Seria errado dizer que o investimento em contraterrorismo foi inútil. Muitas capacidades desenvolvidas nesse período — partilha de informações, forças especiais, vigilância, proteção de infraestruturas, cooperação policial — continuam a ser extremamente relevantes.”
Mas uma das ironias destes 25 anos é que a resposta ao choque de 2001 criou também um novo risco: depois de termos sido surpreendidos por uma ameaça que não ocupava o centro das prioridades, passámos duas décadas com essa mesma ameaça no centro do horizonte estratégico.
Enquanto isso, na Europa consolidava-se a convicção de que uma guerra convencional entre Estados se tornara altamente improvável.
A anexação da Crimeia pela Rússia, em 2014, foi um primeiro grande aviso. A invasão em larga escala da Ucrânia, em 2022, acabou com a ilusão.
E revelou aquilo que entretanto perdera profundidade. “Durante anos, a defesa convencional perdeu investimento, profundidade e prontidão em áreas como reservas de munições, defesa aérea e antimíssil, fogos de longo alcance, logística, mobilidade militar, prontidão das forças e capacidade industrial.”
A resposta, defende, não é esquecer o terrorismo e voltar simplesmente a preparar guerras convencionais.
É não cometer outra vez o mesmo erro com um inimigo diferente.
“A NATO precisa de manter uma abordagem a 360 graus. O perigo é concentrarmo-nos tanto na última ameaça que deixamos de reconhecer os sinais da próxima.”
Um drone barato. Um míssil de milhões
Há outra transformação que as guerras recentes tornaram impossível ignorar: atacar pode ser muito mais barato do que defender.
“Um dos grandes desafios da defesa moderna é precisamente a assimetria. O atacante escolhe quando, onde e como atacar; o defensor tem de estar preparado de forma muito mais abrangente.”
Um drone relativamente barato pode obrigar à utilização de um intercetor muito mais caro. Se isso acontecer uma vez, o problema pode ser suportável. Se acontecer dezenas, centenas ou milhares de vezes, a matemática começa a fazer parte da guerra.
É por isso que António Brás Monteiro chama a atenção para uma expressão central na defesa contemporânea: cost-exchange ratio, a relação entre o custo necessário para atacar e aquele que o adversário tem de suportar para se defender.
A resposta não pode passar por utilizar sempre o sistema mais sofisticado disponível.
“É necessária uma defesa em camadas, combinando sensores, comando e controlo, guerra eletrónica, meios cinéticos e não cinéticos e medidas de defesa passiva.”
Há aqui, curiosamente, uma ligação direta à lógica do terrorismo que marcou o mundo depois de 2001. “O terrorismo também procura explorar esta assimetria: não precisa apenas de provocar danos diretos, procura muitas vezes induzir uma reação do Estado que seja política, económica ou socialmente mais cara do que o próprio ataque.”
As armas mudaram. O dilema permanece: quanto conseguimos gastar para impedir aquilo que custa muito menos ao adversário provocar?
A segunda noite é mais difícil do que a primeira
Derrubar o primeiro drone ou intercetar o primeiro míssil demonstra capacidade.
Conseguir continuar a fazê-lo na segunda noite, na terceira semana ou depois de meses de conflito demonstra outra coisa: capacidade para sustentar uma guerra.
É precisamente uma das questões em que António Brás Monteiro trabalha atualmente. Como presidente de um estudo do NATO Industrial Advisory Group dedicado a soluções eficientes de defesa aérea e antimíssil, não comenta conclusões internas do trabalho, mas identifica os fatores que determinam durante quanto tempo uma defesa consegue resistir.
“É necessário olhar para a relação custo-eficácia, para a profundidade dos stocks, para a capacidade de reposição e para a capacidade industrial.”
Não basta, portanto, possuir tecnologia capaz de vencer o primeiro duelo.
É preciso ter munições para o seguinte, capacidade para substituir aquilo que foi gasto ou destruído, logística para o fazer chegar onde é necessário e uma indústria capaz de continuar a produzir.
“A vantagem tecnológica é importante, mas precisa de ser acompanhada por prontidão, reservas, indústria, coesão e capacidade de adaptação.”
A primeira noite testa as armas.
As seguintes testam o país que existe por detrás delas.
O ataque que pode parecer uma avaria
Mas a próxima crise pode nem começar com um míssil num radar ou forças militares a atravessar uma fronteira.
Uma rede informática falha. Uma infraestrutura energética deixa de funcionar. Surgem problemas nas comunicações. Horas depois, acontece outra coisa noutro ponto do país.
Acidentes? Coincidências? Sabotagem? Uma operação coordenada?
Há aqui um eco direto de 2001. Antes dos atentados existiam informações e sinais em diferentes pontos do sistema. Para António Brás Monteiro, uma das grandes lições daquele dia passa precisamente pela necessidade de conseguir reunir informação dispersa, interpretá-la e transformá-la numa imagem coerente a tempo.
“A grande lição foi a necessidade de fundir informação dispersa e conseguir compreendê-la a tempo.”
Vinte e cinco anos depois, os sinais podem ser muito diferentes. “Precisamos de boas capacidades de indications and warning, de uma imagem situacional comum e de mecanismos que permitam ligar sinais que, isoladamente, podem parecer irrelevantes.”
O desafio é fazê-lo sem cair no extremo oposto: encontrar uma conspiração em cada falha ou transformar coincidências em ataques.
É aqui que Portugal entra diretamente na conversa.
O especialista considera que o país dispõe de profissionais de elevada qualidade e vê positivamente a modernização do Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP), mas identifica necessidades de recrutamento, retenção, formação e tecnologia.
Sobretudo, propõe uma medida bastante simples para avaliar se o sistema funciona: “O verdadeiro teste é quanto tempo demora desde que surgem sinais dispersos até existir uma consciência partilhada da situação, uma avaliação coerente e uma decisão política.”
Em 2001, a dificuldade foi ligar sinais antes que quatro aviões fossem transformados em armas. Na próxima crise, o primeiro desafio pode ser simplesmente perceber que várias coisas que parecem estar a correr mal fazem, afinal, parte da mesma coisa.
A zona cinzenta antes da guerra
E se concluirmos que estamos realmente a ser atacados?
Um grande ciberataque ou uma operação híbrida contra Portugal poderia levar à intervenção da NATO, mas não existe uma fórmula pública que estabeleça quantos sistemas têm de falhar, quanto dano tem de ser provocado ou quantas vítimas têm de existir para ser acionada a defesa coletiva.
António Brás Monteiro considera que essa ambiguidade é necessária.
“Não existe um limiar automático publicado, e ainda bem. Se existisse, estaríamos a dizer ao adversário exatamente até onde poderia ir sem provocar uma resposta coletiva.”
Um ataque cibernético ou híbrido pode atingir o patamar de um ataque armado e levar à aplicação do Artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte, mas a avaliação é feita caso a caso.
E um aliado não precisa de esperar por esse momento: o Artigo 4.º permite consultas quando considera ameaçadas a sua integridade territorial, independência política ou segurança.
Entre a paz absoluta e uma guerra declarada existe, portanto, uma vasta zona cinzenta.
É também aí que um adversário pode tentar descobrir até onde consegue ir.
Aquilo que Portugal não pode deixar parar
Nenhum país consegue proteger permanentemente tudo.
António Brás Monteiro prefere, por isso, inverter a pergunta. Em vez de começar por decidir que edifícios ou infraestruturas merecem maior proteção, importa identificar as funções sem as quais o país deixa de conseguir funcionar.
“Continuidade da decisão política, energia, comunicações, água, alimentação, saúde e transportes.”
É a lógica da resiliência.
Uma infraestrutura pode ser atingida. Uma rede pode falhar. Um serviço pode ficar temporariamente indisponível. O objetivo é impedir que essa falha desencadeie outras e acabe por paralisar o sistema.
Isso exige redundâncias nas comunicações, autonomia e segurança energética, proteção de infraestruturas críticas e capacidade de partilha de informação entre o Estado e os operadores privados.
Porque numa sociedade moderna grande parte daquilo que mantém um país em funcionamento já não está exclusivamente nas mãos do Estado.
E resistir a uma crise pode depender tanto da capacidade de continuar a funcionar como da capacidade de impedir o ataque.
Portugal tem um ano. O relógio começa agora
Talvez seja essa a diferença mais importante entre preparar o próximo 11 de Setembro e preparar-se simplesmente para repetir o anterior: ninguém sabe que forma terá a próxima grande crise.
Voltemos ao cenário inicial.
É setembro de 2026. Portugal sabe que enfrentará uma crise grave dentro de um ano. Não sabe de onde virá, quem estará por detrás dela ou que forma terá.
Qual é a primeira decisão?
António Brás Monteiro não responde caças. Não responde fragatas. Não responde mísseis. “Começaria pela continuidade da decisão, coordenação e comunicações do Estado.”
Forças de segurança, serviços de informações, Forças Armadas, proteção civil, hospitais, municípios e operadores de serviços essenciais teriam de conseguir trocar informação, comunicar entre si e preservar uma cadeia de decisão sob pressão.
Só depois chega uma lista bastante menos militar do que seria possível esperar numa entrevista sobre segurança e defesa:
“Combustível, medicamentos, alimentos e água potável.”
A água precisa de energia para ser tratada e distribuída. Os hospitais precisam de continuar a funcionar. As comunicações necessitam de redundâncias. O abastecimento precisa de alternativas quando uma cadeia é interrompida.
Uma crise nacional pode, afinal, tornar-se visível não num campo de batalha, mas numa bomba de combustível, numa farmácia, num hospital ou numa torneira.
E há outra coisa que António Brás Monteiro faria durante esses 12 meses.
Testaria o país.
Não através de um exercício confortável em que cada problema surge isoladamente e a resposta prevista funciona como estava escrito no papel. Mas através de cenários exigentes, com várias falhas simultâneas, capazes de revelar aquilo que só costuma aparecer quando um sistema é verdadeiramente colocado sob pressão.
Nem todas as vulnerabilidades poderiam ser corrigidas num ano. Mas poderiam ser descobertas. E preparar algo que pode nunca acontecer encerra um problema político particular. “A prevenção tem um paradoxo: quando funciona, nada acontece.”
É precisamente por isso que longos períodos de tranquilidade podem criar a ilusão de que a preparação deixou de ser urgente. “A ausência de incidentes não deve ser confundida com a ausência de ameaça.”
A melhor altura para descobrir até onde Portugal consegue resistir, porém, é antes de alguém decidir descobrir por nós. “Os exercícios servem para descobrir falhas antes de o adversário ou uma catástrofe as descobrir por nós.”
















