A Polícia Judiciária (PJ) detetou indícios da eventual prática dos crimes de abuso de poder e descaminho na sequência das averiguações realizadas à deslocação de um atrelado apreendido numa investigação por tráfico de droga, que acabou à guarda de um empreiteiro amigo de Luís Neves, atual ministro da Administração Interna e antigo diretor nacional da PJ. Os elementos recolhidos foram comunicados ao procurador-geral da República, Amadeu Guerra, que determinou a abertura imediata de um inquérito. Por envolver um ministro em funções, o processo terá de ser conduzido por um procurador-geral adjunto do Tribunal da Relação de Lisboa.
Segundo noticia o Expresso, as diligências preliminares realizadas pela PJ afastaram, para já, a hipótese de o empreiteiro João Carvalho ter furtado o atrelado, conhecido como “galera”. O veículo encontrava-se armazenado num terreno da Autoridade Marítima utilizado pela PJ para guardar embarcações e outro material apreendido e continha milhares de litros de acetona, substância alegadamente destinada ao fabrico de droga. A Marinha terá solicitado a remoção do atrelado, mas a atual direção da PJ, liderada por Carlos Cabreiro, afirma que apenas teve conhecimento da deslocação no dia 14 de julho, tendo instaurado de imediato um inquérito para apurar as circunstâncias da movimentação, por considerar que poderiam estar em causa ilícitos criminais.
Luís Neves, citado anteriormente pelo Diário de Notícias, sustenta que todo o processo estava devidamente documentado e era do conhecimento da polícia. No entanto, a investigação preliminar da PJ concluiu existir fundamento para admitir a eventual prática dos crimes de abuso de poder e descaminho, cabendo agora ao Ministério Público confirmar ou afastar essas suspeitas. De acordo com as informações disponíveis, o ministro ainda não foi ouvido no âmbito do processo e, contactado através do seu gabinete, respondeu apenas que, “neste momento”, não tem comentários a fazer.
A investigação decorre também sobre os procedimentos adotados na guarda de bens apreendidos pela Polícia Judiciária. Regra geral, estes ficam armazenados em terrenos do Estabelecimento Prisional de Tires ou, quando necessário, em instalações alugadas, marinas ou espaços disponibilizados pela Marinha devido à falta de capacidade. Segundo uma fonte judicial, não é prática habitual nem considerada normal que bens apreendidos pela PJ sejam confiados à guarda de particulares, circunstância que está igualmente a ser analisada no âmbito do inquérito agora aberto pelo Ministério Público.




