Os Estados Unidos reuniram representantes de 66 países em Washington para uma cimeira dedicada ao combate ao que a administração de Donald Trump considera ser uma nova vaga de terrorismo político de extrema-esquerda.
Segundo o jornal espanhol ‘El País’, o encontro, presidido pelo secretário de Estado Marco Rubio, foi informalmente apelidado de “cimeira Antifa” e faz parte de uma estratégia iniciada há oito meses para mobilizar aliados internacionais em torno desta prioridade da política externa americana.
Na sessão de abertura, Rubio defendeu que a ameaça está a ressurgir à escala global.
“É uma ameaça real e transnacional que existe há décadas, mas que agora está a ressurgir”, afirmou.
Rubio traça paralelo com a Guerra Fria
Num discurso de cerca de 20 minutos, Rubio descreveu aquilo que considera ser uma rede internacional de grupos extremistas de esquerda, alegando que os seus membros viajam entre países para planear ações conjuntas, trocar informações sobre alvos, recrutar militantes e obter financiamento através de canais internacionais.
O chefe da diplomacia americana referiu ainda que estes grupos atacam infraestruturas críticas, como oleodutos, gasodutos, linhas ferroviárias, redes elétricas e laboratórios.
Para sustentar a sua tese, evocou organizações históricas como as Brigadas Vermelhas italianas, os Tupamaros uruguaios, a Organização Revolucionária 17 de Novembro, na Grécia, ou os grupos americanos Weather Underground e Exército de Libertação Negra.
Segundo Rubio, o Ocidente enfrenta agora “uma nova vaga deste velho mal”.
“Há um duplo critério”
O secretário de Estado acusou ainda parte da comunicação social, das universidades e do meio académico de minimizar a violência da extrema-esquerda.
Na sua opinião, existe um “duplo padrão” na forma como são avaliados os extremismos de direita e de esquerda, defendendo que a ameaça representada por organizações radicais de esquerda é frequentemente desvalorizada.
66 países presentes, Portugal ausente da lista divulgada
De acordo com o ‘El País’, participaram representantes de 66 países da Europa, Ásia e continente americano.
Entre eles estavam Espanha, Alemanha, Itália, Canadá, Argentina, Chile, Uruguai e Israel.
O jornal espanhol refere que México, Brasil, China, Colômbia e Nicarágua não constavam da lista disponibilizada pelo Departamento de Estado. Também Portugal não surge entre os países identificados na informação divulgada.
Washington financia organizações alinhadas com o movimento MAGA
A reunião aconteceu poucos dias depois de o Departamento de Estado anunciar um programa de apoios até três milhões de dólares destinado a organizações europeias que partilhem princípios próximos do movimento Make America Great Again (MAGA).
Segundo o El País, os financiamentos destinam-se a projetos relacionados com soberania nacional, migração, combate ao que Washington considera ser censura e utilização política do sistema judicial, bem como ao reforço dos chamados “laços civilizacionais” entre os Estados Unidos e a Europa.
Administração Trump muda prioridades no combate ao terrorismo
A cimeira insere-se numa alteração mais ampla da estratégia antiterrorista da administração Trump.
Nos últimos meses, Washington passou a dar menos prioridade ao terrorismo islâmico e concentrou a atenção no narcotráfico e no combate a grupos políticos radicais de esquerda, que considera uma ameaça crescente à segurança nacional.
Em setembro, Donald Trump anunciou a designação da Antifa como organização terrorista. Mais tarde, os Estados Unidos classificaram quatro grupos europeus ligados aos movimentos anarquistas e antifascistas como organizações terroristas estrangeiras.
Especialistas pedem cautela
Apesar da nova estratégia americana, os dados disponíveis não apontam para uma predominância da violência de extrema-esquerda.
O ‘El País’ cita um estudo do Center for Strategic and International Studies (CSIS), segundo o qual os ataques atribuídos à extrema-esquerda têm aumentado nos Estados Unidos nos últimos anos.
Ainda assim, a investigação conclui que essa violência continua “muito abaixo dos níveis históricos” registados em ataques perpetrados por extremistas de direita e por grupos jihadistas, embora preveja que, até 2025, os incidentes ligados à extrema-esquerda possam ultrapassar, pela primeira vez em mais de três décadas, os associados à extrema-direita violenta.




