Empresário contratado por Luís Neves e 17 vezes pela PJ acumula historial de insolvências e dívidas

O empresário de Barcelos João Carvalho, apontado como amigo do ministro da Administração Interna, Luís Neves, foi contratado 17 vezes pela Polícia Judiciária (PJ) entre 2019 e 2025.

Revista de Imprensa

O empresário de Barcelos João Carvalho, apontado como amigo do ministro da Administração Interna, Luís Neves, foi contratado 17 vezes pela Polícia Judiciária (PJ) entre 2019 e 2025, apesar do historial de insolvências, dissoluções de empresas e litígios judiciais associados a várias sociedades em que participou ao longo dos últimos anos. No total, segundo dados da própria PJ, os contratos celebrados com a empresa Construbarcelos ascenderam a cerca de 2,3 milhões de euros, enquanto o empresário continua também no centro da polémica relacionada com as obras realizadas na propriedade do ministro, em São Teotónio, no concelho de Odemira.

De acordo com a informação apurada pelo jornal Público, João Carvalho esteve ligado a 14 sociedades de diferentes áreas de atividade, desde a construção civil à restauração, contabilidade, transporte de mercadorias, aluguer de automóveis e até uma tabacaria. Atualmente, apenas duas dessas empresas permanecem em funcionamento: a Construbarcelos, responsável pela empreitada na propriedade de Luís Neves, e a empresa de mediação imobiliária Medicuca. Entre as restantes sociedades registam-se processos de insolvência judicial, dissoluções e dívidas. O jornal refere ainda que, nas obras que continuam a decorrer na propriedade do ministro, foram encontrados bonés identificados com uma das empresas entretanto declaradas insolvente, a Construções João & Martins, Lda. Além disso, a Construbarcelos foi alvo de várias ações judiciais nos últimos quatro anos, algumas relacionadas com alegadas dívidas a fornecedores, embora também figure como credora de empresas que acabaram por entrar em insolvência.

Luís Neves explicou que conheceu João Carvalho no final de 2023, durante a fase de conclusão de uma obra executada pela Construbarcelos para a Polícia Judiciária na Guarda, situando o início da amizade em 2024. Posteriormente, solicitou ao empresário uma opinião técnica sobre as intervenções que pretendia realizar na sua propriedade em São Teotónio. As obras serão agora alvo de fiscalização pela Câmara Municipal de Odemira, embora o ministro sustente que não foi necessário qualquer licenciamento. Ainda assim, a construção de uma piscina — que Luís Neves classifica como um “tanque” — motivou dúvidas e alertas. Nos últimos dias, o governante admitiu publicamente arrepender-se de ter recorrido a um fornecedor habitual da PJ para uma obra privada, afirmando: “Sabendo o que sei hoje, naturalmente que o percurso teria sido diferente, sem nunca renegar a amizade.”

Questionada sobre os critérios utilizados para selecionar fornecedores, a Polícia Judiciária esclareceu que o historial de insolvências, dívidas ou a situação de sócios e gerentes não constitui, por si só, fundamento legal para excluir uma empresa dos procedimentos de contratação pública, salvo quando existam impedimentos previstos na lei ou irregularidades na documentação exigida. A instituição explicou que a Construbarcelos passou a integrar o conjunto de fornecedores da PJ após participar em concursos públicos e apresentar todos os requisitos legalmente exigidos. A polícia acrescentou ainda que o eventual facto de um fornecedor estar sob investigação criminal também não impede automaticamente a celebração de contratos, desde que não exista qualquer impedimento legal. Relativamente à Construbarcelos, a PJ garantiu que, no momento das adjudicações, não dispunha de elementos que permitissem concluir pela existência de qualquer impedimento legal à sua contratação.

Entretanto, o Observador revelou o valor de 108 faturas emitidas por 13 empresas que forneceram materiais e executaram trabalhos na propriedade de São Teotónio, documentação que, segundo o jornal, foi disponibilizada pelo Ministério da Administração Interna. O gabinete de Luís Neves recusou, contudo, facultar esses documentos a outros órgãos de comunicação social. Entre todas as empresas envolvidas, a Construbarcelos foi a que apresentou a faturação mais elevada, tendo recebido cinco mil euros, pagos através da empresa de alojamento local da mulher do ministro, a Alcampos, mediante duas faturas emitidas em 11 e 20 de fevereiro de 2025. Apesar da divulgação destes elementos, Luís Neves reafirmou que não pretende prestar novos esclarecimentos sobre as obras enquanto a intervenção na propriedade não estiver concluída.

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