Durante anos, a expressão “carro chinês” carregou mais desconfiança do que desejo. Hoje, a conversa mudou. A BYD entrou em Portugal num momento de aceleração elétrica, ganhou notoriedade em pouco tempo e tornou-se, para muitos condutores, a marca chinesa mais facilmente reconhecível no meio de uma vaga crescente de fabricantes vindos da China.
Mas o desafio já não é apenas ser conhecida. É convencer o mercado de que não veio só vender carros, mas construir uma presença de longo prazo, com produto, rede, assistência e confiança. É neste ponto que Pedro Cordeiro, COO da BYD Portugal, coloca a marca: não como uma promessa exótica, mas como um protagonista da transformação da mobilidade.
“O reconhecimento é consequência do trabalho”
A BYD é hoje, para muitos portugueses, a marca chinesa que todos conseguem identificar. Quando questionado sobre se isso faz da marca uma espécie de “Ronaldo dos carros chineses” em Portugal, Pedro Cordeiro prefere responder sem metáforas, mas reconhece a responsabilidade acrescida.
“Aquilo que podemos afirmar é que a BYD conquistou, num curto espaço de tempo, um elevado nível de reconhecimento junto dos consumidores portugueses, fruto da consistência da sua estratégia e da qualidade da sua oferta”, afirma, à ‘Executive Digest’.
Essa posição, acrescenta, traz exigência. “Não apenas enquanto marca, mas também enquanto um dos protagonistas da transformação da mobilidade. O nosso compromisso é continuar a elevar os padrões da indústria, através da inovação, da qualidade, da segurança e de uma visão de longo prazo para o mercado português. O reconhecimento é uma consequência desse trabalho e não um objetivo em si mesmo.”
O fim do preconceito contra o “carro chinês”
Durante muito tempo, a origem chinesa foi vista como fragilidade. Hoje, a BYD quer discutir tecnologia, eficiência, segurança e custo total de utilização com marcas europeias históricas. Para Pedro Cordeiro, a mudança não aconteceu apenas no produto. Aconteceu também no olhar dos consumidores.
“A evolução mais relevante verificou-se na maturidade tecnológica e industrial dos fabricantes de novas energias, com particular destaque para empresas como a BYD, que hoje operam com um elevado nível de integração vertical e capacidade de desenvolvimento próprio em áreas críticas como baterias, sistemas elétricos e arquitetura eletrónica”, explica.
Ao mesmo tempo, diz, o mercado europeu tornou-se mais aberto à comparação objetiva. “A decisão de compra é hoje fortemente influenciada por critérios como eficiência, tecnologia, segurança e custo total de utilização. Essa evolução tem permitido que a avaliação das marcas seja cada vez mais baseada no produto e menos em perceções de origem.”
Elétricos, sim — mas os híbridos plug-in entraram no jogo
A BYD chegou à Europa associada ao carro 100% elétrico, mas está agora a reforçar a aposta nos híbridos plug-in. A marca chama-lhes Super Híbridos Plug-in DM-i e vê neles uma ponte entre dois mundos: a condução elétrica no dia a dia e a autonomia alargada para quem ainda não quer depender totalmente da rede de carregamento.
Pergunta: A BYD chegou à Europa como promessa elétrica, mas está cada vez mais a atacar também com híbridos plug-in. Isto é pragmatismo comercial ou é o reconhecimento de que a transição 100% elétrica está a avançar mais devagar do que se previa?
Resposta: “A estratégia da BYD mantém-se inalterada: liderar a transição para a mobilidade eletrificada. O que fazemos é adaptar a nossa oferta à realidade de cada mercado e às diferentes necessidades dos consumidores.
Em Portugal, tal como noutros mercados europeus, verificamos que a adoção da mobilidade elétrica evolui a ritmos distintos, influenciada por fatores como a infraestrutura de carregamento, os padrões de utilização ou as necessidades de cada cliente. Nesse contexto, a tecnologia Super Híbrida Plug-in DM-i assume-se como uma solução complementar aos veículos 100% elétricos, permitindo acelerar a eletrificação sem comprometer a flexibilidade de utilização.”
Essa estratégia já se traduz numa gama cada vez mais ampla. O novo BYD DOLPHIN G DM-i aponta ao segmento B, com até 105 quilómetros de autonomia em modo 100% elétrico e mais de 1.000 quilómetros de autonomia combinada. O ATTO 2 DM-i dirige-se a quem prefere um SUV compacto, enquanto o SEAL U DM-i, o SEAL 6 DM-i e o SEAL 6 DM-i Touring procuram famílias e clientes que valorizam espaço, conforto e longas distâncias.
O Dolphin G DM-i quer ser pequeno por fora e grande na autonomia
O DOLPHIN G DM-i surge como um modelo-chave para a BYD em Portugal. É compacto, mas promete autonomia de carro grande. É híbrido plug-in, mas tenta convencer quem quer fazer a maioria dos percursos em modo elétrico. E chega a um segmento onde preço, eficiência e confiança contam tanto como imagem ou tecnologia.
Pergunta: O novo DOLPHIN G DM-i chega num mercado muito competitivo. Quais são as três características que mais o distinguem para o cliente português?
Resposta: “O BYD DOLPHIN G DM-i introduz uma proposta diferenciadora no segmento B europeu, sobretudo pela forma como combina eficiência, tecnologia e versatilidade num formato compacto.
Em primeiro lugar, a eficiência da tecnologia DM 5.0, que otimiza a interação entre motor elétrico e motor térmico, resultando num consumo ponderado de cerca de 1,4 l/100 km em utilização combinada.
Em segundo lugar, a autonomia elétrica até 105 km, que permite realizar a maioria das deslocações diárias em modo exclusivamente elétrico, sem comprometer a flexibilidade em viagens longas.
Por último, a autonomia total até 1.040 km, que posiciona o modelo como uma solução particularmente versátil dentro do segmento dos compactos, respondendo a diferentes padrões de mobilidade.”
A resposta mostra bem o posicionamento da BYD: não vender apenas a ideia de eletrificação, mas uma promessa de uso simples. Em Portugal, onde o preço dos combustíveis, o custo total de utilização e a rede de carregamento pesam na decisão, a marca sabe que muitos clientes ainda querem a segurança psicológica de uma autonomia longa. A tecnologia DM-i é a forma encontrada para responder a essa hesitação sem abandonar a narrativa elétrica.
A vantagem de fazer tudo em casa
Outro trunfo que a BYD repete com frequência é a integração vertical. A marca desenvolve internamente componentes críticos como baterias, motores elétricos, semicondutores, sistemas de gestão térmica e arquitetura eletrónica. No discurso corporativo, isto é uma vantagem industrial. Para o cliente, Pedro Cordeiro traduz em benefícios concretos.
“A integração vertical é um dos principais fatores diferenciadores da BYD e faz parte do ADN da marca enquanto empresa tecnológica”, afirma. Ao controlar uma parte relevante da cadeia de valor, a marca consegue, diz, garantir “maior consistência na qualidade e na integração entre todos os sistemas do veículo”.
Na prática, esta abordagem permite acelerar a inovação, reduzir dependências de fornecedores externos, melhorar a eficiência produtiva e reforçar a disponibilidade de produto. Para o cliente, resume Pedro Cordeiro, significa “tecnologia desenvolvida de raiz pela própria marca, elevada qualidade de integração entre os diferentes componentes, inovação contínua e uma relação muito competitiva entre equipamento, desempenho, eficiência e custo total de utilização”.
Portugal não se conquista só pelo preço
Portugal é um mercado pequeno, mas muito atento ao preço, aos incentivos e aos custos de utilização. Ainda assim, Pedro Cordeiro rejeita a ideia de que a estratégia da BYD passe apenas por competir pelo preço.
“A estratégia da BYD em Portugal assenta numa abordagem equilibrada entre tecnologia, acessibilidade e construção de uma rede de suporte robusta”, explica. “Num mercado particularmente sensível ao custo total de utilização, o foco não está apenas no preço de aquisição, mas na proposta global do veículo, que inclui eficiência energética, autonomia, nível de equipamento e experiência de utilização.”
A ambição, diz, é consolidar uma presença sustentável, apoiada em produto tecnologicamente avançado e numa estrutura comercial e de pós-venda capaz de acompanhar o crescimento da marca.
O verdadeiro teste começa depois da venda
O crescimento rápido de uma marca automóvel traz dúvidas conhecidas: assistência, peças, tempos de espera, valor residual e capacidade da rede. A BYD sabe que este é o ponto onde uma marca nova ganha ou perde confiança.
Pergunta: O crescimento rápido também traz riscos: assistência, peças, tempos de espera, valor residual e confiança no pós-venda. Como é que a BYD quer convencer os portugueses de que não está apenas a vender carros, mas a construir uma presença de longo prazo no país?
Resposta: “A confiança no setor automóvel constrói-se através da continuidade operacional e da consistência da experiência do cliente.
A BYD tem vindo a reforçar a sua estrutura em Portugal ao nível da rede de concessionários oficiais, da capacitação técnica dos parceiros e da disponibilização de serviços de assistência e pós-venda.
Num modelo de mobilidade cada vez mais tecnológico, a relação com o cliente estende-se muito para além do momento da compra. O compromisso da BYD está precisamente em garantir que essa relação assenta em estabilidade, previsibilidade e suporte contínuo ao longo do ciclo de vida do veículo.”
É talvez a resposta mais importante da entrevista, porque toca no tema que separa crescimento rápido de consolidação real. Uma marca pode entrar no mercado com bons preços, boa tecnologia e curiosidade mediática. Mas só se torna uma referência quando consegue dar resposta depois da venda.
Veio vender carros ou construir uma marca?
Pedro Cordeiro enquadra a ambição nacional na estratégia global da BYD, centrada na liderança da mobilidade de novas energias. O crescimento em volume é assumido como consequência possível, mas não como o único objetivo.
“O projeto da BYD em Portugal insere-se na estratégia global da marca de liderança na mobilidade de novas energias”, afirma. A ambição passa por desempenhar “um papel relevante na democratização do acesso a tecnologias eletrificadas”, com modelos como o DOLPHIN G DM-i a servirem de exemplo dessa abordagem.
“O crescimento em volume será uma consequência natural da aceitação do produto e da maturação do mercado, mas o foco principal está na consolidação de uma presença consistente, tecnológica e de longo prazo”, acrescenta.
A frase ajuda a perceber o momento da BYD. A marca já não quer ser apresentada apenas como a maior novidade chinesa do mercado. Quer disputar o centro da conversa automóvel: tecnologia, eficiência, eletrificação, preço, rede e confiança.
Em Portugal, a BYD tem agora uma missão dupla. Por um lado, aproveitar o crescimento da procura por soluções eletrificadas. Por outro, provar que consegue acompanhar esse crescimento com estrutura, serviço e consistência. O DOLPHIN G DM-i será um dos primeiros testes desta nova fase: compacto, eletrificado, com autonomia longa e pensado para clientes que ainda querem flexibilidade.
A BYD não quer ser apenas a marca chinesa que todos reconhecem. Quer ser a marca que os portugueses colocam na lista quando pensam no próximo carro. E isso, no setor automóvel, é uma diferença muito maior do que parece.












