“Os custos tarifários têm subido a um ritmo inferior ao da inflação”: Nuno Fitas Mendes, REN Portgás

Em entrevista à Executive Digest, Nuno Fitas Mendes, Administrador Delegado da REN Portgás, explica o investimento de 129 milhões de euros até 2031 para expandir e modernizar a rede de distribuição de gás no Norte do país.

André Manuel Mendes

A REN Portgás quer investir 129 milhões de euros até 2031 para expandir e modernizar a rede de distribuição de gás no Norte do país, preparando-a para uma nova geração de gases renováveis.

O plano passa pelo reforço da infraestrutura, pela digitalização da operação e pela criação de condições para integrar biometano e hidrogénio, numa região que concentra metade do valor acrescentado bruto industrial de Portugal.

Em entrevista à Executive Digest, Nuno Fitas Mendes, Administrador Delegado da REN Portgás, explica como pretende acelerar a descarbonização da rede, manter as tarifas estáveis e garantir que a transição energética não penaliza consumidores nem empresas.

 

Quais são os principais objetivos estratégicos do Plano de Investimento 2027–2031 da Portgás?

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A REN Portgás tem uma concessão que atua em apenas 5% do continente, uma região em que a indústria representa cerca de 50% do Valor Acrescentado Bruto (VAB) de todo o país, e que abastece 25% dos consumidores de gás do país. A rede da Portgás interliga mais de 400 mil pontos de abastecimento e 1,2 milhões de pessoas, sendo que 80% do gás distribuído é para a indústria.

Ora, o Plano de Investimento 2027–2031 apresenta projetos de investimento que visam o alargamento e a densificação da rede nos 29 concelhos que servimos no Porto, Braga e Viana do Castelo, com prioridade às zonas de procura latente. Esses investimentos já contemplam a preparação da rede para gases renováveis, com pontos de injeção de biometano e critérios de prontidão para a mistura de hidrogénio. São investimentos que permitem continuar a assegurar a qualidade do abastecimento e do serviço, assim como aumentar a eficiência das nossas operações.

 

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Qual o valor global deste investimento?

O plano prevê um investimento global da ordem dos 129 milhões de euros no período 2027–2031, distribuído ao longo dos cinco anos. Trata-se de investimento regulado, sujeito a validação pela ERSE segundo critérios de prudência e de equilíbrio económico. A sua afetação concentra-se em três frentes: expansão e densificação da rede; resiliência da rede, segurança e digitalização da infraestrutura existente; e preparação para gases renováveis. É um esforço de investimento calibrado para gerar retorno social e económico no território.

 

Quando fala em aposta nos gases renováveis, que tecnologias ou soluções estão concretamente em cima da mesa?

O biometano é a prioridade de curto e médio prazo: é uma molécula madura, compatível com a rede existente e com os equipamentos dos clientes, e com potencial relevante no Norte, dada a base agropecuária e de resíduos orgânicos da região. Já o hidrogénio renovável tem um horizonte mais industrial e de mais longo prazo, onde é possível garantir a integração em contexto de mistura na rede de distribuição até 20%.

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Para acelerar esta transição, precisamos de reunir três condições: quadro regulatório estável e previsível, incluindo a transposição do Pacote do Gás Descarbonizado europeu; mecanismos de procura, como metas de incorporação e garantias de origem, que criem mercado; e licenciamento ágil para as unidades de produção.

 

Qual é o potencial real de substituição do gás natural por gases renováveis na rede da Portgás?

É importante perceber que a rede está tecnicamente apta a receber estas moléculas. O fator limitante não é a infraestrutura, mas sim a maturidade da oferta e do enquadramento de mercado. O potencial é real e significativo, mas concretiza-se de forma faseada. Até 2031, a REN Portgás tem no seu roadmap a descarbonização de mais de 20% do gás distribuído através de biometano.

No curto e médio prazo, o biometano é o substituto com potencial efetivo, e a região Norte reúne condições favoráveis pela disponibilidade de matéria-prima. Contudo, o ritmo de substituição depende diretamente do investimento em capacidade de produção, que ainda está numa fase inicial em Portugal. É realista perspetivar uma trajetória de incorporação crescente e progressiva, e não uma substituição total e imediata. O hidrogénio renovável acrescentará potencial sobretudo em segmentos industriais e num horizonte mais alargado.

 

A infraestrutura atual está preparada para essa transição ou serão necessárias adaptações significativas?

Para o biometano e o gás sintético, a rede está, em larga medida, preparada: a molécula é compatível com a infraestrutura e com os equipamentos dos clientes, sendo necessárias sobretudo adaptações localizadas — pontos de injeção e gestão de pressão e da qualidade da molécula. Não exige uma reconfiguração profunda da rede.

No caso do hidrogénio, o Grupo REN implementou em 2022 o programa H2REN, tendo garantido todas as condições para a injeção e gestão de hidrogénio em contexto de blending até 20% na rede de distribuição.

 

Quem suporta o custo da transição para gases renováveis: consumidores, indústria ou o sistema?

Será repartido, e o desenho dessa repartição é decisivo. A questão central é a justiça da alocação: os custos de ligação e de socialização das infraestruturas de gases renováveis devem ser repartidos de modo equilibrado, sem onerar desproporcionadamente os consumidores domésticos.

O investimento na produção de gases renováveis cabe sobretudo a produtores e investidores privados, apoiados por instrumentos públicos e europeus de financiamento. E a procura tem de ser estimulada por mecanismos de mercado, como metas de incorporação e garantias de origem, que distribuem o custo através desses mesmos mecanismos.

Note-se, no entanto, que o sistema tarifário de gás não gera défice para as famílias. Aliás, os custos tarifários têm subido a um ritmo inferior ao da inflação.

 

O plano prevê uma «evolução equilibrada» das tarifas. O que significa isso concretamente para famílias e empresas?

Significa previsibilidade e moderação, em contraste com aumentos abruptos. Temos de assegurar que o investimento necessário é recuperado de forma gradual e suavizada no tempo, sem choques tarifários, e que os ganhos de escala e de eficiência operacional compensam esse esforço.

Para as famílias, traduz-se em estabilidade e ausência de surpresas na fatura. Para as empresas, traduz-se em previsibilidade — fator essencial para quem planeia investimentos a vários anos e precisa de saber com que custo de energia pode contar.

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