O presidente francês, Emmanuel Macron, terá sugerido ao primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, que o Canadá poderia aproximar-se da União Europeia ao ponto de ser considerado um candidato legítimo à adesão, avança o El Español. O argumento assenta numa particularidade geográfica pouco conhecida: o Canadá partilha uma fronteira terrestre com a Dinamarca na ilha de Hans, situada perto da Gronelândia.
A ideia surgiu durante um almoço no Palácio do Eliseu, em Paris, em maio de 2025, poucos dias depois de Carney ter assumido funções como primeiro-ministro. A visita rompeu com a tradição política canadiana de reservar a primeira deslocação internacional para Washington.
Na altura, Carney procurava reduzir a dependência do Canadá em relação aos Estados Unidos, depois de declarações de Donald Trump sobre a possibilidade de transformar o país no 51.º estado americano e de novas ameaças comerciais contra Ottawa.
A ilha de Hans e a fronteira que liga o Canadá à Europa
A base geográfica da sugestão de Macron está na ilha de Hans, um pequeno território desabitado no canal de Kennedy, entre a costa da Gronelândia e a ilha canadiana de Ellesmere. O ilhéu tem cerca de quilómetro e meio de extensão e é dividido entre o Canadá e a Dinamarca, através da Gronelândia.
Essa fronteira, embora remota, permitiria defender que o Canadá tem uma ligação terrestre a um Estado-membro da União Europeia. Foi com esse argumento que Macron terá colocado em cima da mesa a possibilidade de o país norte-americano se aproximar da UE por uma via mais direta.
Carney, segundo a informação disponível, sorriu perante a proposta, mas não a tratou como uma simples brincadeira. O primeiro-ministro canadiano estava então a procurar novas alianças estratégicas e via a Europa como alternativa à dependência económica, militar, tecnológica e financeira em relação aos Estados Unidos.
Canadá procura reduzir dependência dos Estados Unidos
A relação entre Ottawa e Washington tinha-se degradado depois de Trump ter insistido na ideia de anexar o Canadá e de ter aumentado a pressão tarifária. De acordo com a investigação citada no texto original, Carney recordou uma frase atribuída a Trump ao seu antecessor, Justin Trudeau: “Se romper o tratado de 1908, todo o teu país desmorona-se.”
Para Carney, a mensagem confirmou uma mudança profunda: o aliado histórico do Canadá passava a ser encarado como uma ameaça potencial.
O primeiro-ministro canadiano começou então a olhar para a Europa como parceiro estratégico. Depois de Paris, deslocou-se a Londres para se encontrar com o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer. No entanto, o Reino Unido manteve uma postura cautelosa, receando provocar uma reação negativa de Trump e novas tarifas sobre a economia britânica.
Apesar dessa prudência britânica, o rei Carlos III demonstrou apoio a Ottawa ao visitar oficialmente o Canadá no final de maio, participando na cerimónia de abertura do Parlamento.
Europa ganha peso na estratégia de Carney
Carney voltou a insistir na aproximação à Europa durante a cimeira do G20, realizada no final de novembro em Joanesburgo. Aí conseguiu reforçar o apoio de Macron e atrair também o presidente finlandês, Alexander Stubb, e o presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez.
O primeiro-ministro britânico, contudo, continuou sem aderir totalmente à estratégia. Perante a cautela de Londres em preservar a relação com Washington, Carney terá respondido que já não havia “nenhuma relação a salvar”.
A tensão com os Estados Unidos agravou-se quando Trump aumentou tarifas sobre o Canadá através de um imposto especial e voltou a apresentar uma solução política direta: se o Canadá se tornasse o 51.º estado americano, as tarifas desapareceriam.
Eurovisão entra na aproximação canadiana à Europa
O reforço dos laços com a Europa também passou pela cultura e pela diplomacia pública. Em novembro, o Governo canadiano cancelou um antigo projeto com a União Europeia de Radiodifusão para criar uma versão própria do Festival Eurovisão no país.
Em paralelo, os orçamentos federais passaram a incluir uma verba de 150 milhões de dólares canadianos, cerca de 92 milhões de euros, para explorar a participação no verdadeiro Festival Eurovisão.
Em junho de 2026, a CBC/Radio-Canada foi aceite como membro de pleno direito da União Europeia de Radiodifusão. A 1 de julho, Dia do Canadá, foi anunciado que o país iria estrear-se no Festival Eurovisão de 2027, que decorrerá na Bulgária.
A aproximação, contudo, não terá sido motivada sobretudo por razões culturais. O movimento de Carney foi apresentado como parte de uma estratégia mais ampla de reposicionamento internacional do Canadá perante as ambições territoriais de Trump e a crescente incerteza na relação com os Estados Unidos.
Gronelândia aumenta tensão entre aliados
A questão da Gronelândia tornou-se um elemento central nesta nova fase. Trump voltou a reclamar o controlo do território e não afastou o uso da força. Para Carney, a ameaça sobre a Gronelândia serviu como argumento adicional para reforçar a ligação canadiana à Europa.
Numa reunião no Eliseu com aliados da Ucrânia, a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, pediu solidariedade europeia perante as pressões sobre a Gronelândia. Carney estava presente e interpretou essa crise como uma oportunidade para acelerar a aproximação estratégica à União Europeia.
Pouco depois, no Fórum Económico Mundial de Davos, o primeiro-ministro canadiano defendeu uma aliança entre economias médias e alertou para o enfraquecimento da ordem internacional baseada em regras. Carney argumentou que os países deveriam construir “geometrias variáveis”, isto é, coligações flexíveis para partilhar recursos e responsabilidades em áreas estratégicas.
Trump acompanhou o discurso a partir do Air Force One e terá classificado o Canadá como um país “ingrato”. No dia seguinte, os dois líderes encontraram-se em Davos, onde Trump terá dito a Carney que o Canadá existe graças aos Estados Unidos.
Defesa e tecnologia aceleram ligação entre Canadá e UE
A aproximação estratégica entre Canadá e Europa ganhou novo impulso em fevereiro, quando o presidente do Conselho Europeu, António Costa, convocou uma reunião extraordinária sobre o afastamento dos Estados Unidos. O Canadá foi convidado a participar.
A partir desse momento, aceleraram os investimentos em tecnologias de defesa e de duplo uso. Vários países europeus começaram também a reduzir a dependência de plataformas tecnológicas americanas em áreas sensíveis.
França substituiu aplicações de videoconferência usadas pelos seus funcionários públicos por uma solução francesa. Alemanha, Polónia, Países Baixos, Luxemburgo, Bélgica e França avançaram igualmente para a substituição de serviços de mensagens como o WhatsApp por aplicações oficiais.
Em junho, Macron e Carney voltaram a reunir-se no Eliseu para preparar a cimeira do G7. Ambos destacaram então o reforço da aproximação estratégica entre o Canadá e a União Europeia. Um dos passos mais relevantes foi a adesão canadiana ao novo fundo europeu de defesa, dotado de 150 mil milhões de euros.
Canadá reforça contactos com líderes europeus
Carney tem multiplicado contactos com parceiros europeus. Em abril, reuniu-se em Ottawa com o presidente finlandês, Alexander Stubb. Com a Alemanha, lançou a Aliança Tecnológica Soberana. Os seus assessores começaram também a trabalhar com Andy Burnham, apontado no texto original como futuro primeiro-ministro britânico.
A reunião da NATO em Ancara decorreu sob forte atenção à posição de Donald Trump, que voltou a reclamar o controlo da Gronelândia e a criticar os países que não o apoiaram no Irão.
A crise no Médio Oriente poderá desviar atenções de outros pontos de tensão dentro da aliança ocidental, como o apoio à Ucrânia, os orçamentos de defesa ou as reivindicações territoriais dos Estados Unidos. Para vários líderes, a prioridade parece ser ganhar tempo.












