OMS alerta para “semanas mais mortais” na Europa devido ao calor extremo: Portugal pode escapar ao pior, diz IPMA

Nova vaga de calor começa a formar-se sobre o Atlântico e ameaça vários países do continente

Francisco Laranjeira

A Organização Mundial da Saúde alertou que a Europa poderá enfrentar “semanas mais mortais” em julho, numa altura em que uma nova vaga de calor começa a formar-se sobre o Atlântico e ameaça vários países do continente. Portugal é referido no aviso regional da OMS, mas o Instituto Português do Mar e da Atmosfera coloca água na fervura: para já, os modelos não apontam para valores extremos no território nacional.

Segundo o ‘Público’, o diretor regional da OMS para a Europa, Hans Kluge, avisou que Portugal e o sul de Espanha poderão atingir 43 graus “nos próximos dias”. No caso português, porém, essa previsão não é acompanhada pelo IPMA, que antecipa antes uma descida das temperaturas no litoral e um cenário mais moderado do que noutros pontos da Europa.

Portugal fora do núcleo mais intenso

Contactado pelo jornal, Jorge Ponte, meteorologista do IPMA, explicou que o alerta da OMS deve ser lido numa escala regional, e não como uma previsão uniforme para todos os países europeus. A próxima vaga de calor poderá atingir várias zonas do continente, mas Portugal deverá ficar, para já, fora do núcleo mais intenso.

A explicação está na configuração atmosférica prevista para os próximos dias. Portugal deverá ficar sob a influência de uma depressão em altitude situada a noroeste da Península Ibérica, favorecendo um fluxo marítimo de oeste. Esse padrão ajuda a moderar as temperaturas e afasta, pelo menos no curto prazo, um cenário de calor extremo persistente.

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Para o fim de semana e para a primeira metade da próxima semana, o IPMA aponta para temperaturas mais próximas do normal para a época. A situação será diferente noutras regiões europeias, onde a circulação atmosférica deverá empurrar ar muito quente do Norte de África para o interior da Península Ibérica, França, Itália e faixa mediterrânica.

OMS vê calor como emergência de saúde pública

Apesar da leitura mais moderada para Portugal, o aviso da OMS mantém peso no contexto europeu. Hans Kluge convocou uma reunião de emergência sobre calor extremo, que juntou representantes de 41 Estados-membros da região europeia da OMS, da Comissão Europeia e de várias organizações da sociedade civil.

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Para o responsável, a participação de mais de 130 pessoas mostra que os países começam a encarar o calor extremo como “uma emergência de saúde pública, e não apenas um fenómeno meteorológico”. A vaga de junho, uma das mais severas de que há registo na Europa, expôs fragilidades nos sistemas de saúde, nas infraestruturas e na proteção das populações mais vulneráveis.

A OMS considera que os países com planos de ação para calor e saúde responderam melhor: ativaram alertas mais cedo, coordenaram setores diferentes e protegeram com maior eficácia as populações em risco.

Planos que salvam vidas

A organização destacou vários exemplos. Em Itália, um sistema de vigilância da mortalidade em 45 cidades dá aos decisores dados quase em tempo real durante a crise. Em Espanha, houve trabalho direto com jornalistas para melhorar a comunicação do risco para a saúde.

Na Áustria, foi ativado um plano atualizado, com regras de proteção laboral contra o calor e estruturas de coordenação nacionais e regionais. Na Bélgica, foi acionado o nível máximo de alerta apenas pela segunda vez desde 2020. Em França, a coordenação entre setores ajudou a reduzir a pressão sobre o sistema de saúde. Na Macedónia do Norte, equipas da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho foram mobilizadas para chegar a pessoas em situação de sem-abrigo.

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“Quando os planos estão em vigor e são testados antes de uma crise, salvam vidas”, sublinha a OMS. Estes planos cruzam avisos meteorológicos com respostas de saúde pública, reforço dos serviços de saúde, medidas para grupos vulneráveis e coordenação entre saúde, proteção social, habitação, trabalho e planeamento urbano.

Menos de metade dos países tem plano nacional

A preocupação é que “nem sequer metade” dos Estados-membros da região europeia da OMS dispõe de um plano nacional de calor e saúde. Hans Kluge avisou que essa falta de preparação deixa milhões de pessoas mais expostas quando as temperaturas sobem.

Entre as falhas identificadas estão a dificuldade em fazer com que as pessoas reconheçam o risco individual, mesmo perante alertas máximos, a falta de espaços de arrefecimento e a ausência de informação clara sobre onde encontrá-los. O problema é particularmente grave para idosos isolados, residentes em lares e pessoas em situação de sem-abrigo.

Alguns países enfrentam ainda atrasos burocráticos na declaração formal de vagas de calor, o que pode atrasar a resposta de saúde pública. Para a OMS, a preparação deve ser feita antes da crise, com responsabilidades bem definidas, limiares de ativação claros e identificação prévia das populações mais vulneráveis.

Europa conta mortes em excesso

A vaga de calor entre 20 e 28 de junho terá sido, segundo a ‘Reuters’, a mais severa de que há registo na Europa. O episódio provocou perturbações na produção de energia, danos em infraestruturas e forte pressão sobre os sistemas de saúde.

França, Países Baixos e Bélgica registaram cerca de 3700 mortes em excesso, números ainda preliminares e que poderão ser revistos em alta. Para a OMS, estes dados mostram que o calor extremo já não pode ser tratado como uma anomalia passageira, mas como um risco estrutural para a saúde pública europeia.

Portugal, por agora, pode escapar ao pior da próxima vaga. Mas o aviso da OMS deixa uma mensagem mais ampla: o calor extremo será cada vez mais frequente, mais intenso e mais mortal. E a diferença entre uma crise controlada e uma tragédia dependerá menos da temperatura máxima de cada dia e mais da preparação dos países para proteger quem está em maior risco.

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