Eu só queria que me saísse branco

Opinião de Pedro Alvito, Professor de Política de Empresa na AESE Business School

Executive Digest

Por Pedro Alvito, Professor de Política de Empresa na AESE Business School

“Eu só queria que me saísse branco” é um título que me remete para o humor da versão original do filme “O Pátio das Cantigas”, quase como um convite a “clarear” as ideias. Independentemente da pouco lógica moderna tentativa de “impedir” o uso de expressões que usem referências a cores por serem racistas, eu diria que estamos a viver uma época em que o futuro se apresenta muito negro.

Para já, sem querer “denegrir” a imagem de quem quer que seja, deparei-me com uma situação curiosa: enquanto as nossas empresas colocam cada vez mais a geração mais velha na “escuridão” do desemprego, os grandes líderes políticos do momento (Trump, Putin, Netanyahu e Xi Jinping) estão todos acima dos setenta e dividem entre si as riquezas do mundo, completamente às “claras”, mas de uma forma completamente “obscura”.

Nunca o mundo empresarial foi tão envolvido pela incerteza, não de um futuro desconhecido, mas de um presente mergulhado na “escuridão” absoluta. Ninguém sabe onde estamos, muito menos para onde vamos. Durante anos, as escolas de gestão (e eu próprio) estudámos aquilo a que chamámos gestão da crise. Mas hoje trata-se de algo completamente diferente. Fala-se de incerteza completa no presente, num mundo em que nada é “preto ou branco”. Mas pior ainda, pode ser “preto” hoje e, ainda hoje, passar a ser “branco” e vice-versa. E para isto não há regras, estudos ou referências históricas que nos possam ajudar. Em termos de gestão, estamos mesmo numa “escuridão” absoluta.

Não é possível navegar neste oceano empresarial sem referências mínimas e quase apetece reescrever a frase do nosso querido Keynes, dizendo que no curto prazo poderemos estar todos mortos. Mas acreditem que se pode sempre ver a “luz” ao fundo do túnel e que essa “luz” nos pode tirar da escuridão.

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Atendendo à idade dos líderes acima referidas, o futuro só pode ser melhor, dirão alguns. Até lá, resta às empresas navegarem um pouco à vista, avaliando claramente o risco e resistindo a mais uma investida. Dizia um grande amigo meu que a vida é feita de ciclos baixos e altos e que aqueles que mais trabalharem nos ciclos baixos vão ser aqueles que mais vão conseguir aproveitar os ciclos de estabilidade e crescimento. Uma grande verdade.

Conto-vos a história de uma das empresas de maior sucesso em Portugal, mas sobretudo no mercado internacional. Viveu uma crise brutal, em 2008, que quase a arruinou por completo. A opção da gestão foi aproveitar o momento. Aproveitar como? Investindo em novas tecnologias, em formação e em manutenção e organização. Quando o ciclo inverteu, a empresa estava na linha da frente para responder às exigências do mercado. Lamentarmo-nos serve de pouco, prepararmo-nos serve de muito. E depois, resta acreditar que o futuro nos vai sair “branco”.

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