Evento imobiliário israelita em Londres terá anunciado terrenos em colonatos ilegais

Caso está a gerar pressão política sobre o Governo britânico, depois de mais de 100 parlamentares e várias organizações da sociedade civil terem pedido o cancelamento do evento

Francisco Laranjeira

Um evento imobiliário israelita realizado no norte de Londres terá promovido projetos em colonatos israelitas em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia ocupada, apesar de os organizadores terem negado anteriormente que seriam comercializadas propriedades em colonatos ilegais. O ‘The Guardian’ teve acesso a folhetos distribuídos no evento, que incluíam projetos em Ma’ale Adumim, Givat Ze’ev, Kfar Eldad e Teneh Omarim, na Cisjordânia ocupada, bem como em Ramat Eshkol e Givat Hamatos, em Jerusalém Oriental.

O caso está a gerar pressão política sobre o Governo britânico, depois de mais de 100 parlamentares e várias organizações da sociedade civil terem pedido o cancelamento do evento. Os críticos argumentavam que a iniciativa era incompatível com as obrigações do Reino Unido ao abrigo do direito internacional e com as orientações oficiais sobre atividade económica ligada a colonatos.

Andy McDonald, deputado e copresidente do grupo parlamentar multipartidário britânico-palestiniano, afirmou que existe “pelo menos um caso prima facie” de que foram publicitados terrenos em colonatos ilegais, o que, disse, é contrário à lei. Na semana passada, McDonald enviou uma carta à ministra dos Negócios Estrangeiros britânica, assinada por 101 políticos, na qual descrevia o evento como integrado no projeto de expansão colonial de Israel e pedia ao Governo que impedisse a sua realização.

Também o presidente da Câmara de Londres, Sadiq Khan, manifestou preocupação antes do evento. Segundo o ‘The Guardian’, Khan falou com a Polícia Metropolitana e foi informado de que quaisquer alegações de criminalidade relacionadas com a venda ilegal de propriedades seriam avaliadas com vista a eventual investigação. A polícia recusou comentar o caso.

O encontro em Londres foi a última etapa de uma série internacional de eventos imobiliários, depois de Toronto e Nova Iorque. A iniciativa tinha anunciado a possibilidade de os participantes explorarem “os melhores bairros anglo” e encontrarem a sua “casa de sonho”, numa formulação que já tinha levantado críticas por poder abranger zonas ocupadas.

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O evento convidava interessados a registar interesse em Gush Etzion, um colonato israelita na Cisjordânia ocupada que o Governo britânico considera ilegal. Os organizadores tinham rejeitado anteriormente as acusações de que seriam apresentadas propriedades na Cisjordânia, classificando essas alegações como “ridículas” e motivadas por apoiantes “anti-israelitas e terroristas”. Garantiram ainda que os expositores forneceriam informações apenas sobre propriedades e projetos dentro da chamada Linha Verde.

Esta terça-feira, depois de o tema ser levantado no Parlamento britânico, os organizadores pediram desculpa pelo que descreveram como um “erro” nos folhetos do evento. “Ninguém no evento promoveu ou falou sobre propriedades nos ‘territórios disputados’, como Givat Ze’ev ou Kfar Eldad. A sua menção no folheto do evento foi feita por erro, pelo qual pedimos desculpa”, afirmaram ao Jewish News.

A página do evento de 2025, que mencionava Gush Etzion, foi entretanto retirada. Já na página de 2026, a referência ao colonato foi removida depois de as preocupações se tornarem públicas. A página incluía também um mapa do território sem delimitação de Gaza e da Cisjordânia ocupada, bem como dos Montes Golã, território sírio ocupado por Israel.

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A deputada Ellie Chowns questionou a ministra dos Negócios Estrangeiros, Yvette Cooper, na Câmara dos Comuns, perguntando como podia o Governo falhar “até em impedir a comercialização de propriedade ilegal neste país” e continuar sem agir.

O ministro dos Negócios Estrangeiros Hamish Falconer terá escrito à autoridade britânica de normas publicitárias, a Advertising Standards Authority, pedindo uma análise urgente a eventuais provas de publicidade ou promoção de propriedades em colonatos ilegais. Cooper afirmou que o Governo pediu à entidade que analisasse o caso “com urgência” e sublinhou que é “extremamente importante” que os padrões legais sejam cumpridos no Reino Unido.

A Advertising Standards Authority confirmou ao ‘The Guardian’ ter recebido a carta do Governo, mas disse não ter recebido queixas publicitárias sobre o caso. A entidade acrescentou que não tem uma posição sobre a lei nesta matéria e remeteu a responsabilidade para o Governo.

Andy McDonald considerou a referência à autoridade publicitária “completamente inadequada” e defendeu que os ministros devem investigar se há fundamento, ao abrigo da lei de Inglaterra e do País de Gales, para processar empresas britânicas eventualmente envolvidas. O deputado comparou o caso a uma hipotética venda de terras ocupadas no Donbas, afirmando que o Governo britânico reagiria de forma muito mais dura nessa situação.

A Amnistia Internacional Reino Unido também criticou a resposta do Governo, classificando o envio do caso para a autoridade publicitária como uma manobra “ridícula” que ignora a devastação causada pelos colonatos israelitas aos palestinianos.

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O evento decorreu numa altura em que a violência de colonos na Cisjordânia atingiu níveis inéditos e em que uma coligação de países ocidentais, incluindo Reino Unido, França, Canadá, Alemanha e Itália, apelou ao fim da construção de colonatos israelitas, que considera violarem o direito internacional.

Na semana passada, o Reino Unido, em conjunto com outros países ocidentais, anunciou sanções contra seis empresas e uma pessoa por facilitarem e financiarem o recente aumento da violência de colonos na Cisjordânia. Ainda assim, o Governo britânico não avançou para a proibição de comércio com colonatos ilegais, medida que mais de 140 deputados trabalhistas tinham defendido no início do mês.

À porta do evento, decorreu um protesto que terminou com 14 detenções. Uma participante que entrou no encontro de forma encoberta, ligada ao grupo Jewish Anti-Zionist Action, disse ter ido com o objetivo de recolher provas de venda ilegal de terrenos. Depois de ser expulsa, juntou-se à manifestação no exterior.

A Comissão de Caridade de Inglaterra e País de Gales ainda não abriu um processo de conformidade nem uma investigação formal sobre o incidente, mas confirmou estar a avaliar preocupações relativas ao evento, realizado numa sinagoga associada à United Synagogue. A instituição religiosa informou que se tratou de um aluguer a terceiros e que a diligência prévia indicava que todas as propriedades comercializadas eram legais segundo a lei inglesa.

O caso coloca o Governo britânico perante uma questão sensível: se considera ilegais os colonatos israelitas, que consequências deve aplicar quando projetos associados a esses territórios são alegadamente promovidos em solo britânico? Para os críticos, a resposta dada até agora não basta. Para os organizadores, as referências nos folhetos foram um erro. A disputa segue agora no terreno político, jurídico e diplomático.

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