O gabinete de António Costa estabeleceu contactos diplomáticos breves com o Kremlin nas últimas semanas, com o objetivo de abrir canais de comunicação com Moscovo, revelou o jornal ‘POLITICO’. A iniciativa do presidente do Conselho Europeu surge num momento em que os líderes europeus discutem se a União Europeia deve ter uma voz mais ativa nas eventuais negociações para pôr fim à guerra entre a Ucrânia e a Rússia.
Segundo um responsável europeu citado pela ‘Reuters’, os contactos não envolveram qualquer discussão substancial. A mesma fonte sublinhou que, em qualquer cenário futuro, a União Europeia terá interesses próprios a defender, pelo que considera importante manter canais diplomáticos estabelecidos com a Rússia.
O responsável frisou, contudo, que a UE “não é mediadora” entre Kiev e Moscovo e que continua a apoiar a Ucrânia nos seus esforços para alcançar uma paz “justa e duradoura”. A fórmula tenta equilibrar dois objetivos difíceis: manter a pressão política sobre o Kremlin e, ao mesmo tempo, preparar uma eventual fase negocial em que os europeus não queiram ficar à margem.
A informação foi também avançada pela ‘Bloomberg’, que escreveu que o principal conselheiro de António Costa realizou duas chamadas telefónicas com um alto funcionário russo próximo de Vladimir Putin. O objetivo terá sido preparar terreno para conversações mais substanciais no futuro, embora ainda sem entrar no conteúdo de uma negociação propriamente dita.
António Costa já tinha admitido, no mês passado, a necessidade de diálogo com Moscovo no momento adequado. “Precisamos, no momento certo, de dialogar com a Rússia para abordar as nossas questões comuns de segurança”, disse então o presidente do Conselho Europeu, numa declaração agora recordada pela ‘Bloomberg’.
A discussão ganhou força depois de Volodymyr Zelensky ter defendido várias vezes que a Europa precisa de uma voz própria nas negociações de paz. Em maio, o presidente ucraniano afirmou que Kiev está em contacto com os Estados Unidos e compreende as posições americanas, mas considerou desejável “desenvolver uma voz europeia comum” para as conversações com a Rússia.
O ‘POLITICO’ escreve que a abertura destes contactos representa uma quebra face à prática informal da União Europeia de evitar contactos diretos com Moscovo desde a invasão em larga escala da Ucrânia, em 2022. Ainda assim, a aproximação é descrita como limitada, exploratória e coordenada com líderes europeus.
Nos últimos meses, alguns líderes europeus mantiveram contactos diretos com Vladimir Putin, e em junho embaixadores de França, Reino Unido e Alemanha reuniram-se em Moscovo com o vice-ministro russo dos Negócios Estrangeiros. Mas não existe ainda um esforço oficial concertado, apoiado pela maioria das capitais europeias, para abrir negociações diretas entre a UE e a Rússia.
A eventual entrada da Europa num processo negocial divide os 27. Polónia e países bálticos têm manifestado reservas, receando que contactos diretos possam enfraquecer a pressão sobre Moscovo. França, pelo contrário, tem defendido a necessidade de conversações, sobretudo se os Estados Unidos assumirem um papel mais seletivo ou instável nas negociações.
Também tem sido discutida a hipótese de nomear um enviado especial europeu para dialogar com Moscovo. Entre os nomes já mencionados estiveram a antiga chanceler alemã Angela Merkel, o presidente finlandês, Alexander Stubb, e o próprio António Costa.
Vladimir Putin chegou a sugerir, em maio, o ex-chanceler alemão Gerhard Schröder como interlocutor em nome da Europa, mas a proposta foi imediatamente rejeitada por Kiev, Bruxelas e Berlim devido às conhecidas ligações do antigo líder alemão ao Kremlin. O ministro alemão para a Europa, Gunther Krichbaum, afirmou então que um mediador precisa de ser aceite por ambas as partes, algo que, neste caso, “parece estar visivelmente em falta”.
O tema deverá voltar à mesa esta quinta-feira, numa reunião de líderes europeus em Bruxelas, embora não seja esperada qualquer decisão sobre quem poderá representar a União Europeia num eventual processo negocial. Para já, a mensagem de Bruxelas é prudente: abrir canais não significa mediar, negociar ou aliviar a pressão sobre Moscovo.
A iniciativa de Costa mostra, ainda assim, que a União Europeia se prepara para um cenário em que a guerra possa entrar numa nova fase diplomática. Depois de mais de dois anos a privilegiar sanções, apoio militar e isolamento político da Rússia, Bruxelas começa a testar discretamente uma questão sensível: como falar com Moscovo sem parecer que cede perante o Kremlin.













