O aquecimento global continua a transformar o planeta de formas cada vez mais visíveis e inesperadas. Entre os efeitos mais conhecidos das alterações climáticas está o degelo dos glaciares, mas investigadores alertam agora para um novo fenómeno que está a surgir no Ártico e que poderá ter consequências significativas para os ecossistemas e para as populações que dependem dos recursos hídricos.
Um estudo recentemente publicado na revista científica Nature concluiu que o aumento das temperaturas no Ártico está a provocar o degelo do pergelissolo, um processo que está a alterar profundamente a composição de vários rios no Alasca. Em consequência, algumas linhas de água começaram a adquirir uma coloração alaranjada, um fenómeno que os especialistas associam à libertação de minerais anteriormente aprisionados no solo permanentemente congelado.
O que é o pergelissolo
O pergelissolo consiste numa camada de solo, rocha ou sedimentos que permanece congelada a temperaturas iguais ou inferiores a zero graus Celsius durante, pelo menos, dois anos consecutivos. Este tipo de solo encontra-se sobretudo em regiões polares e zonas montanhosas de elevada altitude, incluindo áreas do Alasca, Canadá, Sibéria e Antártida, estendendo-se também a determinadas zonas do fundo oceânico.
Ao longo de milhares de anos, estas camadas acumularam matéria orgânica e diversos minerais, mantidos estáveis pelo gelo. No entanto, à medida que as temperaturas aumentam, o degelo permite que esses materiais sejam libertados e transportados para os cursos de água.
Rios contaminados por minerais e metais
Segundo os investigadores, a coloração alaranjada observada em vários rios resulta da presença crescente de ferro oxidado e de outros compostos minerais libertados pelo pergelissolo em fusão. Embora a alteração visual seja o efeito mais evidente, os especialistas sublinham que as consequências podem ser muito mais profundas.
O contacto dos minerais presentes no pergelissolo com a água e o oxigénio desencadeia reações químicas que libertam ferro, enxofre e outros metais potencialmente nocivos para a qualidade da água. O estudo alerta que estas alterações podem comprometer os ecossistemas aquáticos e afetar numerosas espécies que dependem destes habitats.
Tim Lyons, coautor da investigação, explicou que um dos principais problemas está relacionado com a pirite, um mineral abundante nestas formações geológicas. Segundo o investigador, “quando a pirite entra em contacto com a água, decompõe-se. Divide-se em ferro e enxofre, criando ácido sulfúrico, bem como sulfato e outros metais tóxicos”.
Especialistas receiam agravamento durante o verão
Os cientistas acreditam que a situação poderá tornar-se ainda mais grave durante os meses mais quentes do ano. Com a continuação do aumento das temperaturas, o degelo do pergelissolo tende a acelerar, permitindo que maiores quantidades de ferro e outros elementos sejam transportadas para os rios nas estações seguintes.
Para Tim Lyons, trata-se de um processo difícil de travar ou reverter. O investigador deixa um alerta particularmente contundente sobre a dimensão do problema, afirmando que “não há nenhum lugar seguro”, numa referência ao facto de os efeitos das alterações climáticas se estarem a manifestar em regiões cada vez mais vastas e de formas cada vez mais imprevisíveis.








