O antigo conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos John Bolton afirmou que o Irão conseguiu impor as suas condições nas negociações com Washington e acusou o Presidente norte-americano, Donald Trump, de ter sacrificado interesses estratégicos dos Estados Unidos em troca de estabilidade nos mercados energéticos. Em declarações à Euronews durante a cimeira do G7, Bolton sustentou que Teerão percebeu a necessidade política de Trump em alcançar rapidamente um entendimento e aproveitou essa circunstância para obter um acordo mais favorável.
Segundo o antigo responsável da administração norte-americana, que desempenhou funções entre 2018 e 2019, a principal preocupação do Presidente dos EUA não foi o impacto geopolítico do entendimento alcançado, mas sim a necessidade de manter aberto o Estreito de Ormuz e garantir a continuidade do fluxo de petróleo do Golfo para os mercados internacionais.
“Eles tocaram-no como um violino. Foi por isso que conseguiram o acordo que queriam”, afirmou Bolton, acrescentando que Trump “não está a pensar nas implicações geoestratégicas do acordo”. Na sua perspetiva, o chefe de Estado norte-americano está concentrado sobretudo numa questão: “Quer o estreito aberto. Quer o petróleo do Golfo nos mercados internacionais. Quer baixar o preço da gasolina nas bombas. É só isso que lhe interessa”.
Questionado sobre se isso significava trocar interesses de segurança nacional por combustíveis mais baratos, Bolton respondeu que “é basicamente a isso que se resume”.
Dúvidas sobre os detalhes do acordo
Uma das principais críticas do antigo conselheiro prende-se com a ausência de um texto público do acordo-quadro anunciado entre Washington e Teerão. Para Bolton, a falta de transparência levanta dúvidas significativas sobre os compromissos assumidos por ambas as partes.
Segundo explicou, continuam sem resposta questões fundamentais relacionadas com o programa iraniano de enriquecimento de urânio, o alcance do eventual levantamento de sanções e as condições concretas para a normalização da navegação através do Estreito de Ormuz.
“Se fosse um grande acordo, estaria disponível publicamente. E acho que isso diz praticamente tudo o que é preciso saber”, declarou.
Bolton considera que os títulos e os anúncios políticos têm pouca relevância sem o conhecimento detalhado das cláusulas efetivamente negociadas, defendendo que é precisamente nesses detalhes que se determina se o entendimento favorece uma ou outra parte.
Ex-conselheiro rejeita ideia de mudança de regime
O antigo responsável norte-americano também rejeitou a narrativa da Casa Branca segundo a qual a liderança iraniana teria sofrido uma transformação significativa após os ataques conduzidos pelos Estados Unidos e por Israel.
Na sua análise, as mudanças verificadas resultam apenas da eliminação de dirigentes de topo do regime e não de uma alteração estrutural do sistema político iraniano.
“A mudança de liderança existe apenas porque eliminámos as quatro ou cinco centenas de principais responsáveis do regime e agora estamos a lidar com os seus substitutos. Sim, são pessoas diferentes, mas é o mesmo regime fanático”, afirmou.
Bolton mostrou igualmente total ceticismo em relação às garantias iranianas sobre o programa nuclear. Recordando que o Irão aderiu ao Tratado de Não Proliferação Nuclear em 1970, afirmou que Teerão tem repetidamente assumido compromissos semelhantes ao longo das últimas décadas sem que isso elimine as preocupações internacionais.
“O Irão está comprometido com a não obtenção de armas nucleares há 56 anos. Simplesmente não acreditamos nisso”, declarou.
“Trump retirou a principal arma de pressão dos EUA”
Na entrevista, Bolton argumentou ainda que Washington perdeu capacidade negocial precisamente quando dispunha de uma posição mais forte perante um Irão enfraquecido por sucessivos ataques militares.
Segundo o antigo conselheiro, a disposição demonstrada por Trump para alcançar rapidamente um entendimento transmitiu ao regime iraniano a ideia de que os Estados Unidos não pretendem recorrer novamente à força militar antes das eleições intercalares norte-americanas.
Para Bolton, essa perceção reduziu drasticamente a capacidade de pressão dos EUA.
“Isso retira-nos a maior arma que temos, a maior alavanca que temos sobre o Irão. É a única coisa que eles compreendem”, afirmou.
O ex-responsável acrescentou que as autoridades iranianas perceberam corretamente a posição do Presidente norte-americano. “Ele está desesperado por um acordo. E eles conseguiram manobrá-lo”, sustentou.
Ceticismo sobre uma força naval europeia
Bolton mostrou-se igualmente pouco convencido relativamente às propostas para uma eventual força naval europeia destinada a garantir a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz.
Questionado sobre essa possibilidade, respondeu de forma crítica, interrogando-se sobre a eficácia real de uma missão desse tipo.
“Vai ser como uma força de manutenção de paz das Nações Unidas que apenas acena enquanto o cessar-fogo é violado? Ninguém respondeu a essa questão”, afirmou.
As declarações surgem numa altura em que os líderes europeus discutem formas de contribuir para a segurança marítima numa das rotas energéticas mais importantes do mundo.




