Dados do Pokémon Go foram usados para treinar IA que poderá orientar drones militares em zonas de guerra

Os dados recolhidos através de uma funcionalidade do popular jogo Pokémon Go foram utilizados para treinar modelos de inteligência artificial que poderão vir a ser aplicados em drones com utilização militar.

Pedro Zagacho Gonçalves

Os dados recolhidos através de uma funcionalidade do popular jogo Pokémon Go foram utilizados para treinar modelos de inteligência artificial que poderão vir a ser aplicados em drones com utilização militar, capazes de navegar em zonas onde os sistemas GPS não estão disponíveis ou são alvo de interferências.

A informação foi divulgada pelo The Guardian, que explica que os escaneamentos tridimensionais efetuados voluntariamente por jogadores do jogo de realidade aumentada permitiram desenvolver modelos de IA capazes de reconhecer e interpretar espaços físicos, tecnologia que poderá agora encontrar aplicações em cenários militares.

Lançado em 2016, o Pokémon Go tornou-se um fenómeno mundial ao permitir aos utilizadores capturar criaturas virtuais utilizando a câmara e a localização dos seus telemóveis. Em 2018, a empresa informou que o jogo tinha ultrapassado os 800 milhões de downloads em todo o mundo.

Em 2021, foi introduzida uma funcionalidade que incentivava os jogadores a realizar escaneamentos de locais reais, designados como PokéStops. Em troca, os utilizadores recebiam recompensas dentro do jogo.

A funcionalidade era facultativa e exigia que os jogadores aceitassem participar e enviassem voluntariamente as gravações efetuadas através dos seus dispositivos móveis.

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Antes de vender a divisão de videojogos em 2025, a Niantic, criadora do Pokémon Go em parceria com a Nintendo, recolheu um vasto conjunto destes escaneamentos.

Segundo o The Guardian, esses dados históricos foram utilizados para treinar modelos de inteligência artificial desenvolvidos pela Niantic Spatial, empresa criada a partir da Niantic, permitindo-lhes reconhecer e interpretar ambientes físicos.

Parceria pretende permitir navegação sem GPS
Em dezembro, a Niantic Spatial anunciou uma parceria com a empresa Vantor, especializada em software de deteção espacial para drones, incluindo equipamentos utilizados por algumas forças militares.

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De acordo com o anúncio divulgado pelas empresas, o objetivo consiste em permitir que drones e outros sistemas autónomos consigam navegar e coordenar operações com precisão em locais onde os sinais GPS não estejam disponíveis ou sejam alvo de bloqueios, interferências ou falsificação.

Segundo o comunicado, a parceria procura responder a “uma vulnerabilidade crítica nas operações modernas: a indisponibilidade do GPS, a falsificação de sinais, as interferências e o bloqueio”.

As empresas acrescentam que, quando os sinais de satélite são comprometidos, “os sistemas autónomos e as equipas no terreno perdem a capacidade de orientação, coordenação e de manter uma perceção precisa da situação operacional”.

Dados do jogo não foram entregues à empresa parceira
Tanto a Niantic Spatial como a Vantor garantiram ao Guardian Australia que os escaneamentos recolhidos através do Pokémon Go não foram fornecidos diretamente à Vantor.

Ainda assim, confirmaram que esses dados serviram para treinar os modelos fundamentais de inteligência artificial desenvolvidos pela Niantic Spatial.

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Um porta-voz da empresa explicou que “os escaneamentos de realidade aumentada recolhidos através do Pokémon Go foram enviados voluntariamente pelos jogadores que aderiram à funcionalidade e estavam sujeitos aos Termos de Serviço e à Política de Privacidade aplicáveis na altura”.

As duas empresas sublinharam igualmente que a parceria ainda se encontra numa fase inicial de desenvolvimento.

Especialistas alertam para utilização militar de dados civis
A utilização de dados recolhidos através de um videojogo para desenvolver tecnologia com potencial aplicação militar levantou preocupações entre especialistas em privacidade digital.

Tom Sulston, diretor de políticas públicas da organização Digital Rights Watch, considera preocupante que informação fornecida por utilizadores civis possa vir a ser utilizada para fins militares.

“Embora possam existir cláusulas nos termos e condições, sabemos que a maioria das pessoas não lê longos documentos legais quando apenas quer jogar um videojogo”, afirmou.

Segundo Sulston, é necessário que os reguladores adotem critérios centrados “no melhor interesse do utilizador” ou em princípios de utilização “justa e razoável”, acrescentando que muitos serviços digitais gratuitos tratam os utilizadores “não como clientes, mas como o produto que pode ser vendido”.

Caso pode ser apenas o início de uma tendência
Também Rob Nicholls, investigador associado do Centro para Inteligência Artificial, Confiança e Governação da Universidade de Sydney, considera que este episódio poderá representar apenas uma pequena parte de um fenómeno mais amplo.

“O caso é provavelmente apenas a ponta do icebergue relativamente à utilização de dados recolhidos por aplicações para outros fins”, afirmou.

O investigador recordou ainda um caso anterior envolvendo a aplicação Strava, cujos dados permitiram identificar a localização de instalações militares.

“Já vimos que os dados do Strava foram utilizados para identificar instalações militares. De facto, várias forças armadas emitiram diretivas para evitar a utilização de dispositivos com GPS e funcionalidades de partilha”, acrescentou.

A Vantor anunciou, em fevereiro, um contrato com o Exército dos Estados Unidos que pode atingir 217 milhões de dólares, destinado ao desenvolvimento de software de treino.

Entretanto, em 2025, a Niantic vendeu a sua divisão de videojogos à Scopely, empresa detida por capitais sauditas, numa operação avaliada em 3,5 mil milhões de dólares.

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