Quando a estabilidade se torna um ativo

Opinião de Rafael Ascenso, Founder e Partner da Porta da Frente Christie’s International Real Estate

Executive Digest

Por Rafael Ascenso, Founder e Partner da Porta da Frente Christie’s International Real Estate

Durante muitos anos, a competitividade de Portugal no mercado imobiliário internacional esteve sobretudo associada a fatores como o clima, a qualidade de vida, a segurança e o custo de vida em relação a outras capitais europeias. Porém, num contexto global cada vez mais marcado pela instabilidade geopolítica, percebemos que alguns destes fatores passaram a assumir um peso verdadeiramente estrutural nas decisões de investimento e de residência.

O mundo mudou de forma muito acelerada na última década. A pandemia alterou prioridades, a guerra na Ucrânia trouxe novamente o conflito armado para o centro da Europa e, mais recentemente, a instabilidade no Médio Oriente veio reforçar a perceção de que mesmo geografias tradicionalmente vistas como seguras e estáveis podem rapidamente tornar-se imprevisíveis. Neste contexto, a segurança passou a ser um ativo económico. Portugal, que ocupa atualmente a 7ª posição no Global Peace Index, beneficia de uma reputação internacional de estabilidade que o colocar numa posição particularmente favorável perante esta realidade.

Foi precisamente após o início da guerra entre a Rússia e a Ucrânia que esta tendência se tornou mais evidente. Nesse momento, assistimos a um fluxo significativo de famílias que procuravam rapidamente destinos seguros onde pudessem reorganizar a sua vida de forma temporária, o que teve um grande impacto no mercado de arrendamento do segmento premium. Mas não só. Em muitas zonas, verificou-se também um forte dinamismo no mercado premium de compra e venda, uma vez que, após um período inicial de adaptação, muitos clientes passam a privilegiar a aquisição de habitação em detrimento do arrendamento.

Naturalmente, nem todos estes movimentos têm impacto direto e imediato no mercado. Muitas vezes, aquilo que muda não é tanto a entrada massiva de novos residentes, mas sim a retenção de pessoas que já tinham escolhido Portugal e que, perante o aumento da instabilidade noutras geografias, reforçam a sua decisão de permanecer. Esse é um ponto particularmente importante no segmento de gama alta, onde a mobilidade internacional é maior e onde as decisões residenciais são frequentemente influenciadas por fatores fiscais, patrimoniais e de segurança.

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Aliás, isso é algo que começa a ser visível em mercados que nos últimos anos ganharam mais atratividade junto de investidores internacionais. Cidades como Dubai ou Abu Dhabi beneficiaram muito da procura internacional, sobretudo pela competitividade fiscal e pela capacidade de atração de capital estrangeiro. Porém, à medida que cresce a instabilidade em regiões próximas, muitos investidores e famílias internacionais passam inevitavelmente a reavaliar o risco associado a essas localizações. É precisamente nestes momentos que Portugal reforça a sua atratividade pela previsibilidade e tranquilidade que oferece.

Importa, no entanto, manter alguma racionalidade na análise deste fenómeno. A atual instabilidade internacional não se traduz necessariamente num aumento abrupto da procura imobiliária em Portugal. O impacto tende a ser mais subtil e mais concentrado nos segmentos superiores do mercado. Mas isso não significa que seja irrelevante. Pelo contrário. Num setor cada vez mais global, a perceção internacional de estabilidade tornou-se um dos fatores mais importantes na capacidade de um país atrair e reter residentes estrangeiros.

Há outro sinal que merece atenção especial: o crescimento contínuo da procura proveniente dos Estados Unidos. Nos últimos três ou quatro anos, o mercado português beneficiou de um interesse crescente por parte de cidadãos norte-americanos que procuram não apenas oportunidades de investimento, mas também qualidade de vida e estabilidade social. Este movimento mostra precisamente como o nosso país continua a afirmar-se como uma alternativa sólida num mundo cada vez mais volátil.

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Portugal tem dois ativos que claramente nos destacam: a estabilidade social e a segurança. Devemos fazer destes ativos uma prioridade nacional ser muito firmes no combate aos vários focos de instabilidade que têm surgido recentemente.

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