Uma empresa de biotecnologia dos Estados Unidos testou pela primeira vez em humanos uma terapia genética concebida para reverter o envelhecimento celular. O tratamento foi desenvolvido pela Life Biosciences, sediada em Boston, e tem como objetivo restaurar células envelhecidas ou danificadas em doentes humanos, avança a Euronews.
A terapia, conhecida como ER-100 ou AAV2-OSK, dirige-se a doenças marcadas por danos no nervo ótico, designadas neuropatias óticas. A abordagem utiliza os chamados fatores OSK, três proteínas — Oct4, Sox2 e Klf4 — para realizar uma reprogramação epigenética parcial, com o objetivo de reiniciar a idade celular e recuperar a função das células afetadas.
Depois de testes em roedores e primatas, a empresa anunciou que o primeiro ser humano recebeu agora o tratamento. Segundo a Life Biosciences, trata-se do primeiro candidato de restauração epigenética aprovado para ensaios clínicos e, se tiver sucesso, poderá representar a primeira vez que células humanas são rejuvenescidas em contexto terapêutico.
Como funciona a terapia genética
As três proteínas usadas na terapia genética OSK atuam como uma espécie de botão de reinício das células, procurando devolvê-las a um estado mais jovem.
A sequência de ADN de uma pessoa mantém-se, em grande parte, estável ao longo da vida, mesmo com o envelhecimento do organismo. O que muda com o tempo é o código epigenético, responsável por controlar que genes estão ligados ou desligados.
Estas alterações podem resultar de fatores de estilo de vida, como tabagismo ou consumo de álcool, mas também do envelhecimento, de doenças e de lesões. Quando se acumulam, podem contribuir para problemas graves, incluindo cancro ou doenças neurológicas.
A terapia da Life Biosciences procura atuar sobre essas alterações, entregando diretamente um conjunto de instruções genéticas. As três proteínas OSK funcionam como um interruptor de ativação nas células-alvo, reiniciando mudanças prejudiciais acumuladas ao longo do tempo.
Esta abordagem tem origem em trabalhos de biologia que permitiram transformar células comuns em células estaminais, descoberta que valeu a Sir John B. Gurdon e Shinya Yamanaka o Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina em 2012.
Doenças dos olhos são o primeiro alvo
A terapia entrou agora na primeira fase de ensaios clínicos, etapa em que os investigadores avaliam se o tratamento é seguro para seres humanos.
“Este é um momento importante para a Life Bio e para a área da biologia do envelhecimento”, afirmou David Sinclair, cofundador da Life Biosciences e professor de genética na Harvard Medical School, citado pela Euronews.
Segundo o investigador, a investigação da empresa sugere que o envelhecimento é impulsionado em grande parte pela perda de informação epigenética, e não por danos irreversíveis. O ensaio clínico representa, por isso, a primeira oportunidade para testar se a restauração dessa informação pode melhorar doenças humanas.
O estudo de fase 1 vai incluir pessoas com glaucoma de ângulo aberto e neuropatia ótica isquémica anterior não arterítica, duas doenças oculares graves que podem levar à perda de visão.
O glaucoma de ângulo aberto é uma doença ocular crónica e progressiva em que o sistema de drenagem do olho fica obstruído, levando à acumulação de fluido e ao aumento da pressão ocular. A perda de visão começa normalmente por alterações subtis na visão lateral e progride lentamente ao longo do tempo.
Já a neuropatia ótica isquémica anterior não arterítica é frequentemente descrita como um mini-AVC do nervo ótico. Trata-se de uma condição súbita, provocada pela redução do fluxo sanguíneo para a parte posterior do olho. A perda de visão costuma ocorrer rapidamente, é muitas vezes detetada ao acordar e afeta normalmente apenas um olho.
Próximos passos da investigação
Além da ER-100, a Life Biosciences afirma estar a desenvolver aplicações para várias indicações e diferentes órgãos, refletindo o potencial terapêutico mais amplo desta abordagem.
A empresa já está a testar uma segunda terapia dirigida a doenças do fígado e trabalha para levar a sua tecnologia de reinício celular a outros órgãos do corpo.
A Life Biosciences não é a única empresa a explorar os chamados fatores de Yamanaka para prolongar a esperança de vida, reverter o envelhecimento ou tratar doenças associadas à idade.
Apesar de ainda não existirem utilizações terapêuticas aprovadas para estas terapias, o interesse e o investimento na área têm vindo a crescer.
A Retro Biosciences, empresa americana apoiada por Sam Altman, da OpenAI, trabalha com o objetivo declarado de acrescentar dez anos saudáveis à vida humana através do desenvolvimento de terapias capazes de reverter doenças relacionadas com a idade.
Também a Shift Bioscience, empresa de biotecnologia sediada em Cambridge, no Reino Unido, está a usar o mesmo mecanismo OSK para atacar a causa subjacente de doenças provocadas pelo envelhecimento.
Uma promessa ainda em fase inicial
O primeiro tratamento em humanos marca uma etapa relevante na investigação sobre envelhecimento celular, mas a terapia ainda se encontra numa fase inicial. O ensaio agora iniciado serve antes de mais para avaliar a segurança da abordagem, antes de se poder medir de forma mais ampla a sua eficácia.
Ainda assim, o avanço coloca a restauração epigenética no centro de uma área científica em rápido crescimento. Se a estratégia confirmar o seu potencial, poderá abrir caminho a novas formas de tratar doenças associadas à idade, começando pelas neuropatias óticas e, mais tarde, possivelmente, por outros órgãos e sistemas do corpo humano.












