Documento desclassificado revela que os EUA libertaram mosquitos com doenças em zonas habitadas

Relatório, com 69 páginas, descreve experiências realizadas no final da década de 1950 para estudar a eficácia das picadas de mosquito em pessoas ao ar livre, em ambientes quentes e desérticos

Francisco Laranjeira

Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos testaram uma ideia que hoje parece saída de um filme perturbador: perceber se mosquitos poderiam ser usados como veículos para espalhar doenças em território inimigo. Um documento do Pentágono agora desclassificado revelou detalhes do chamado Projeto Bellwether, avança o ’20 Minutos’.

O relatório, com 69 páginas, descreve experiências realizadas no final da década de 1950 para estudar a eficácia das picadas de mosquito em pessoas ao ar livre, em ambientes quentes e desérticos. Os testes decorreram entre setembro e outubro de 1959 e tinham como objetivo recolher dados sobre a utilização de insetos como possíveis armas biológicas.

No centro da investigação estava o Aedes aegypti, uma espécie de mosquito conhecida por picar seres humanos e por poder transmitir doenças como dengue, febre-amarela, Zika e chikungunya. O documento citava literatura sobre infeções acidentais e intencionais em laboratório para sustentar que o uso deliberado de vetores artrópodes infetados poderia ter potencial estratégico.

O Projeto Bellwether não terá surgido isoladamente. O relatório desclassificado indicava que os ensaios com mosquitos tinham começado anos antes, no contexto de outros programas militares desenvolvidos durante a década de 1950, incluindo a Operação Drop Kick e a Operação Big Buzz.

Um dos episódios mais controversos referidos no relato envolve a Operação Big Buzz. Em 1955, este teste terá passado pelo lançamento de cerca de 300 mil mosquitos infetados com febre-amarela sobre Carver Village, em Savannah, na Geórgia, um bairro predominantemente negro, para avaliar se os insetos conseguiam sobreviver depois de serem libertados a partir de aviões.

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A lógica militar da época era perceber se estes insetos poderiam funcionar como uma espécie de sistema de entrega biológica contra tropas inimigas ou zonas povoadas. A experiência inscreve-se num período em que a Guerra Fria levou governos a explorar cenários extremos de defesa, ataque e dissuasão, muitos deles mantidos durante décadas longe do escrutínio público.

De acordo com o ’20 Minutos’, que cita uma notícia publicada pelo ‘Daily Mail’, estes programas faziam parte de uma linha de investigação pouco conhecida sobre a possibilidade de usar vetores naturais de doença em contexto militar. A desclassificação do documento permite agora conhecer melhor até onde chegou essa experimentação.

A revelação é também um retrato desconfortável de uma época em que a fronteira entre investigação militar, saúde pública e risco para populações civis podia tornar-se perigosamente estreita. Mais de seis décadas depois, o Projeto Bellwether volta a mostrar como alguns dos capítulos mais sombrios da Guerra Fria continuam a emergir dos arquivos oficiais.

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