Milhões de adeptos, 16 cidades e um risco invisível de saúde: o outro lado do Mundial’2026

Durante cinco semanas, milhões de pessoas vão circular entre países, cidades e recintos desportivos. Para os especialistas em doenças infecciosas, eventos desta dimensão raramente provocam grandes surtos, mas criam condições ideais para testar sistemas de saúde e acelerar a transmissão de vírus e outras infeções

Francisco Laranjeira

O Mundial de futebol de 2026 começou esta quinta-feira e promete transformar 16 cidades dos Estados Unidos, Canadá e México numa gigantesca rede de estádios, aeroportos, hotéis, bares e transportes públicos cheios de adeptos. Mas, além da festa, há outro fenómeno em marcha: uma experiência de contacto global em massa, alerta o site The Conversation.

Durante cinco semanas, milhões de pessoas vão circular entre países, cidades e recintos desportivos. Para os especialistas em doenças infecciosas, eventos desta dimensão raramente provocam grandes surtos, mas criam condições ideais para testar sistemas de saúde e acelerar a transmissão de vírus e outras infeções.

O risco mais dramático, embora considerado improvável, é o Ébola. Em maio de 2026, a Organização Mundial da Saúde declarou uma emergência de saúde global devido a um surto na República Democrática do Congo e no Uganda, provocado por uma estirpe rara, Bundibugyo, que mata cerca de uma em cada três pessoas infetadas.

Ainda assim, a probabilidade de o Ébola chegar a um estádio do Mundial é considerada muito baixa. O vírus não se transmite pelo ar, mas por contacto direto com fluidos corporais, como sangue ou saliva, e as pessoas infetadas só se tornam contagiosas depois de apresentarem sintomas. Segundo o artigo, os Estados Unidos impuseram restrições à entrada de não cidadãos e não residentes permanentes que tenham estado nos países afetados nos 21 dias anteriores, além de rastrear passageiros vindos dessas zonas. México e Canadá também têm medidas em vigor.

Os perigos mais prováveis para os adeptos estão nas infeções respiratórias. Sarampo, gripe e Covid-19 são apontados como ameaças bem mais plausíveis num contexto de multidões em estádios, aeroportos, bares e transportes. O sarampo preocupa em especial por estar a aumentar nos três países anfitriões e por ser uma das doenças infecciosas mais contagiosas do mundo.

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O exemplo dado por Andrés Henao, professor associado de Medicina e Doenças Infecciosas na University of Colorado Anschutz, num artigo publicado no ‘The Conversation’, é simples: em 2025, um viajante infetado que passou pelo aeroporto internacional de Denver desencadeou um surto com pelo menos dez casos. Num Mundial, um adepto infetado numa bancada, num bar ou num aeroporto pode ser suficiente para iniciar uma cadeia de transmissão.

A gripe também entra na lista de vigilância, depois de uma época 2025-2026 particularmente intensa, descrita como a mais forte em 30 anos. A Covid-19 continua a causar centenas de milhares de hospitalizações por ano. Em pano de fundo, os cientistas acompanham ainda a gripe aviária H5N1, que já provocou infeções humanas nos Estados Unidos desde 2024, embora sem transmissão entre pessoas detetada até agora.

Há ainda riscos menos visíveis, mas relevantes. As doenças transmitidas por mosquitos preocupam sobretudo nas cidades do sul dos Estados Unidos e do México, em plena época de maior atividade destes insetos. Dengue, febre-amarela e vírus Oropouche são exemplos de infeções que podem chegar com viajantes vindos de zonas onde estas doenças circulam. O risco de transmissão local é pequeno, mas existe.

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Outro tema pouco discutido em grandes eventos desportivos é o aumento das infeções sexualmente transmissíveis. De acordo com o texto do ‘The Conversation’, cerca de um em cada cinco viajantes internacionais tem relações sexuais ocasionais durante as viagens, e quase metade desses contactos ocorre sem proteção. Mpox e sífilis estão entre as preocupações acompanhadas pelas autoridades de saúde.

As autoridades dos Estados Unidos, Canadá e México reforçaram a vigilância sanitária para o Mundial. Nos Estados Unidos, várias instituições académicas, empresas, organizações sem fins lucrativos e entidades de saúde pública vão acompanhar a evolução de possíveis ameaças infecciosas durante o torneio. Ainda assim, há especialistas preocupados com a capacidade de resposta americana, depois de cortes na infraestrutura de saúde pública desde 2025.

Para os adeptos, as recomendações são diretas: manter vacinas atualizadas, sobretudo contra sarampo, gripe e Covid-19; praticar sexo seguro; usar repelente contra mosquitos; e adotar cuidados básicos em espaços cheios. O Mundial será, acima de tudo, uma festa global do futebol. Mas, durante cinco semanas, será também um teste à prevenção, à vigilância e à capacidade de resposta dos sistemas de saúde.

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