Guerra silenciosa no Saara: drones de Marrocos mudam equilíbrio do conflito e preocupam vizinhos

Num conflito frequentemente descrito como uma guerra silenciosa, travada longe da atenção internacional nas vastas extensões desérticas do Saara, a eliminação de uma figura associada ao legado histórico da Frente Polisário é interpretada como uma tentativa de atingir simbolicamente uma das famílias mais influentes do movimento independentista.

Pedro Zagacho Gonçalves

A morte de Lahbib Abdelaziz, filho de Mohamed Abdelaziz, fundador da Frente Polisário, num ataque atribuído a um drone marroquino, voltou a colocar em destaque a crescente utilização de aeronaves não tripuladas por Rabat no conflito do Saara Ocidental. O episódio, que vitimou também outros dois membros da organização independentista saaraui, é visto como mais uma demonstração da superioridade tecnológica que Marrocos alcançou nos últimos anos no domínio dos drones militares.

Num conflito frequentemente descrito como uma guerra silenciosa, travada longe da atenção internacional nas vastas extensões desérticas do Saara, a eliminação de uma figura associada ao legado histórico da Frente Polisário é interpretada como uma tentativa de atingir simbolicamente uma das famílias mais influentes do movimento independentista.

Segundo Jalil Mohamed, irmão da vítima, o ataque foi realizado por um drone operado por Marrocos.

“Marrocos utiliza estes aparelhos há bastante tempo contra civis e militares. Até contra civis de países vizinhos, como mauritanos e argelinos”, afirmou ao jornal El Mundo.

Ataques com drones tornaram-se frequentes após 2021
De acordo com fontes ligadas à Frente Polisário, os bombardeamentos realizados por drones marroquinos tornaram-se uma prática regular desde 2021, após Rabat ter começado a incorporar este tipo de tecnologia avançada nas suas forças armadas.

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Lahbib Abdelaziz terá sido morto por um aparelho de última geração, numa operação realizada para além da linha de contacto entre as duas partes em conflito.

A utilização destes sistemas intensificou-se depois do fim do cessar-fogo que vigorava no território. Um alto oficial da Frente Polisário afirma que o primeiro ataque marroquino com drones ocorreu a 5 de janeiro de 2021, poucas semanas após a rutura do acordo de cessar-fogo na região de Guerguerat, em novembro de 2020.

Desde então, os ataques multiplicaram-se em várias áreas do Saara Ocidental, incluindo zonas fronteiriças utilizadas regularmente por populações civis nómadas saarauis e mauritanas.

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Arsenal tecnológico de Marrocos cresce rapidamente
A expansão das capacidades militares marroquinas assenta sobretudo na aquisição de drones de ataque, vigilância e reconhecimento de última geração.

Em 2021, Marrocos recebeu 19 drones Bayraktar TB2, produzidos na Turquia, que rapidamente passaram a desempenhar um papel central nas operações militares do país.

Posteriormente, em 2025, Rabat deu um novo salto tecnológico ao incorporar os drones Bayraktar Akinci, aparelhos muito mais sofisticados, com cerca de 20 metros de envergadura, autonomia de 25 horas e capacidade para transportar mísseis guiados de elevada precisão.

Paralelamente, as autoridades marroquinas investiram também em sistemas de vigilância avançada, incluindo os drones chineses Wing Loong II, utilizados em missões de reconhecimento e observação de longo alcance.

Mais recentemente, o reino adquiriu ainda o TB-001K, conhecido como “Escorpião de Duas Caudas”, um aparelho capaz de permanecer até 35 horas em voo e operar a altitudes de cerca de 9.500 metros.

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Segundo o artigo, estas capacidades permitem a recolha de informações sobre áreas estratégicas como o Estreito de Gibraltar, Ceuta e Melilha.

Cooperação com Israel reforçou capacidades de inteligência
O desenvolvimento das capacidades marroquinas não se limitou aos drones.

Graças ao fortalecimento das relações com Israel, a força aérea marroquina adquiriu igualmente drones WanderB e ThunderB, produzidos pela empresa israelita BlueBird Aero Systems.

Além disso, Rabat terá investido em sistemas avançados de seleção de alvos através de inteligência artificial, desenvolvidos pelas empresas israelitas Elbit Systems e IAI.

Estas tecnologias permitem identificar, acompanhar e atacar objetivos com um elevado grau de precisão, aumentando significativamente a eficácia operacional das forças armadas marroquinas.

Vítimas civis alimentam polémica
A utilização crescente de drones tem sido acompanhada por acusações relativas ao impacto sobre populações civis.

Segundo dados da Organização Saaraui de Coordenação da Ação Contra Minas (SMACO), foram registadas 160 vítimas civis associadas a ataques com drones marroquinos, incluindo 80 mortos.

A mesma organização sustenta que cerca de 67% dos ataques ocorreram em áreas fronteiriças frequentadas regularmente por civis.

Já a missão das Nações Unidas no Saara Ocidental documentou, em 2022, pelo menos 18 ataques realizados através deste tipo de sistemas.

A polémica tornou-se ainda maior devido à existência de vítimas provenientes de países que não participam diretamente no conflito.

Mortes de argelinos e mauritanos agravaram tensões regionais
Entre os casos mais sensíveis encontra-se um incidente ocorrido em novembro de 2021, quando três camionistas argelinos que transportavam materiais de construção em direção à Mauritânia morreram num bombardeamento.

O episódio provocou uma grave crise diplomática entre Argélia e Marrocos e contribuiu para o agravamento das tensões bilaterais.

Também a Mauritânia foi afetada por ataques registados em zonas próximas da fronteira.

No mesmo mês, dois garimpeiros mauritanos, Mohamed Meilid e Mohamed Babou, ficaram gravemente feridos após serem atingidos por mísseis em território saaraui.

Poucos meses depois, em abril de 2022, um novo ataque na localidade de Ain Bentili, junto à fronteira mauritana, provocou a morte de uma mulher e do seu filho que viajavam numa área de circulação civil.

De acordo com os dados da SMACO, 14,5% das vítimas mortais dos ataques com drones são cidadãos mauritanos e 8,5% são argelinos.

O número total de mortos associado a estes ataques ultrapassa já uma centena desde a retoma do conflito.

O Governo marroquino nunca reconheceu oficialmente qualquer uma destas operações.

Superioridade marroquina preocupa analistas de defesa
Embora Espanha continue a dispor de forças armadas globalmente mais poderosas, vários especialistas em defesa apontam que, no domínio específico dos drones de combate operacionais e com experiência real em cenários de guerra, Marrocos possui atualmente uma vantagem significativa.

Essa diferença é frequentemente identificada como uma das principais lacunas estratégicas que Madrid deverá procurar corrigir nos próximos anos.

A rápida modernização tecnológica das forças armadas marroquinas é vista como um fator que altera o equilíbrio militar regional e aumenta as preocupações dos países vizinhos relativamente à capacidade de projeção de força de Rabat.

Polisário garante que morte não enfraquecerá o movimento
Apesar do impacto simbólico da morte de Lahbib Abdelaziz, a Frente Polisário rejeita a ideia de que o ataque possa comprometer a sua estrutura ou a continuidade da sua luta.

Jalil Mohamed sustenta que a história do movimento foi construída precisamente através do sacrifício dos seus membros.

“A Frente Polisário é uma organização construída com base nos sacrifícios dos seus filhos. É isso que faz com que, após 50 anos, continue a ser uma organização tão sólida”, afirmou.

O dirigente recordou ainda que o fundador do movimento, Luali Mustafá Sayed, morreu aos 27 anos e que Mohamed Abdelaziz consolidou a sua liderança militar depois de ter sido ferido em combate por três vezes.

Sobre o irmão agora morto, acrescentou que “ganhou a admiração dos antigos combatentes e também das novas gerações”.

A morte de Lahbib Abdelaziz surge assim como mais um capítulo de um conflito que permanece longe dos holofotes internacionais, mas que continua a evoluir através de novas tecnologias militares, transformando profundamente a forma como a guerra é travada nas areias do Saara Ocidental.

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