Ftalatos, bisfenóis, retardadores de chama e outros compostos potencialmente nocivos foram detetados em dezenas de auscultadores e auriculares analisados num estudo europeu desenvolvido no âmbito do projeto ToxFree Life for All. A investigação, divulgada pela DECO PROteste, avaliou modelos de marcas como Apple, Bose, JBL, Sennheiser e Samsung, mas também produtos vendidos em marketplaces como Shein e Temu.
O estudo europeu analisou substâncias químicas presentes em auscultadores com banda para a cabeça e em modelos intra-auriculares. A conclusão é que não existem diferenças significativas entre os dois tipos de produto: tanto os auscultadores externos, almofadados e usados sobre as orelhas, como os auriculares colocados no ouvido apresentam níveis semelhantes de substâncias químicas.
A presença destes compostos não significa, por si só, um perigo imediato para os consumidores. Em condições normais de utilização, os riscos são considerados baixos, uma vez que a migração destas substâncias para o organismo tende a ser limitada. Ainda assim, a preocupação centra-se na exposição repetida e acumulada a químicos provenientes de várias fontes do quotidiano.
O que é o projeto ToxFree Life for All?
O ToxFree Life for All é um projeto europeu focado na sensibilização dos consumidores e na pressão política junto das instituições europeias para acelerar a transição para uma economia mais segura e menos dependente de produtos tóxicos.
O projeto desenvolve investigações, divulga resultados e procura levar os decisores políticos europeus a restringir ou proibir de forma mais rápida substâncias químicas nocivas presentes em produtos de consumo.
No caso dos auscultadores, a análise insere-se numa preocupação mais ampla com a exposição diária a substâncias como ftalatos, bisfenóis e retardadores de chama, que podem estar presentes em objetos eletrónicos, plásticos, cosméticos, detergentes, têxteis, mobiliário, brinquedos, calçado e acessórios.
O risco do chamado ‘efeito cocktail’
Uma das principais preocupações destacadas pelo estudo é o chamado ‘efeito cocktail’. O conceito refere-se ao risco associado à exposição diária, repetida e combinada a pequenas quantidades de substâncias químicas provenientes de várias fontes, e não apenas de um produto isolado.
Nos auscultadores foram encontrados disruptores endócrinos, compostos que podem interferir com os sistemas hormonal e reprodutor. O maior receio não está necessariamente na quantidade que pode passar para a pele durante o uso normal, mas no facto de estes produtos representarem mais uma fonte de exposição entre muitas outras presentes no dia a dia.
A exposição acumulada a disruptores endócrinos pode aumentar o risco de efeitos sobre os sistemas reprodutor e endócrino. Entre as fontes mais comuns estão alguns tipos de plástico, perfumes, vernizes, cremes, produtos de limpeza, pesticidas, mobiliário tratado com retardadores de chama, têxteis, espumas, eletrónicos e brinquedos.
Gaming e modelos de criança em análise
A investigação avaliou diferentes categorias de produto, incluindo modelos de adulto, auscultadores de gaming e produtos destinados a crianças. Segundo os resultados divulgados pela DECO PROteste, foram ultrapassados limites legais de substâncias potencialmente tóxicas em partes rígidas e flexíveis de 24% dos modelos de criança, 55% dos modelos de adulto e 63% dos modelos de gaming.
Nos modelos de gaming, os resultados são particularmente negativos. Entre os produtos disponíveis em Portugal analisados pelo estudo, nenhum cumpriu a legislação europeia de segurança considerando as partes flexíveis em contacto direto com a pele.
Já os modelos de criança apresentaram, em geral, menos compostos potencialmente perigosos, embora o estudo considere preocupante que cerca de um quarto dos produtos analisados destinados a crianças incluam quantidades acima do permitido.
Preço elevado não garante ausência de químicos
O estudo conclui ainda que os modelos mais caros não estão necessariamente isentos de substâncias potencialmente perigosas. Foram encontrados compostos nocivos em produtos de diferentes gamas de preço e de várias marcas.
Também não foram detetadas diferenças relevantes entre produtos comprados em marketplaces como Temu ou Shein e modelos provenientes dos circuitos tradicionais de distribuição. Ou seja, o preço, a marca ou o canal de venda não permitem, por si só, concluir que um produto é mais seguro do ponto de vista químico.
A legislação europeia, através do regulamento REACH, estabelece restrições e proibições para várias substâncias químicas. No entanto, o estudo identifica o problema das chamadas ‘substituições lamentáveis’, em que compostos proibidos ou restringidos são trocados por alternativas quimicamente semelhantes, ainda não totalmente abrangidas pelas regras, mas com riscos potenciais parecidos.
Como reduzir a exposição
A DECO PROteste recomenda alguns cuidados simples para quem pretende reduzir a exposição por precaução. Entre eles está limitar o contacto da pele com os plásticos rígidos dos auscultadores, manter os equipamentos limpos e em bom estado e evitar utilizações muito prolongadas, sobretudo em ambientes quentes ou em situações de transpiração, como durante a prática de exercício físico.
Nos modelos para crianças, a recomendação passa por privilegiar produtos que cumpram as normas europeias de segurança química, uma vez que esta categoria tende a beneficiar de regras mais exigentes.
A mensagem central do estudo é de prudência, não de alarme. A utilização normal de auscultadores e auriculares não é apresentada como um risco imediato para a saúde, mas a presença de substâncias nocivas reforça a necessidade de maior controlo, melhor informação ao consumidor e atualização mais rápida das regras europeias face à evolução dos materiais usados pela indústria.







