A indústria mundial do transporte marítimo está a alterar profundamente a forma como opera perante um cenário internacional cada vez mais marcado por conflitos armados, tensões geopolíticas e perturbações nas principais rotas comerciais. O que durante décadas foi encarado como uma sucessão de crises pontuais é agora visto pelos líderes do setor como uma realidade estrutural que poderá acompanhar o comércio global durante muitos anos.
A invasão russa da Ucrânia, os ataques dos rebeldes Houthis contra navios comerciais no Mar Vermelho, as perturbações registadas no Estreito de Ormuz e a crescente rivalidade entre grandes potências levaram os armadores e operadores marítimos a concluir que a instabilidade deixou de ser uma exceção para passar a fazer parte do quotidiano da navegação internacional.
A mudança de paradigma dominou os debates da conferência internacional Posidonia, realizada esta semana em Atenas, onde executivos e especialistas discutiram a necessidade de preparar o setor para um ambiente global cada vez mais imprevisível.
Para Tim Wilkins, diretor-geral da Intertanko, associação que representa os proprietários de navios-tanque, o principal desafio já não reside apenas nos conflitos regionais, mas na acumulação simultânea de múltiplas crises.
“O que está a acontecer agora é que existem múltiplos acontecimentos em curso — não apenas escaramuças regionais, mas todo o quadro regulatório global está a ser questionado”, afirmou Wilkins durante a conferência, citado pelo jornal Politico.
Segundo o responsável, a velocidade e a complexidade dos acontecimentos atuais representam algo sem precedentes para o setor.
“Este tipo de complexidade, com acontecimentos sobrepostos e a ocorrerem tão rapidamente, nunca tinha acontecido antes. É por isso que a indústria está a entrar numa nova fase, uma nova forma de fazer negócios”, acrescentou.
Estreito de Ormuz obriga a novas orientações de segurança
Os receios dos armadores já se refletem em novas medidas práticas.
No final de maio, o Conselho Marítimo Internacional e do Báltico (BIMCO), a maior associação mundial do setor marítimo, divulgou orientações específicas para os navios que transitam pelo Estreito de Ormuz, uma das mais importantes passagens marítimas do mundo.
O documento inclui procedimentos para responder a ataques com mísseis e drones, interferências nos sistemas de navegação por satélite, ameaças de minas marítimas e tentativas de abordagem por forças hostis.
Jakob P. Larsen, diretor de segurança da BIMCO, explicou que as empresas estão a preparar-se para um cenário de risco prolongado.
“Penso que é bastante claro que os armadores receiam que esta situação se prolongue”, afirmou.
Segundo Larsen, as empresas procuram antecipar todos os cenários possíveis.
“Estão a tentar prever todas as situações potenciais que podem acontecer porque, se estivermos preparados, as probabilidades de minimizar perdas de tripulação, de navios e de tudo o resto são simplesmente maiores”, sublinhou.
Oceanos tornam-se palco de rivalidades entre potências
Os responsáveis presentes em Atenas foram particularmente enfáticos ao descrever a transformação dos mares em zonas de confronto estratégico.
Svein Ringbakken, diretor executivo da Associação Norueguesa de Seguros de Riscos de Guerra para Armadores, considerou que o atual contexto ultrapassa largamente aquilo que o setor enfrentou no passado.
“O que estamos a ver hoje não tem nada a ver com o que vimos anteriormente”, afirmou.
Na sua perspetiva, os oceanos passaram a ser um dos principais palcos da competição entre grandes potências.
“Os oceanos tornaram-se a arena dos conflitos entre grandes potências. A indústria marítima tornou-se um alvo, desde o Ártico até ao Mar do Sul da China”, alertou.
A situação no Golfo Pérsico é encarada apenas como mais um capítulo de uma tendência mais ampla.
“É mau, é realmente muito mau. Mas esta é uma tendência contínua e, infelizmente, as perspetivas futuras não parecem positivas”, afirmou.
“O novo normal” para o transporte marítimo
Também Nikos Triantafyllakis, diretor-geral da W Marine, considera que o setor entrou numa nova era.
“Estamos a atravessar uma reorganização muito violenta do poder mundial. Este é o novo normal”, afirmou.
Segundo o gestor, os próprios navios passaram a assumir uma dimensão estratégica que ultrapassa a sua função comercial.
“Os navios estão a ser transformados em armas e temos de estar preparados para lidar com isso”, declarou.
Frota fantasma russa preocupa armadores
Além dos conflitos armados, o setor continua preocupado com o crescimento da chamada “frota fantasma” russa, composta por centenas de petroleiros que operam fora dos padrões de supervisão e regulamentação habitualmente aplicados à navegação internacional.
Tim Wilkins considera que esta realidade está a provocar efeitos duradouros no mercado.
“A frota fantasma desestabilizou verdadeiramente o setor dos navios-tanque e o sistema regulatório global”, afirmou.
Na sua opinião, as consequências desse fenómeno deverão prolongar-se muito para além de qualquer crise específica.
“As repercussões vão durar muito mais tempo do que qualquer acontecimento individual”, advertiu.
Empresas entram em “modo de guerra”
Os líderes do setor admitem que a gestão das companhias marítimas passou a incorporar riscos que anteriormente eram considerados extraordinários.
James Lewis, vice-presidente de operações globais da Cargill Ocean Transportation, destacou a rapidez com que os cenários mudam.
“Não creio que tenhamos assistido a mudanças desta dimensão durante toda a minha memória”, afirmou.
Segundo o responsável, a flexibilidade tornou-se um elemento essencial da estratégia empresarial.
“Trata-se de responder rapidamente. Trata-se de construir flexibilidade na frota, nos processos de decisão e na tecnologia utilizada”, explicou.
Já Rolf Westfal-Larsen Jr., presidente da Intertanko e diretor executivo da Westfal-Larsen Management, sublinhou que os riscos geográficos sempre existiram na navegação, mas nunca numa escala tão abrangente.
“A mudança agora é que isto acontece à escala global. Estamos a assistir ao surgimento de barreiras comerciais entre países e o transporte marítimo está a ser utilizado ativamente como arma política”, afirmou.
O responsável recordou que vários marítimos perderam a vida em conflitos recentes.
“Anteriormente era um risco que podia ser calculado e avaliado através de protocolos. Mas quando falamos de riscos desta magnitude, temos simplesmente de aconselhar os nossos associados a manterem-se afastados, porque o risco é demasiado elevado”, acrescentou.
Incerteza afeta investimentos e renovação de frotas
As tensões internacionais estão igualmente a influenciar as decisões de investimento.
Costas Delaportas, presidente e diretor executivo da DryDel Shipping, afirmou que as empresas são hoje obrigadas a considerar permanentemente riscos geopolíticos, sanções internacionais e potenciais falhas no abastecimento de combustível.
“Num único dia podemos assistir a alterações rápidas das regras”, afirmou.
“Apesar de termos feito tudo corretamente, podemos enfrentar mudanças de um dia para o outro”, acrescentou.
Por sua vez, Charis Plakantonaki, diretora de estratégia da Star Bulk Carriers, revelou que a empresa está a adotar uma postura mais cautelosa, adiando encomendas de novos navios e preservando liquidez até existir maior clareza sobre a evolução do mercado.
Comissão Europeia alerta para os perigos da normalização da crise
Apesar de reconhecerem a necessidade de adaptação, responsáveis políticos europeus alertaram para o risco de aceitar a instabilidade como inevitável.
Na abertura da conferência Posidonia, o comissário europeu dos Transportes, Apostolos Tzitzikostas, advertiu que a comunidade internacional não pode encarar restrições à navegação como uma situação normal.
“Existe um perigo real de começarmos a considerar o encerramento do Estreito de Ormuz como o novo normal”, afirmou.
“Isso é profundamente problemático e, permitam-me dizê-lo, perigoso”, acrescentou.
O responsável alertou ainda que aceitar restrições, taxas impostas de forma coerciva ou limitações à circulação em águas internacionais poderá criar precedentes com consequências duradouras para o comércio mundial.
“Se recuarmos hoje, estaremos a criar um precedente muito perigoso, colocando em risco os próprios princípios da navegação que foram construídos ao longo de décadas”, concluiu.












