Negócio de cannabis em Portugal envolveu consultora de ex-presidente do Infarmed e acusado de ligações ao PCC

Eurico Castro Alves é uma figura com peso institucional no setor da saúde. Além de antigo presidente do Infarmed e ex-governante, foi escolhido pelo atual Governo para coordenar o Plano de Emergência e Transformação na Saúde

Revista de Imprensa

A Wise Healthcare Solutions, consultora fundada por Eurico Castro Alves, antigo presidente do Infarmed e ex-secretário de Estado da Saúde, apresentou à Sync Nature, empresa portuguesa de cannabis medicinal, a Wdealer, sociedade controlada pelo empresário brasileiro Cláudio Rocha Júnior, revela o ‘Público’. O empresário viria a ser condenado em Portugal por tráfico de cocaína e já tinha sido identificado pelas autoridades brasileiras como membro do núcleo principal de uma alegada organização dedicada ao tráfico internacional de droga, branqueamento de capitais e remessa ilegal de divisas.

O caso surge no contexto da forte expansão da cannabis medicinal em Portugal, sobretudo entre 2018 e 2023, período em que as pré-licenças, os projetos industriais preparados para autorização do Infarmed e os dossiers técnicos passaram a valer milhões. Nesse mercado, a WiseHS assumiu um papel relevante, prestando apoio regulatório, acompanhamento técnico e estruturação de projetos destinados à obtenção de licenças para cultivo, fabrico, comércio por grosso, importação e exportação.

Eurico Castro Alves é uma figura com peso institucional no setor da saúde. Além de antigo presidente do Infarmed e ex-governante, foi escolhido pelo atual Governo para coordenar o Plano de Emergência e Transformação na Saúde. A sua proximidade com Luís Montenegro, primeiro-ministro com quem passou férias no Brasil em agosto de 2024, acrescenta dimensão política ao caso.

O mercado das pré-licenças

A documentação analisada pelo ‘Público’ indica que a WiseHS não atuava apenas como consultora técnica. A empresa coordenava projetos industriais completos, estruturava investimentos, articulava fornecedores, acompanhava licenciamentos e preparava unidades segundo regras de Boas Práticas de Fabrico, podendo cobrar até 6,5 milhões de euros por estes serviços, de acordo com fontes contactadas pelo jornal.

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A Sync Nature, criada em 2021 para desenvolver uma unidade de produção de cannabis medicinal em Oliveira do Bairro, contratou a WiseHS para assegurar o licenciamento e o acompanhamento técnico do projeto. Apesar dos investimentos feitos, a unidade nunca entrou em produção comercial e acabou por ser colocada no mercado.

Nesse processo, a WiseHS terá atuado como intermediária na procura de investidores, apresentando potenciais compradores e ficando com direito a comissões caso os negócios fossem concretizados. Entre os interessados apresentados à Sync Nature surgiu a Wdealer – Serviços de Importação e Exportação, sociedade sediada no Porto e detida por Cláudio Rocha Júnior.

Negócio falhado e insolvência

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A Wdealer acabaria por entrar num processo de insolvência em Portugal. Declarada insolvente em julho de 2025, no Tribunal do Comércio de Vila Nova de Gaia, a empresa passou a ser disputada por credores com reclamações milionárias, incluindo a sociedade panamiana Trade 2000 Inc. e os promotores da Sync Nature.

A tentativa de aquisição da Sync Nature pela Wdealer foi feita através de um contrato-promessa de cessão de quotas. O acordo previa uma cláusula penal de incumprimento no valor de 12,5 milhões de euros e o contrato definitivo deveria ter sido celebrado até 27 de janeiro de 2023. O negócio nunca se concretizou.

A documentação do processo mostra que as negociações entre a Wdealer e a Sync Nature estavam em curso antes de janeiro de 2023, vários meses antes da condenação de Cláudio Rocha Júnior pelo Tribunal de Matosinhos. Nessa altura, porém, o empresário já tinha sido identificado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal do Brasil na Operação Descobrimento, investigação ligada a tráfico internacional de cocaína, branqueamento de capitais e remessa ilegal de divisas.

Empresário ligado a várias investigações

Apesar de ter apenas um trabalhador registado, a Wdealer declarou em 2021 um volume de negócios superior a 3,4 milhões de euros, quase totalmente proveniente de exportações. Nos dois anos seguintes, a atividade declarada caiu para zero euros de vendas, mas as contas de 2023 mostravam mais de 3,1 milhões de euros em caixa e depósitos bancários, ao mesmo tempo que a empresa acumulava quase 960 mil euros em dívidas ao Estado e a outras entidades públicas.

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Cláudio Rocha Júnior foi identificado perante o tribunal português como “empregado de balcão” no processo em que viria a ser condenado por tráfico de droga. Antes de se instalar em Portugal, controlava no Brasil uma empresa com a mesma designação, resultante da antiga Bilmaker 600, sociedade referida em investigações relacionadas com a Operação Lava Jato.

Já no Porto, a Wdealer surgiria em investigações do Ministério Público português relacionadas com suspeitas de branqueamento de capitais. Um relatório do Departamento Central de Investigação e Ação Penal descreve a empresa como o principal centro de movimentação financeira do empresário brasileiro, com transferências nacionais e internacionais de elevado valor, depósitos em numerário e operações cuja justificação económica nem sempre terá sido demonstrada.

A investigação brasileira

A dimensão internacional do caso surge na Operação Descobrimento. Em abril de 2022, o Ministério Público Federal brasileiro acusou Cláudio Rocha Júnior de integrar o chamado “primeiro escalão” de uma organização criminosa dedicada ao tráfico internacional de cocaína, branqueamento de capitais e remessa ilegal de divisas.

A investigação teve origem na apreensão de centenas de quilos de cocaína escondidos na fuselagem de um jacto executivo da OMNI – Aviação e Tecnologia, em Salvador da Bahia, quando a aeronave se preparava para regressar a Portugal.

De acordo com a acusação brasileira, Rocha Júnior seria um dos responsáveis pela articulação entre fornecedores da droga, operadores do transporte aéreo e destinatários europeus da cocaína. As autoridades brasileiras colocaram-no no mesmo núcleo de figuras como Rowles Magalhães, Nilton Borgato, Nelma Kodama e Marcelo Mendonça de Lemos, apontado pela Polícia Federal como membro do alto escalão do Primeiro Comando da Capital.

Em Portugal, Cláudio Rocha Júnior foi condenado em julho de 2023 pelo Tribunal de Matosinhos a cinco anos de prisão por tráfico de droga, num processo distinto, relacionado com uma investigação da Polícia Judiciária a uma rede de distribuição de cocaína. Nesse processo, foi absolvido do crime de branqueamento de capitais, tal como a Wdealer.

WiseHS admite falha na verificação

Na sequência dos contactos mediados pela empresa de Eurico Castro Alves, a Wdealer avançou para a negociação da aquisição da Sync Nature. O ‘Público’ escreve que Castro Alves admitiu que a WiseHS errou ao não realizar diligências formais de due diligence empresarial, reputacional ou de prevenção de branqueamento de capitais relativamente à Wdealer ou a Cláudio Rocha Júnior antes de apresentar a empresa aos promotores do projeto de cannabis medicinal.

O antigo secretário de Estado nega, no entanto, qualquer participação consciente em ilegalidades ou benefício pessoal, atribuindo muitas das suas ações a generosidade e amizade.

O caso expõe a zona cinzenta criada pela corrida à cannabis medicinal em Portugal, num mercado em que o valor estava muitas vezes menos na produção efetiva e mais no acesso ao licenciamento, na preparação técnica dos projetos e na possibilidade de os vender a investidores internacionais. Também levanta dúvidas sobre os mecanismos de verificação usados por intermediários privados em operações de vários milhões de euros num sector sujeito a regras exigentes de licenciamento, compliance e prevenção de branqueamento de capitais.

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