A família de Ana Paula, uma das vítimas mortais do acidente no Elevador da Glória, exige uma indemnização de 1,05 milhões de euros à Carris, à seguradora Fidelidade e à empresa Mntc – Serviços Técnicos de Engenharia, que assegurava a manutenção do ascensor, revela o Público.
A ação foi entregue esta semana no Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa por Isaque Adam, marido da vítima, e pela filha do casal. Em causa estão vários pedidos de compensação: pela perda da vida de Ana Paula, pelo sofrimento antes da morte, pelos danos morais causados ao marido e à filha e ainda pelos rendimentos salariais que a família deixou de receber devido à morte precoce da funcionária da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
Ana Paula tinha 49 anos e fazia parte da equipa que tratava dos processos de adoção na Santa Casa, área que chegou a liderar durante alguns anos. No dia 3 de setembro de 2025, tinha saído do trabalho e entrado no Elevador da Glória, como fazia habitualmente. Tinha combinado ir ao ginásio com uma amiga, mas nunca chegou ao encontro.
A procura desesperada por Ana Paula
Foi essa amiga quem deu o alerta, depois de estranhar a ausência de Ana Paula e o facto de esta não atender o telemóvel. O marido encontrava-se numa aula, na qualidade de inspetor da Autoridade Nacional da Aviação Civil, e tinha o telefone em silêncio. Só no intervalo percebeu que tinha várias chamadas não atendidas.
Ao contactar a amiga da mulher, soube que Ana Paula não tinha aparecido e que, antes disso, tinha ocorrido um acidente grave no Elevador da Glória, transporte público que a vítima usava regularmente.
Na ação citada pelo ‘Público’, a família descreve as horas seguintes como um período de ansiedade crescente, marcado por chamadas sucessivas, deslocações a vários locais, pedidos de informação junto de colegas, profissionais de saúde e autoridades, rumores e ausência de confirmação sobre o paradeiro de Ana Paula.
A filha, então menor, estava no Algarve com uma família amiga quando soube do acidente e regressou a Lisboa em sobressalto. Durante a noite, pai e filha mantiveram a esperança, mas na manhã seguinte, após nova passagem por hospitais, receberam uma chamada para se deslocarem à Polícia Judiciária. Foi aí que souberam que Ana Paula estava entre as 16 vítimas mortais.
Uma das últimas pessoas a entrar no ascensor
De acordo com o relato de uma colega que a acompanhava e sobreviveu ao acidente, Ana Paula terá sido uma das últimas pessoas a entrar no elevador. Segundos depois, o cabo subterrâneo que ligava os dois ascensores rompeu junto à cabine onde seguiam as duas trabalhadoras.
Sem controlo e a alta velocidade, a cabine descarrilou a meio do percurso e embateu contra um edifício e postes de iluminação pública. O acidente provocou 16 mortos e 22 feridos.
O corpo de Ana Paula só foi libertado dois dias depois. A despedida da família ficou condicionada pela gravidade das lesões, havendo instruções para que o caixão não fosse aberto.
“Abandono” e ausência de resposta concreta
Na petição, os advogados da família, Nuno Pinto Coelho de Faria e Carolina Patinhas, descrevem uma sensação de abandono após o acidente. Embora tenham sido anunciados fundos, bolsas, comissões, planos e medidas, a família sustenta que, para quem perdeu mulher e mãe, “a resposta concreta permanece ausente”.
A ação refere ainda o impacto psicológico da tragédia na filha de Ana Paula, que deixou de andar de transportes públicos por não se sentir segura.
A Carris, contactada pelo ‘Público’, afirma que ainda não foi citada para qualquer ação desta natureza. A empresa pública acrescenta que os processos de indemnização dos 22 feridos e dos familiares das 16 vítimas mortais estão a ser conduzidos pela seguradora com a qual tem o seguro contratado, que estará em contacto com as vítimas e os familiares e já terá celebrado acordos.
A administração da Carris garante também que contactou os familiares das vítimas portuguesas e reuniu com todos os que manifestaram interesse, transmitindo disponibilidade para continuar a prestar apoio, incluindo acompanhamento psicológico.
Família aponta falhas à Carris, à manutenção e ao Estado
A ação entregue em tribunal atribui responsabilidades à Carris, enquanto entidade exploradora do Elevador da Glória, e à Mntc, enquanto empresa responsável pela manutenção do equipamento. A família invoca falhas detetadas pelo Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e Acidentes Ferroviários, o GPIAAF.
Entre os problemas apontados estão falhas na aquisição, receção, aceitação e validação técnica do cabo, na montagem, manutenção e controlo da pinha, peça que prende as extremidades do cabo de aço que liga as duas cabines, na manutenção do ascensor, na fiscalização e registo das intervenções, na formação técnica dos trabalhadores, no controlo da qualidade dos trabalhos realizados e na reavaliação do sistema de freio.
Para a família, este conjunto de falhas revela uma deficiência objetiva de organização, funcionamento, coordenação, fiscalização, controlo técnico e gestão de risco do serviço público de transporte de passageiros.
A petição também aponta responsabilidades ao Estado, por alegadamente ter permitido um vazio de fiscalização no Elevador da Glória. O documento sustenta que o ascensor escapava à tutela do Instituto da Mobilidade e dos Transportes ou de outro organismo externo, deixando a segurança dependente da própria entidade operadora e das empresas subcontratadas.
Os advogados consideram incompreensível que o Estado português e o município de Lisboa tenham permitido que a segurança de um transporte histórico, usado diariamente por milhares de passageiros, dependesse da própria operadora e de empresas contratadas, sem supervisão externa e independente em matéria de segurança.
No entendimento da família, as falhas identificadas revelam um padrão de desvalorização do risco, falta de atualização técnica, ausência de controlo de qualidade estruturado, falhas documentais, défice de formação especializada e decisões operacionais orientadas pela continuidade do serviço em detrimento da segurança.




