A greve geral marcada para esta quarta-feira volta a trazer para o debate público uma acusação antiga: a ideia de que as paralisações nacionais são habitualmente convocadas para sextas-feiras ou vésperas de feriado.
No entanto, a compilação feita pelo ‘AbrilAbril’ sobre todas as greves gerais realizadas desde o 25 de Abril aponta noutra direção: das 12 greves gerais contabilizadas, incluindo a desta quarta-feira, a maioria ocorreu a meio da semana, sobretudo às quartas e quintas-feiras.
O tema ganhou força na greve geral de 11 de dezembro de 2025, quando vários comentadores televisivos recuperaram a tese de que os trabalhadores e sindicatos preferem marcar paralisações junto ao fim de semana. Foi o caso de Miguel Sousa Tavares, que afirmou que “os professores adoram fazer greves antes do fim-de-semana”. Também Ana Vieira, secretária-geral da Confederação do Comércio e Serviços de Segurança, estranhou que a greve geral não tivesse sido marcada para sexta-feira, “como é habitual”.
O que mostram as datas das greves gerais
A lista histórica desmente essa leitura. Desde 1982, Portugal teve greves gerais em vários dias da semana, mas apenas uma foi marcada para uma sexta-feira: a primeira, realizada a 12 de fevereiro de 1982. A partir daí, as paralisações gerais distribuíram-se por terças, quartas e quintas-feiras, com especial peso para os dias a meio da semana.
A greve geral de 11 de maio de 1982 foi a uma terça-feira. A de 28 de março de 1988 ocorreu a uma segunda-feira. Já no século XXI, a paralisação de 10 de dezembro de 2002 foi marcada para uma terça-feira, a de 30 de maio de 2007 para uma quarta-feira, e as greves de 24 de novembro de 2010, 14 de novembro de 2012 e 3 de junho de 2026 também caíram a uma quarta-feira.
As quintas-feiras também aparecem várias vezes: 24 de novembro de 2011, 22 de março de 2012, 27 de junho de 2013 e 11 de dezembro de 2025. Ou seja, a ideia de que as greves gerais são, por hábito, à sexta-feira não resiste ao confronto com o calendário.
E a tese dos feriados?
Depois da greve geral de dezembro de 2025, surgiu uma segunda acusação: a de que as greves gerais seriam normalmente marcadas perto de feriados.
A lista histórica não confirma a regra. A maioria das greves gerais ocorreu sem feriados próximos. Foi assim em 12 de fevereiro de 1982, 11 de maio de 1982, 30 de maio de 2007, 24 de novembro de 2010, 24 de novembro de 2011, 22 de março de 2012, 14 de novembro de 2012 e 27 de junho de 2013.
Há poucos casos em que existia algum feriado na mesma semana ou em dias relativamente próximos. A greve de 28 de março de 1988 decorreu na semana da Sexta-feira Santa, a quatro dias desse feriado. A de 10 de dezembro de 2002 aconteceu cinco dias antes de um feriado que calhou a um domingo. A de 11 de dezembro de 2025 realizou-se três dias depois de um feriado à segunda-feira. Ainda assim, estes exemplos não sustentam a ideia de uma prática habitual de “colar” greves gerais a feriados.
A greve desta quarta-feira é inédita
A paralisação de hoje tem, contudo, uma particularidade: é um caso inédito na história recente portuguesa, por ser a primeira greve geral convocada, desde o início do século XX, para um dia que antecede um feriado.
Isso não significa, por si só, irregularidade ou exceção problemática. Uma greve geral pode ser marcada para a véspera de um feriado. A questão é que, historicamente, isso não tem sido a regra.
O calendário não confirma o mito
A conclusão é simples: houve greves gerais em Portugal à terça, quarta, quinta, segunda e sexta-feira, mas a sexta-feira está longe de ser o padrão. Também não há base suficiente para afirmar que as paralisações são, por norma, marcadas junto a feriados.
A greve geral desta quarta-feira pode reacender a acusação por anteceder um feriado, mas a história das greves gerais em Portugal mostra que esse é precisamente o elemento excecional. O mito da greve sempre marcada para sexta-feira ou para fazer ponte não é confirmado pelas datas.




