Explicador: Portugal vai hoje a votos na ONU. O que está em causa na corrida ao Conselho de Segurança?

A votação é secreta e envolve os 193 Estados-membros das Nações Unidas. Para ser eleito, um país precisa de garantir uma maioria qualificada de dois terços dos votos expressos. O mandato, caso Portugal seja escolhido, terá a duração de dois anos e começa a 1 de janeiro de 2027

Francisco Laranjeira

Portugal vai esta quarta-feira a votos na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, para tentar conquistar um lugar como membro não-permanente do Conselho de Segurança da ONU no biénio 2027-2028. A candidatura, formalizada em 2013, disputa um dos dois lugares atribuídos ao grupo da Europa Ocidental e Outros Estados, numa corrida em que os adversários diretos são a Alemanha e a Áustria.

A votação é secreta e envolve os 193 Estados-membros das Nações Unidas. Para ser eleito, um país precisa de garantir uma maioria qualificada de dois terços dos votos expressos. O mandato, caso Portugal seja escolhido, terá a duração de dois anos e começa a 1 de janeiro de 2027.

O que é o Conselho de Segurança?

O Conselho de Segurança é o órgão das Nações Unidas com a responsabilidade principal pela manutenção da paz e da segurança internacional. Tem poder para aprovar resoluções vinculativas, autorizar missões de paz, impor sanções e discutir crises internacionais que possam ameaçar a estabilidade global.

É composto por 15 membros: cinco permanentes e dez não-permanentes. Os cinco permanentes são Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido, todos com direito de veto. Os dez restantes são eleitos pela Assembleia Geral para mandatos de dois anos, distribuídos por grupos regionais para garantir representação geográfica.

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Todos os anos, a Assembleia Geral elege cinco novos membros não-permanentes, substituindo metade dos lugares rotativos. No caso português, a eleição diz respeito ao grupo da Europa Ocidental e Outros Estados, que tem dois assentos em disputa. Nesta eleição, Portugal, Alemanha e Áustria concorrem por esses dois lugares.

Porque é que esta eleição importa?

Estar no Conselho de Segurança não coloca Portugal ao nível dos cinco membros permanentes, porque os países não-permanentes não têm direito de veto. Mas dá ao país lugar direto na mesa onde são discutidas algumas das principais crises internacionais.

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Durante dois anos, Portugal poderia votar resoluções, participar em negociações diplomáticas de alto nível, acompanhar dossiers de guerra e segurança internacional e influenciar debates sobre sanções, missões de paz, proteção de civis, terrorismo, conflitos regionais e novas ameaças à segurança.

Há ainda um elemento de visibilidade diplomática. Os membros do Conselho de Segurança presidem ao órgão de forma rotativa, durante um mês, por ordem alfabética. Nesse período, o país que preside pode propor o programa mensal de trabalho, convocar reuniões extraordinárias e gerir a participação de Estados ou entidades sem assento no Conselho.

O que Portugal promete defender?

A candidatura portuguesa tem como lema “Prevenção, Parceria, Proteção”. A ideia central é apresentar Portugal como um país defensor do multilateralismo, do direito internacional, da diplomacia preventiva e da cooperação entre Estados.

Na página oficial da candidatura, Portugal afirma que pretende ajudar a construir um Conselho de Segurança mais preparado para prevenir conflitos, criar parcerias e proteger a paz. Entre as prioridades estão a mediação, a diplomacia preventiva, a ligação entre alterações climáticas e segurança, a proteção de civis, a paz e segurança das mulheres e dos jovens, e uma maior cooperação entre o Conselho de Segurança e outros órgãos da ONU.

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O primeiro-ministro, Luís Montenegro, defende na mensagem oficial da candidatura que o multilateralismo está no centro da política externa portuguesa e recorda que Portugal contribuiu com mais de 20 mil efetivos para missões de paz da ONU nos últimos 65 anos. Para o Governo, isso permite apresentar o país como um “contribuinte líquido para a paz mundial”.

Portugal já esteve no Conselho de Segurança?

Sim. Portugal, membro das Nações Unidas desde 1955, já foi eleito membro não-permanente do Conselho de Segurança em três ocasiões: 1979-1980, 1997-1998 e 2011-2012. Em todas as vezes em que se candidatou, conseguiu ser eleito.

No mandato mais recente, em 2011-2012, Portugal conseguiu bater a candidatura do Canadá, enquanto a Alemanha foi eleita à primeira volta. Agora, a Alemanha volta a estar na corrida, tal como a Áustria, o que torna a eleição desta quarta-feira particularmente competitiva.

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, admitiu estar confiante, mas reconheceu que a disputa é exigente. O chefe da diplomacia portuguesa tem defendido que Portugal pode beneficiar da sua imagem de país “construtor de pontes”, com uma rede de relações relevante em várias regiões do mundo.

O que Portugal ganha se for eleito?

O benefício mais imediato é diplomático. Um assento no Conselho de Segurança dá a Portugal acesso direto a informação, negociações e decisões sobre conflitos e crises internacionais. Para um país de dimensão média, é uma oportunidade de aumentar influência, reforçar alianças e mostrar capacidade de mediação.

Há também ganhos de reputação. Uma eleição confirmaria o peso da diplomacia portuguesa, a capacidade de reunir apoios internacionais e a continuidade de uma campanha que atravessou vários governos desde 2013. Num momento de guerra na Ucrânia, tensão no Médio Oriente, pressão migratória, alterações climáticas e competição entre grandes potências, o lugar teria particular relevância política.

Para Portugal, a candidatura também serve para projetar prioridades próprias: oceanos, direito internacional, cooperação para o desenvolvimento, segurança climática, missões de paz e reforma do sistema multilateral. Não significa poder decidir sozinho, mas permite ter voz no centro da diplomacia global.

E o que está em causa para a ONU?

A eleição de membros não-permanentes é uma forma de renovar a composição do Conselho e dar representação a países que não pertencem ao grupo restrito dos membros permanentes. Esses lugares rotativos procuram equilibrar a presença regional e evitar que o Conselho seja apenas dominado pelas grandes potências.

Ainda assim, o funcionamento do Conselho continua condicionado pelo direito de veto dos cinco membros permanentes. É por isso que Portugal tem defendido uma ONU mais representativa e transparente, incluindo a reforma do Conselho de Segurança. Marcelo Rebelo de Sousa já tinha defendido, em 2021, uma reforma que desse maior presença a África, ao Brasil e à Índia como membros permanentes, para tornar o órgão mais ajustado ao século XXI.

O que acontece se Portugal perder?

Se Portugal não for eleito, falha uma candidatura preparada há mais de uma década e perde uma oportunidade rara de regressar ao centro da diplomacia de segurança internacional. O país continuaria, naturalmente, a participar na ONU e na política externa multilateral, mas sem o mesmo grau de acesso, visibilidade e capacidade de intervenção no Conselho de Segurança.

Como há três candidatos para dois lugares, um dos países ficará de fora. A Alemanha chega à corrida com peso político e financeiro dentro do sistema internacional, enquanto a Áustria tem tradição diplomática e acolhe instituições internacionais em Viena. Portugal aposta na sua rede diplomática, na relação com países africanos, latino-americanos e lusófonos, e na imagem de mediador.

Por isso, a votação desta quarta-feira não é apenas uma formalidade. É uma prova à capacidade da diplomacia portuguesa de transformar uma campanha longa em votos concretos no momento decisivo.

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