PME portuguesas e a “armadilha da dimensão”: Por que razão as pequenas empresas não conseguem crescer?

O tecido empresarial português continua preso à chamada “armadilha da dimensão”. Apesar de representar 99% do universo empresarial, a esmagadora maioria das micro, pequenas e médias empresas (PME) não consegue escalar, ganhar massa crítica ou crescer de forma sustentada

André Manuel Mendes

A passagem para uma escala superior é muitas vezes travada por barreiras que vão além da gestão interna: burocracia, enquadramento fiscal, custos de contexto e modelos organizacionais pensados para a sobrevivência, não para a ambição. Empresários e associações empresariais concordam que o problema não está apenas na falta de visão ou de talento, mas num sistema que continua a penalizar quem quer ganhar dimensão – apesar dos sinais de maturidade que começam a emergir no ecossistema empresarial nacional.

RETRATO

O tecido empresarial português continua a enfrentar grandes dificuldades em ganhar dimensão. Entre 2019 e 2023, apenas 3,4% das empresas conseguiram subir de escalão – de micro a pequenas, de pequenas a médias ou de médias a grandes –, enquanto 0,7% perderam dimensão e a maioria manteve-se inalterada.

O estudo “Ganhar dimensão para ser grande: O caso das empresas Adolescentes e Jovens Adultas”, elaborado pela Informa DB para a Associação Business Roundtable Portugal, revela que o crescimento é mais difícil entre as microempresas, onde apenas 2,9% conseguiram passar de escalão, seguido pelas pequenas (10,6%) e médias (9,5%). Nas pequenas empresas, 11% desceram de escalão, uma percentagem ligeira mente superior à que conseguiu subir.

O tecido empresarial português é dominado por microempresas e pequenas e médias empresas (PME), e poucas conseguem aumentar de forma consistente o volume de negócios ou escalar. Apenas 1,3% das 380 mil empresas do país conseguiram crescer consecutivamente ao longo dos últimos 10 anos, percentual que sobe para 6,8% em cinco anos e 28% em três anos. Mesmo nos últimos dois anos, apenas 43% das empresas aumentaram consecutivamente as suas receitas.

Continue a ler após a publicidade

A falta de crescimento reflecte-se também no emprego: só 0,9% das empresas aumentaram consecutivamente a força de trabalho num período de cinco anos.

Apesar deste panorama, a análise identificou 396 empresas com elevado potencial para impulsionar o crescimento económico. Estas empresas, apelidadas de “Empresas Adolescentes e Jovens Adultas”, têm entre 30 e 150 milhões de euros de volume de negócios, capital nacional e não operam no sector imobiliário. Em conjunto, geram 22 mil milhões em receitas, empregam 94 mil trabalhadores e exportam 4,6 mil milhões de euros.

CUSTOS DE CONTEXTO PENALIZAM

Continue a ler após a publicidade

Há um factor determinante que está a reduzir a competitividade e produtividade das empresas portuguesas – os custos de contexto. Estes são encargos e obstáculos externos à gestão interna de uma empresa, resultantes de burocracia, leis, falhas de mercado ou deficiências na regulação e infra-estruturas.

Os custos de contexto das empresas aumentaram em 2024 e atingiram o valor mais elevado desde que começaram a ser medidos, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).

De acordo com o Boletim Trimestral da Economia Portuguesa, publicado pelo gabinete de estudos do Ministério das Finanças (GEPEARI) e pela Direcção-Geral da Economia, a carga administrativa, o sistema judicial e os processos de licenciamento foram, em 2024, os principais obstáculos à actividade económica, contribuindo para o agravamento dos custos de contexto.

Segundo a análise, o indicador global construído a partir do inquérito do INE fixou-se em 3,14 em 2024, acima do valor médio de referência (2,5) e superior aos 3,09 registados em 2021, atingindo assim o nível mais elevado desde o início da série, em 2014, quando se situava nos 3,04.

Entre os vários domínios analisados – que incluem início de actividade, licenciamentos, indústrias de rede, financia- mento, sistema judicial, sistema fiscal, carga administrativa, barreiras à internacionalização e recursos humanos – o sistema judicial continua a ser o maior obstáculo, com um indicador de 3,66, subindo face a 2021 e invertendo a tendência de melhoria observada desde 2014.

Continue a ler após a publicidade

Os licenciamentos registaram também um agravamento, passando de 3,47 para 3,54 em 2024, o valor mais alto da última década. O sistema fiscal manteve-se relativamente estável desde 2017, situando-se nos 3,28, enquanto a carga administrativa evidenciou o maior crescimento ao longo dos últimos dez anos, subindo de 2,76 em 2014 para 3,24 em 2024.

Por dimensão empresarial, as peque- nas e médias empresas são as mais penalizadas, com um indicador de 3,22, acima da média global e com um agravamento de 0,07 pontos face a 2021. As grandes empresas registaram 3,13 e as microempresas 2,96. Por sectores, o maior aumento foi registado em trans portes e armazenagem, com 3,1, enquanto alojamento e restauração continuam a apresentar os níveis mais elevados de custos de contexto, fixados nos 3,27.

Perante este retrato, os números ajudam a quantificar a dificuldade, mas não explicam a totalidade das razões que mantêm as PME portuguesas presas à «armadilha da dimensão». Para compreender o que está por trás desta incapacidade estrutural de escalar – e perceber se o problema reside sobretudo no enquadramento externo, nos modelos de gestão ou na falta de visão estratégica – a Executive Digest ouviu vários líderes associativos que traçaram um diagnóstico que vai além da estatística e aponta caminhos para quebrar o ciclo de estagnação.

  1. O tecido empresarial português é composto em 99% por micro, pequenas e médias empresas. Porque é que tão poucas conseguem dar o salto para média-grande ou grande dimensão?
  2. As PME portuguesas estão preparadas, do ponto de vista da gestão, para escalar? Ou falta profissionalização e visão estratégica?
  3. Que sinais positivos vê hoje no ecossistema empresarial português que possam ajudar a quebrar esta armadilha da dimensão?

 

Fotografia: Egídio Santos

Luís Miguel Ribeiro, presidente da AEP – Associação Empresarial de Portugal

1. Falta-nos dimensão, escala, e isso limita a competitividade. As empresas pequenas têm, comprovadamente, produtividade inferior às empresas de maior escala. Se tivéssemos mais empresas grandes, conseguiríamos reter talento, pagar melhor e competir melhor.

É preciso qualificar pessoas, garantir financiamento adequado e reduzir drasticamente a burocracia, que retira tempo e cria custos enormes. Se fizermos isso, os empresários portugueses demonstrarão, como já demonstraram, que conseguem competir globalmente.

2. Diria que os gestores, ao nível das qualificações, estão preparados. Nós temos uma academia que é reconhecida e temos hoje cada vez mais profissionais mais bem qualificados para fazerem isso. Muitas vezes, a questão tem duas componentes.

Tem uma componente que era mais cultural, daquilo que era o perfil do empresário, que hoje já é diferente. E tem uma outra componente, das políticas públicas, que penalizam quando as empresas querem crescer.

As empresas que ganham mais escala pagam mais impostos, são mais penalizadas, têm mais exigências a vários níveis. Ou seja, muitas vezes as empresas não crescem não pela falta de visão ou de qualificação dos gestores, mas porque, fazendo esta análise e fazendo estas contas, se percebe que, por vezes, é preferível ficar numa escala mais baixa a crescer mais, porque isso vai trazer um acréscimo de responsabilidades, de custos e de dificuldades que as outras empresas não têm.

E, por isso, é preciso ter políticas públicas que estimulem estes ganhos de escala. Nós ainda não temos políticas públicas que claramente estimulem os ganhos de escala. Temos isso muitas vezes no discurso político, as depois, na prática, não temos.

3. Acho que podemos começar esta análise por perceber aquilo que é hoje a escolha dos eleitores e das pessoas em termos políticos. Começam a escolher partidos que têm, na sua filosofia e nos seus programas, a valorização do tecido empresarial e a valorização de melhores condições para a economia crescer. Isso é um sinal.

Depois, temos hoje empresas e empresários muito mais bem preparados e qualificados para actuarem a uma escala global, porque hoje os negócios têm de nascer para o mundo.

Temos recursos e continuaremos a tê-los. Houve o PRR e ainda haverá verbas disponíveis. Aquilo que não for executado será canalizado para o Banco de Fomento, criando uma linha de apoio às empresas, como defendemos desde o início. Embora chegue quase no fim, trata-se de um reforço de recursos para a iniciativa privada. Temos também um Portugal 2030 que, infelizmente, arrancou mal, mas que, felizmente, tem muitos recursos para alocar. O que é preciso é haver capacidade para alocar esses recursos.

Temos hoje um país mais bem preparado, claramente um país com outras condições para as empresas actuarem, para a actividade económica e para a economia se desenvolver. Acho que temos cada vez mais consciência de que primeiro é preciso criar riqueza para depois a poder distribuir.

Temos que, de uma vez por todas – e esse é o passo que é preciso dar – valorizar quem cria emprego, valorizar quem corre riscos, e não penalizar. Só assim vamos ter políticas sociais melhores, vamos poder distribuir mais, vamos poder ter melhores apoios e melhores condições para trazer muitos portugueses que emigraram e para sermos atractivos para pessoas de outros países mais qualificadas.

 

 Fotografia: Nuno Botelho
Fotografia: Nuno Botelho

Rafael Alves Rocha, director-geral da CIP – Confederação Empresarial de Portugal

1. A preponderância das micro e PME no tecido empresarial é uma realidade tanto em Portugal como na União Europeia (UE). Serão sempre um pilar fundamental da economia, desempenhando um papel crucial na criação de riqueza, na geração de emprego e na inovação. A principal diferença relativamente aos restantes países europeus está na dimensão mé dia das empresas, significativamente menor em Portugal. Temos um peso maior de microempresas na economia (Portugal é o quinto país da UE com a maior percentagem do valor acrescentado gerado por microempresas – cerca de 45%, contra 35% em média na UE) e no emprego (42,2% em Portugal contra 30,6% na UE); temos PME, em média, mais pequenas do que as europeias e, também, as (poucas) grandes empresas nacionais – pouco mais de mil – têm uma dimensão inferior. Uma grande empresa portuguesa tem, em média, 835 trabalhadores, na União Europeia tem 1.134.

Esta grande fragmentação do tecido empresarial português representa um forte handicap, sobretudo, se tivermos em conta a dimensão crítica necessária para que uma empresa possa dispor dos recursos – humanos e financeiros – indispensáveis para se internacionalizar ou para investir fortemente em inovação. A dimensão das empresas favorece ainda, por exemplo, a sua capacidade para atrair talento e permite optimizar custos operacionais.

Entre os factores que travam a capacidade de investimento das empresas portuguesas e, portanto, o seu crescimento orgânico, está a excessiva regulamentação (referida por 83% das empresas), os pesados encargos administrativos, a escassez de pessoal qualificado e a dificuldade de acesso ao financiamento para projectos de inovação e de expansão.

A elevada tributação sobre as empresas é outro dos principais factores que desencoraja o investimento. Além disso, a persistência da derrama estadual, que tributa progressivamente os lucros acima de deter minados escalões, é um claro desincentivo ao aumento de dimensão das empresas.

2. A falta de visão estratégica e de profissionalização da gestão são factores que impedem muitas empresas de escalar. Daí a importância da capacitação das empresas nas suas competências de gestão. Há aqui um círculo vicioso que é preciso quebrar: a reduzida dimensão limita o recurso a uma maior profissionalização e qualificação da gestão, o que, por sua vez, é um obstáculo ao crescimento. No entanto, acredito que há progressos neste domínio e seria injusto apontar a falta de capacidade de gestão como o principal obstáculo ao crescimento das empresas. Aliás, muitas empresas portuguesas têm vindo a percorrer, de forma consistente, um caminho de valorização da capacidade de gestão, através da crescente profissionalização da gestão, com a separação progressiva entre propriedade e gestão, do reforço do investimento na formação dos gestores e da adopção de boas práticas de governação.

3. Temos dados que nos permitem constatar melhorias no equilíbrio financeiro e no nível de autonomia financeira das empresas. Esta evolução é muito relevante, dado que muitas empresas identificam as pressões financeiras e as dificuldades de tesouraria como obstáculos ao crescimento. É um sinal claro de que as empresas estão a construir bases mais seguras para o seu crescimento. Reconhecemos também um progresso significativo na capacidade do Banco Português de Fomento para mobilizar instrumentos financeiros disponibilizados às empresas.

De referir, ainda, alguma evolução na colaboração empresarial em torno de consórcios com vista a investimentos estruturantes, nomeadamente na sequência das agendas mobilizadoras do PRR.

Seria também fundamental incentivar o aumento de dimensão das empresas através de fusões e aquisições, nomeadamente com a introdução de mecanismos mais robustos de financiamento e de incentivo fiscal à agregação de empresas. A passagem de empresas de gestão familiar para estruturas mais profissionalizadas pode facilitar a mudança numa cultura empresarial ainda muito reticente a este tipo de crescimento inorgânico.

 

Jorge Portugal, director-geral da COTEC Portugal

1. A maioria das empresas cresce segundo modelos de negócio e de organização desenhados para contextos de pequena escala, centralizados em pessoas-chave, frequentemente orientados para mercados limitados e com baixos níveis de exigência competitiva. Esses modelos permitem eficiência e, em muitos casos, rentabilidade, mas impõem limites estruturais ao crescimento.

As empresas tendem a evoluir por patamares sucessivos de crescimento – quantums – cada um deles compatível com um determinado nível de complexidade organizacional, investimento e risco. Quando o crescimento exige ultrapassar esse patamar, torna-se necessário mudar de modelo organizacional e de estratégia. Na ausência dessa transformação, o crescimento abranda ou estagna, dando origem à persistente “armadilha da dimensão”. Este bloqueio é reforçado por um enquadramento institucional e financeiro que historicamente privilegiou a sobrevivência e a estabilidade, mais do que a ambição de crescimento e escala.

2. Em muitos casos, não. O principal bloqueio à transição de escala é organizacional e estratégico, não tecnológico nem comercial. Grande parte das PME permanece excessivamente dependente dos fundadores, com estruturas de decisão pouco formalizadas e com limitada capacidade de planeamento estratégico de médio e longo prazo.

Dar o salto para um novo quantum de crescimento implica profissionalizar a gestão, reforçar a governação, desenvolver competências estratégicas e aceitar níveis mais elevados de complexidade e risco. É neste ponto que muitas empresas revelam dificuldades: conseguem ser inovadoras e competitivas num determinado patamar, mas não conseguem transformar essa vantagem num novo nível de organização que sustente mais crescimento.

A internacionalização surge, em alguns casos, como consequência natural dessa transição; noutros, não chega a materializar-se precisamente porque a empresa não consegue ultrapassar o quantum organizacional em que se encontra.

3. O ecossistema nacional apresenta hoje sinais claros de maturação que criam melhores condições para superar estes bloqueios estruturais. Observa-se o surgimento de empresas inovadoras capazes de crescer de forma mais ambiciosa, explorando novos mercados, novos modelos de negócio e novas formas de organização, incluindo – mas não exclusivamente – processos mais exigentes de internacionalização. A crescente valorização dos activos intangíveis, a melhoria gradual do capital humano, o reforço das ligações entre empresas, universidades e centros de I&D, bem como instrumentos de política pública mais orientados para o crescimento e a inovação, estão a reduzir a dependência exclusiva da pequena escala.

Neste contexto, a COTEC assume um papel estratégico enquanto intermediário qualificado, promovendo a inovação orientada para o crescimento, apoiando a evolução organizacional das empresas e criando condições para que mais PME consigam transitar entre quantums de crescimento – seja através da internacionalização, seja através de outras formas de sofisticação estratégica e competitiva – de forma sustentável.

 

José Eduardo Carvalho, presidente da AIP – Associação Industrial Portuguesa

1. Primeiro, é necessário caracterizar o contexto: existem cerca de 538 mil sociedades comerciais em Portugal, das quais aproximadamente 1.560 são grandes empresas, 8.234 médias, 48.274 pequenas e 456.106 microempresas. Isto significa que cerca de 98% são micro e pequenas empresas, que concentram aproximadamente 50% do emprego, mas geram apenas cerca de 35% do volume de negócios da economia nacional.

Esta é a razão de base do nosso défice de crescimento, da baixa produtividade, dos salários reduzidos e da fraca capacidade de inovação.

Existe uma relação positiva clara entre produtividade e dimensão: as médias e grandes empresas são significativamente mais produtivas. A incapacidade de escalar está, portanto, intrinsecamente ligada a factores que inibem o aumento da produtividade e a acumulação de capital.

Há, porém, um conjunto de factores estruturais que ajudam a explicar esta realidade. Desde logo, uma histórica subcapitalização das empresas, que limita a capacidade de investimento, inovação e internacionalização. A isto soma-se um mercado interno reduzido, que obriga a uma aposta precoce nos mercados externos – algo que exige escala, competências e re- cursos que muitas PME ainda não conseguem mobilizar. A reduzida dimensão das empresas força também a operação em nichos de baixo valor acrescentado e com fraca incorporação tecnológica.

Acresce ainda um enquadramento fiscal, administrativo e laboral que, em vários momentos do ciclo de cresci mento, acaba por penalizar o aumento de dimensão, criando desincentivos objectivos à passagem de patamar, nomeadamente através da rigidez da legislação laboral, que reduz a flexibilidade na gestão de recursos humanos.

A estes factores juntam-se ainda:

  • Cultura empresarial refractária a processos de concentração e resistente à diluição de participações sociais;
  • Ausência de uma política pública clara e consistente orientada para o redimensionamento das empresas;
  • Regulamentos dos próprios sistemas de incentivos que não promovem verdadeiramente processos de consolidação;
  • Escassez de estímulos fiscais específicos para o redimensionamento empresarial.

Enquanto a política pública não promover de forma clara e consistente a consolidação empresarial – criando condições reais para o surgimento de mais empresas médias e grandes – não será possível ambicionar um crescimento económico sustentado. Sem escala, não há ganhos relevantes de produtividade, nem capacidade de investimento estruturante, pelo que a fragmentação do tecido empresarial continuará a ser um dos principais travões ao desenvolvimento da economia nacional.

2. As médias e grandes empresas portuguesas estão, em regra, preparadas do ponto de vista da gestão para sustentar processos de crescimento, beneficiando de estruturas mais profissionalizadas e maior especialização de funções.

No universo das PME, a realidade é mais heterogénea. Muitas micro e pequenas empresas operam com modelos de gestão necessariamente mais simples e muito focados na actividade corrente, o que decorre sobretudo de limitações naturais de escala e recursos, mais do que de falta de ambição ou capacidade.

A principal diferença está precisamente na dimensão: é a escala que permite separar funções, investir em sistemas de gestão, atrair talento especializado e dedicar recursos ao desenvolvimento do negócio. Sendo poucas as empresas médias e grandes, estas práticas não se disseminam de forma transversal pelo tecido empresarial.

Assim, mais do que um tema de profissionalização isolada, trata-se de um desafio de escala: sem um maior número de empresas médias e grandes, continuará a ser difícil criar uma base alargada de organizações com capacidade consistente para crescer.

3. Apesar dos constrangimentos estruturais, existem hoje vários sinais positivos no ecossistema empresarial português que podem ajudar a ultra passar as limitações associadas à reduzida dimensão média das empresas.

Desde logo, são sobretudo as médias e grandes empresas que hoje evidenciam maior orientação para mercados internacionais, maior abertura a parcerias e a modelos de crescimento colaborativos, sendo também elas que sustentam, em grande medida, o crescimento que se verifica. É igualmente neste segmento que se observa uma evolução mais consistente na adopção de tecnologia e de soluções digitais, permitindo ganhos de eficiência, acesso a novos mercados e redução de algumas das barreiras tradicionais à escala.

Verifica-se um maior dinamismo em torno do capital de risco, dos instrumentos de financiamento e das estruturas de apoio ao crescimento. Ainda assim, no conjunto do tecido empresarial, as em presas mantêm-se em larga medida refractárias à capitalização por via da abertura do capital social e continuam pouco disponíveis para processos de fusão, aquisição ou consolidação, apesar de começar a emergir, sobretudo em empresas de base tecnológica e sectores mais expostos à concorrência externa, uma atitude gradualmente mais aberta à entrada de gestores profissionais, à internacionalização e a modelos de crescimento mais estruturados.

Em conjunto, estes sinais apontam para um ecossistema mais maduro. O redimensionamento empresarial deveria, por isso, assumir-se como uma questão fulcral da política pública, uma vez que é através da criação de escala que se melhora a produtividade, se criam condições para salários mais elevados, se incentiva a inovação e se promove um crescimento económico mais sustentado.

 

Carlos Carvalho, presidente da ANJE – Associação Nacional de Jovens Empresários

1. Portugal não tem falta de iniciativa empresarial nem de talento. O que tem é um problema persistente de escala.

Durante demasiado tempo, o nosso enquadramento económico e institucional favoreceu empresas pequenas, eficientes e resilientes, mas não criou incentivos reais para crescer. O sistema fiscal, a complexidade administrativa, a rigidez em momentos-chave do crescimento e a escassez de capital orientado para scale-ups acabam por empurrar muitas empresas para uma zona de conforto onde sobreviver é mais racional do que arriscar escalar

Na ANJE, temos defendido que esta é uma armadilha silenciosa da economia portuguesa: empresas competentes que ficam presas ao mercado interno, com ambição limitada pela percepção de risco e por um contexto que penaliza o salto de dimensão. Sem escala, não há produtividade sustentável, nem capacidade para competir globalmente.

2. Hoje coexistem duas realidades muito distintas.

Por um lado, uma nova geração de empresários mais qualificados, mais internacionais e mais conscientes da importância da estratégia, da governação e do talento. Estes empresários pensam global desde o primeiro dia e percebem que crescer implica profissionalizar a gestão, atrair competências externas e, muitas vezes, abrir o capital.

Por outro lado, subsiste ainda um tecido empresarial muito dependente do fundador, com estruturas de decisão pouco profissionalizadas e resistência à mudança. Escalar exige uma transformação cultural profunda: passar do controlo para a liderança, da gestão do dia-a-dia para a visão estratégica, do negócio local para o mercado global.

Temos de ser claros: a escala não é apenas uma questão financeira, é sobretudo uma questão de mentalidade, onde, sem visão estratégica e sem abertura à profissionalização, não há crescimento sustentável possível.

3. Vejo sinais muito encorajadores, alguns deles verdadeiramente estruturais.

Desde logo, uma mudança clara no perfil do jovem empresário português, hoje muito mais global, tecnológico e orientado para impacto e sustentabilidade. Este novo perfil já não vê fronteiras como um obstáculo, mas como parte natural do crescimento.

Vejo também um ecossistema mais maduro, com melhor articulação entre empresas, universidades, centros de investigação e inovação aplicada. Isto cria condições reais para produtos e serviços com valor acrescentado internacional.

E destaco, em particular, a aposta estratégica da ANJE na internacionalização como alavanca de escala. A joint venture que lançámos na Arábia Saudita é um bom exemplo disso. Não se trata apenas de exportar, mas de criar presença, parcerias e acesso directo a mercados exigentes e de grande dimensão. É este tipo de abordagem que permite às empresas portuguesas cresce rem fora sem perderem identidade nem controlo estratégico.

O desafio agora é claro: transformar estes sinais positivos numa verdadeira agenda nacional para a escala, onde crescer seja visto como um desígnio estratégico do país. Se o conseguirmos, Portugal pode afirmar-se não apenas como um país onde nascem boas empresas, mas como um país onde se constroem empresas globais, competitivas e sustentáveis.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.