Gérald Darmanin voltou a colocar a imigração no centro da pré-campanha presidencial francesa com uma proposta de forte impacto político: suspender a imigração legal durante três anos. A medida, avançada pelo ministro da Justiça em entrevista ao ‘Le Journal du Dimanche’ (JDD), parte da ideia de que França terá chegado ao limite da sua capacidade de integração e assimilação.
A proposta passa por uma moratória temporária à imigração legal e por duas alterações centrais: acabar com o reagrupamento familiar associado aos títulos de residência concedidos por motivos de trabalho e reformar a Constituição para permitir a introdução de quotas limitativas. Darmanin defende ainda que a questão deve ser decidida nas próximas eleições presidenciais.
Em entrevista ao ‘JDD’, o ministro francês afirmou que o país chegou ao limite da sua capacidade para “integrar e assimilar imigrantes” e que, por isso, é necessário “acabar com o modelo atual de imigração”. Darmanin também se mostrou favorável a um referendo sobre a política migratória e a uma revisão constitucional que reforce os mecanismos de controlo.
A proposta surge num tema particularmente sensível para o macronismo. A imigração tem sido um dos pontos de maior tensão dentro do campo presidencial desde a lei sobre asilo e imigração de 2018. Mais recentemente, em 2024, Darmanin, então ministro do Interior, falhou a negociação com Os Republicanos sobre uma nova lei da imigração, que pretendia acelerar afastamentos de estrangeiros em situação irregular e criar um título de residência para trabalhadores em profissões com falta de mão-de-obra.
Essa memória torna a iniciativa politicamente delicada. Para um responsável que integrou Governos quase sem interrupção desde 2017, e que esteve mais de quatro anos à frente do Ministério do Interior, a proposta pode também ser lida como uma admissão de que a estratégia seguida até agora não resolveu o problema.
Mas há também uma leitura eleitoral evidente. Ao escolher o ‘Le Journal du Dimanche’ para lançar a proposta, Darmanin fala diretamente a um eleitorado de direita particularmente sensível ao tema da imigração. A ‘FranceInfo’ sublinha que o gesto contrasta com a orientação de reserva dada ao Governo, numa fase em que o campo presidencial tenta gerir a sucessão de Emmanuel Macron e a preparação para 2027.
Darmanin assume, assim, uma posição própria num tema que deverá marcar a campanha presidencial. A proposta surge poucos dias depois de uma deslocação à Argélia e permite-lhe sinalizar firmeza numa área em que a direita e a extrema-direita têm ganho terreno no debate público francês.
O ministro da Justiça não fecha totalmente a porta a uma candidatura presidencial autónoma, embora esteja hoje numa posição difícil dentro do espaço macronista. Gabriel Attal já se movimenta politicamente, Édouard Philippe continua a ser visto como um dos candidatos mais bem colocados nas sondagens e Darmanin procura evitar ficar encostado a qualquer uma dessas figuras.
Mesmo que não avance sozinho, a iniciativa permite-lhe valorizar o seu peso político. Num cenário em que muito pode mudar até 2027, Darmanin parece querer manter-se em posição de influência: se tiver de apoiar outro candidato mais tarde, pretende que esse apoio tenha valor real na negociação interna.
A proposta também encontra eco em parte da opinião pública francesa. Um outro texto citado indica que uma sondagem da ‘CSA’, realizada no início de janeiro, apontava para cerca de 70% dos franceses favoráveis à interrupção total dos fluxos migratórios durante dois a três anos. Esse dado ajuda a explicar por que razão Darmanin escolhe agora um tema explosivo, mas eleitoralmente mobilizador.
Ao mesmo tempo, a medida abre várias perguntas práticas e jurídicas. Uma suspensão da imigração legal implicaria mexer em mecanismos administrativos, familiares, económicos e constitucionais. A França teria de definir quem ficaria abrangido, que exceções seriam admitidas, como seriam tratados os trabalhadores estrangeiros em setores com falta de mão-de-obra e até que ponto uma reforma constitucional seria viável.
A proposta de Darmanin é, por isso, mais do que uma medida migratória. É uma jogada política numa França que já entrou, informalmente, em clima de pré-campanha presidencial. A imigração volta a ser usada como linha de separação ideológica, instrumento de afirmação pessoal e teste à capacidade do macronismo para sobreviver ao fim da era Macron.










