Motores a fundo: motocross volta este fim de semana a levar aldeia da Serra da Estrela aos maiores da Europa

Em entrevista à Executive Digest, José Romeiro, presidente da ACR de Fernão Joanes, explica como uma freguesia do interior consolidou uma etapa do Campeonato Europeu de Motocross, mobiliza mais de 150 pessoas e quer transformar a Guarda numa referência internacional do motociclismo off-road.

Francisco Laranjeira

Fernão Joanes volta a ouvir os motores este fim de semana, no Crossódromo Internacional das Lajes, na Guarda, que vai receber mais uma etapa do Campeonato Europeu de Motocross, numa prova que deverá juntar cerca de 120 pilotos nacionais e internacionais, aproximadamente 3.000 visitantes e mais de 150 pessoas envolvidas na organização.

A competição, integrada no calendário da FIM Europe, volta a colocar a Serra da Estrela no mapa europeu da modalidade, com corridas nas categorias EMX65, EMX85 e, pela primeira vez em Portugal, EMX Open. A novidade reforça a dimensão competitiva da etapa portuguesa e confirma o crescimento de uma prova que chega à 11ª edição em Fernão Joanes.

Durante dois dias, um dos circuitos mais técnicos do país será palco de treinos livres, sessões cronometradas, mangas de qualificação e corridas oficiais. Construído em terreno natural e situado a cerca de 1.000 metros de altitude, o Crossódromo das Lajes é conhecido pelas mudanças de ritmo, exigência física e necessidade constante de adaptação dos pilotos ao terreno.

Uma prova europeia montada a partir do interior

A dimensão desportiva é apenas uma parte da história. Por trás da prova está uma operação que envolve voluntários, equipas técnicas, entidades parceiras, segurança, apoio médico, logística e a própria comunidade local. Ao longo dos últimos anos, a Associação Cultural e Recreativa de Fernão Joanes transformou uma etapa de motocross numa montra territorial para a Guarda e para a Serra da Estrela.

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Além da competição, o fim de semana terá também um lado de convívio, com iniciativas no recinto, sorteios, zonas de restauração e atividades pensadas para o público. Para quem não conseguir deslocar-se até Fernão Joanes, a prova terá ainda transmissão em direto nas plataformas digitais da organização.

Em entrevista exclusiva à ‘Executive Digest’, José Romeiro, presidente da direção da Associação Cultural e Recreativa de Fernão Joanes, fala sobre a evolução do evento, a estreia da EMX Open, o impacto económico na região e a ambição de consolidar Fernão Joanes como uma marca no motocross europeu.

“Hoje temos uma organização muito mais profissional”

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Esta é já a 11.ª edição da prova em Fernão Joanes. O que é que hoje distingue a organização deste Campeonato Europeu de Motocross face às primeiras edições?

JR – Hoje temos uma organização muito mais profissional e experiente, sem perder a paixão que marcou as primeiras edições. O evento cresceu em qualidade, notoriedade e capacidade logística, e Fernão Joanes ganhou reconhecimento no motocross europeu.

Ao longo dos anos, temos trabalhado continuamente na experiência que queremos proporcionar ao público, pilotos e equipas que nos visitam, permitindo-nos hoje receber uma prova desta dimensão com um nível elevado de preparação.

“O maior desafio é garantir padrões europeus num território do interior”

O evento envolve mais de 150 pessoas, entre voluntários, equipas operacionais e entidades parceiras. Qual é o maior desafio de montar uma prova europeia desta dimensão numa freguesia do interior?

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JR – O maior desafio de garantir uma organização com padrões europeus, num território do interior, é justamente a exigência de uma grande coordenação, muito trabalho voluntário e um forte envolvimento da comunidade e das entidades parceiras.

Apesar da reconhecida riqueza cultural e da tranquilidade que caracterizam o interior, a menor densidade populacional representa um desafio adicional na captação de público, tornando-se essencial uma estratégia consistente de atração e valorização do evento junto de audiências mais abrangentes.

A grande novidade de 2026 é a entrada da classe EMX Open. Que salto competitivo representa esta integração para a etapa portuguesa do campeonato?

JR – A entrada da classe EMX Open é um reflexo do trabalho que temos vindo a desenvolver de forma contínua, com uma organização cada vez mais rigorosa. Esse esforço foi reconhecido pela FIM Europe, que nos atribuiu a confiança para integrar esta nova categoria, elevando assim a nossa prova a um patamar superior a nível europeu.

O Crossódromo Internacional das Lajes é descrito como um circuito técnico, em terreno natural e a cerca de 1.000 metros de altitude. Que tipo de piloto favorece este traçado? Qual é a realidade dos pilotos nacionais face aos estrangeiros? Há matéria-prima para futuros campeões?

JR – É um circuito que favorece pilotos tecnicamente fortes e fisicamente preparados. Em Portugal temos jovens com muito talento, embora os pilotos estrangeiros tenham normalmente mais apoio e experiência internacional, mas, sem dúvida, há matéria-prima em Portugal para formarmos futuros campeões.

São esperados mais de 120 pilotos e cerca de 3.000 visitantes ao longo do fim de semana. Que impacto concreto é que a prova tem na economia local, da hotelaria à restauração?

JR – Uma competição deste nível tem um impacto significativo na nossa economia local, sendo que durante o fim de semana da prova é sentido um aumento da procura na restauração, em alojamento local e nos vários serviços ligados ao turismo.

Muitas equipas e visitantes acabam por permanecer mais dias na região, o que gera também um maior dinamismo económico não apenas em Fernão Joanes, mas também na Guarda e nos concelhos vizinhos da Serra da Estrela.

Pode dizer-se que o motocross já é hoje uma ferramenta de promoção turística da Guarda e da Serra da Estrela?

JR – Considero que o motocross se tornou uma forma muito eficaz de promover a região além-fronteiras. Recebemos pilotos, equipas e visitantes de vários países, muitos dos quais ficam surpreendidos com a beleza natural, a hospitalidade e as condições que encontram aqui.

A prova acaba por funcionar como uma “montra” da Guarda e da Serra da Estrela, mostrando que o interior também tem capacidade para organizar eventos internacionais de grande qualidade.

Atualmente, quem acompanha provas europeias de motocross já associa Fernão Joanes e a Guarda a uma etapa de referência, e isso tem um valor promocional muito importante para o nosso território.

Ao fim de 11 edições, Fernão Joanes já deixou de ser apenas o local da prova para passar a ser uma marca no motocross europeu?

JR – Acredito que sim. Fernão Joanes conquistou uma identidade própria dentro do motocross europeu. Quando pilotos e equipas falam desta etapa, já não falam apenas de uma localização geográfica, falam de um circuito exigente, de uma excelente organização e de um ambiente muito especial.

Isso é fruto de muitos anos de trabalho, dedicação e consistência. Conseguimos criar uma marca associada à qualidade, à paixão pelo motocross e à capacidade de receber bem quem nos visita. É algo que nos deixa muito orgulhosos enquanto associação e enquanto comunidade.

Da prova ao território: a ambição de fazer da Guarda uma referência off-road

Quando olha para o futuro, qual é a ambição: consolidar esta etapa no calendário europeu ou transformar a Guarda numa referência internacional do motociclismo off-road?

JR – No fundo, acredito que a nossa ambição passa pelas duas vertentes: consolidar a prova no calendário europeu e transformar a Guarda numa referência internacional no motociclismo, aproveitando as condições naturais excecionais, o voluntariado único que nos aproxima enquanto comunidade e a elevada qualidade do trabalho que temos vindo a desenvolver.

Estas duas vertentes complementam-se para colocarmos Fernão Joanes definitivamente como uma referência internacional do motociclismo.

Fernão Joanes quer deixar de ser apenas uma etapa no calendário europeu

Este fim de semana, os motores voltam a rugir na Serra da Estrela, mas a ambição já vai além da bandeira de xadrez. Em Fernão Joanes, o motocross tornou-se uma forma de afirmação territorial: atrai pilotos, equipas e visitantes, mobiliza a comunidade e dá à Guarda uma presença regular no mapa europeu da modalidade.

Ao fim de 11 edições, o desafio já não é apenas organizar mais uma prova. É transformar a consistência em legado. Se a pista das Lajes continuar a crescer como marca, Fernão Joanes poderá deixar de ser apenas o lugar onde o Europeu passa uma vez por ano para se afirmar como um dos nomes que o motocross europeu reconhece quando olha para Portugal.

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