Há empresas que crescem para fora sem nunca esquecerem o ponto de partida e as suas raízes. No Grupo Nabeiro Delta-Cafés, o coração continua em Campo Maior e é precisamente a partir daqui que se desenha a próxima grande ambição da empresa fundada por Rui Nabeiro, em 1961: entrar no Top 10 mundial das marcas de café.
Depois de, em apenas dois anos, ter subido da 22.ª para a 20.ª posição do ranking global, o grupo reforça agora esse objectivo com aquele que descreve como o maior investimento da sua história industrial – mais de 20 milhões de euros aplicados na modernização e expansão da unidade da Novadelta, em Campo Maior.
O anúncio foi feito na presença do primeiro-ministro, Luís Montenegro, num evento que teve lugar no auditório do Centro de Ciência do Café, e que serviu não só para inaugurar uma nova fase industrial, como para reafirmar uma convicção antiga: é possível construir uma empresa global a partir do interior de Portugal.
«Queremos estar no Top 10 mundial das marcas de café. Temos um horizonte de 15 anos para o fazer e temos um plano concreto para lá chegar, a partir daqui, de Campo Maior», afirmou Rui Miguel Nabeiro, CEO do Grupo Nabeiro.
Mais do que um investimento em capacidade produtiva, a Delta apresenta esta nova fase como uma decisão estratégica: continuar a crescer em Portugal, a partir do Alentejo, sem abdicar da escala internacional e sem perder a identidade e os valores da fundação da marca.
O legado do comendador: crescer com as pessoas
Falar da Delta continua a ser, inevitavelmente, falar do Comendador Rui Nabeiro. O fundador permanece como a principal referência estratégica e cultural de um Grupo que faz da proximidade uma forma de gestão e não apenas um valor institucional.
João Manuel Nabeiro, chairman do Grupo Nabeiro Delta-Cafés, sublinhou isso mesmo ao recordar o pai e a filosofia que moldou a empresa desde a origem.
«É possível construir uma grande empresa sem nunca perder a proximidade às pessoas.» Essa convicção tem um nome: Rui Nabeiro, um legado que continua bem vivo em tudo aquilo que a empresa continua a fazer.
Esse legado vive, partilhou, «na forma como cuidamos dos nossos colaboradores», na relação de confiança com clientes e parceiros, e sobretudo na ligação inseparável a Campo Maior. Além disso, o seu pai mostrou que era possível competir com as grandes empresas e comprovou, acima de tudo, que «a proximidade é mais do que uma forma de estar; é uma forma de liderança».
Para João Manuel Nabeiro, compromisso nunca foi apenas um “slogan”. Foi sempre «um modo de vida». E é precisamente esse compromisso que justifica a decisão de manter o centro da operação no interior, mesmo quando a internacionalização acelera. «Campo Maior não é apenas um lugar onde tudo começou. Campo Maior é o coração, é a nossa raiz, a nossa identidade, a nossa casa.»
A mesma ideia foi reforçada pelo presidente da Câmara de Campo Maior, Luís Rosinha, que descreveu o Grupo Nabeiro como «mais do que um grupo empresarial, um verdadeiro projecto de país», destacando o papel do Comendador como exemplo de humanismo, responsabilidade social e desenvolvimento comunitário.
Inovação, escala e competir com os melhores
A ambição internacional exige músculo industrial, e foi precisamente isso que a Delta decidiu reforçar. O investimento superior a 20 milhões de euros permitiu modernizar profundamente a Novadelta, com um novo armazém de café verde, novos silos de armazenamento de café, um novo torrador de grande capacidade, novos moinhos industriais, assim como novas linhas de embalamento de café e produção de cápsulas. Além disso, o capital foi também aplicado num novo parque fotovoltaico e na integração de sistemas avançados de automação e digitalização, com recurso a inteligência artificial e gestão de produção, para reforço da produção de energia renovável.
O resultado responde aos objectivos: a capacidade produtiva duplicou e a fábrica Novadelta consolida-se como a maior torrefactora da Península Ibérica. «Passámos de uma capacidade de produção de 100 toneladas por dia para 200 toneladas diárias», explicou Rui Miguel Nabeiro. O CEO fez questão de sublinhar que não se trata apenas de dizer que se pretende produzir mais. «Não basta dizer que temos uma ambição de crescimento e depois não termos capacidade para o fazer. O futuro constrói-se com empresas que não esperam; constrói-se com empresas que fazem», complementou.
A flexibilidade industrial tornou-se, assim, um ponto central, sobretudo para responder a novos mercados e geografias. Espanha mantém-se como o principal mercado internacional do Grupo Nabeiro, com Angola e Suíça entre as geografias estratégicas mais relevantes para o crescimento externo da empresa. «Estamos presentes em mais de 50 países, oito dos quais com operações directas. As exportações representam já 35% do nosso volume de negócios», destacou o responsável.
Ainda assim, Rui Miguel Nabeiro insiste : «A Delta não compete nunca por ser a mais barata. Compete por trazer inovação e sobretudo valor acrescentado aos seus clientes e consumidores». Essa lógica traduziu-se também numa cultura interna estruturada. O grupo desenvolveu o MIND – o Modelo de Inovação da Delta – para a viabilização de inovação transversal e criou a Delta Ventures, que aproxima a empresa de startups e projectos externos que trazem novas perspectivas, novas tecnologias e novos modelos de negócio. «Na Delta, a inovação não é um departamento, é uma cultura», resumiu o CEO.
Aposta no interior, com apoio do estado
Se o Grupo Nabeiro Delta-Cafés escolheu continuar a investir em Campo Maior, essa é uma escolha que fazem com convicção, mas deixam um recado ao poder político. Segundo Rui Miguel Nabeiro, para chegarem ao Top 10 mundial será preciso continuar a investir muito e durante muitos anos. E esse investimento exige confiança. «O que esperamos do país é previsibilidade, estabilidade, simplificação e foco na competitividade», proferiu.
O CEO defendeu estabilidade fiscal e regulatória, menos burocracia e políticas orientadas para empresas que exportam, investem e criam emprego qualificado.
«Não deve ser entendido como um favor às empresas, mas sim como uma estratégia de desenvolvimento do país.»
A empresa, que começou com uma bola de torra de 30 quilos e apenas duas pessoas, facturou, em 2025, mais de 650 milhões de euros, e emprega hoje mais de quatro mil colaboradores em várias geografias, sendo que Campo Maior, só por si, garante directamente mais de 1.400 postos de trabalho, mantendo no interior do país o coração da sua operação global.
Nesse tema, também o presidente da Câmara de Campo Maior, Luís Rosinha, deixou o apelo ao Governo. «O interior de Portugal precisa de mais investimento, público e privado. Precisa de políticas consistentes que promovam a fixação de pessoas, que incentivem a criação de emprego e que garantam igualdade de oportunidades, independentemente do código postal», destacou.
Para o mesmo responsável, investir no interior não é apenas justiça territorial, é uma decisão estratégica nacional, elevando, nesse sentido, o trabalho feito da família Nabeiro: «Ao longo de décadas, o Grupo demonstrou que é possível criar riqueza, gerar emprego qualificado e afirmar uma marca portuguesa além- -fronteiras, sem nunca, mas mesmo nunca, abandonar o território que lhe deu origem», afirmou, acrescentando que o apoio do Grupo Nabeiro não se limitou à actividade da fábrica, sendo igualmente um investimento social, humano e, sobretudo, comunitário.
Promessas do governo em campo maior
A presença de Luís Montenegro na Novadelta deu ao momento um peso político evidente. O primeiro-ministro não se limitou a elogiar o investimento e usou-o como exemplo daquilo que considera ser a estratégia certa para o país. «Daqui sai um exemplo. Daqui sai uma inspiração», enalteceu.
Para o chefe do Governo, a história da marca Delta prova que é possível construir uma grande empresa fora dos grandes centros urbanos e transformar essa decisão numa política real de coesão territorial.
Luís Montenegro destacou o modelo de empresa construído por Rui Nabeiro – e assente em proximidade com colaboradores, território e comunidade – e alinhou-se com o discurso da família Nabeiro sobre fiscalidade e simplificação administrativa. «Quando se criam condições para as empresas serem mais rentáveis, mais produtivas e mais competitivas, não estamos a fazer nenhum favor aos empresários. Estamos a construir uma política social de desenvolvimento.»
O primeiro-ministro reforçou, ainda, o compromisso com infra-estruturas e acessibilidades, defendendo que todas as capitais de distrito devem estar, em breve, ligadas por auto-estrada, precisamente para reduzir assimetrias e tornar o interior mais competitivo. Além disso, defendeu a redução do IRC e outros incentivos fiscais para apoiar inovação, valorização salarial e crescimento empresarial para evitar desigualdades territoriais cada vez mais profundas.
Centro de ciência do café
No coração da operação da Novadelta existe um espaço que ajuda a explicar porque é que Campo Maior é mais do que uma localização industrial para o Grupo Nabeiro: o Centro de Ciência do Café.
Instalado junto à fábrica e integrado no universo da Delta, o Centro Ciência do Café funciona como espaço de conhecimento, experiência e memória em torno do café, desde a planta até à bebida servida na chávena – que, aliás, é tida como a segunda bebida mais consumida no mundo a seguir à água.
Mais do que um espaço de exposição, o Centro simboliza a forma como a Delta olha para o negócio: com dimensão industrial, mas também com pedagogia, cultura e legado. A visita é uma experiência sensorial e interactiva que acompanha todo o percurso do café, e onde os visitantes podem conhecer a lenda de Kaldi – o pastor etíope associado à descoberta do café –, assim como explorar a história da bebida ao longo dos séculos, visitar uma estufa tropical com cafeeiros arábica e robusta e descobrir antigas máquinas, torradores e moinhos históricos. Existem, ainda, experiências imersivas, como a “bola de torra virtual”, que simula o processo de torrefacção, além de espaços dedicados a curiosidades, benefícios do café e provas orientadas com baristas.
É neste espaço que se cruza o passado e o futuro, a história de Rui Nabeiro e a ambição de Rui Miguel Nabeiro. O mesmo café, a mesma origem, uma escala cada vez maior, do interior de Portugal para o mundo.
Este artigo faz parte da edição de Maio (n.º 242) da Executive Digest.



