Guerra sombra no Médio Oriente: Israel usou território iraquiano para atacar o Irão, revela investigação

Israel terá operado durante mais de um ano duas bases militares clandestinas no deserto ocidental do Iraque para apoiar ataques aéreos e operações especiais contra o Irão, numa das mais sensíveis e controversas operações militares encobertas da região nos últimos anos.

Pedro Zagacho Gonçalves

Israel terá operado durante mais de um ano duas bases militares clandestinas no deserto ocidental do Iraque para apoiar ataques aéreos e operações especiais contra o Irão, numa das mais sensíveis e controversas operações militares encobertas da região nos últimos anos. A revelação, avançada pelo jornal espanhol El Español com base em informações divulgadas pelo The New York Times e pelo The Wall Street Journal, expõe alegadas operações israelitas em território iraquiano sem reconhecimento oficial de Bagdade e num contexto de crescente escalada regional no Médio Oriente.

A existência das bases terá permanecido em segredo durante meses, apoiada pela fragilidade do controlo estatal iraquiano naquela região desértica e pela alegada colaboração operacional dos Estados Unidos. Segundo as informações divulgadas, as instalações foram construídas na zona de al-Nukhaib, no oeste iraquiano, uma área praticamente desabitada, próxima da fronteira com a Arábia Saudita, considerada estrategicamente ideal para reduzir a distância entre Israel e alvos iranianos.

O caso ganhou nova dimensão após a morte de um pastor beduíno iraquiano, Awad al-Shammari, de 29 anos, que terá descoberto acidentalmente uma das instalações militares clandestinas. De acordo com testemunhos citados pelo The New York Times, o homem terá sido perseguido por um helicóptero e morto a tiro no deserto depois de alertar familiares e autoridades locais para a presença de “soldados, helicópteros e tendas em redor de uma pista de aterragem”. O corpo e a viatura carbonizada foram encontrados dois dias depois pela família.

A descoberta da base terá desencadeado um confronto armado no dia seguinte, quando uma coluna militar iraquiana composta por veículos Humvee se aproximou da área para investigar. Segundo as informações divulgadas, as forças presentes na base responderam com fogo aéreo, provocando a morte de um soldado iraquiano e ferimentos em outros dois militares.

As revelações indicam que a primeira base israelita começou a operar de forma intermitente em junho de 2025, durante o conflito de doze dias entre Israel e o Irão que antecedeu a atual guerra regional. Fontes regionais citadas pelo The New York Times garantem que Israel começou a reconhecer e preparar o terreno no final de 2024, o que significaria que forças israelitas permaneceram durante mais de um ano em território iraquiano sem conhecimento público do Governo de Bagdade.

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O deserto de al-Nukhaib como ponto estratégico
A escolha do deserto ocidental iraquiano não terá sido casual. A região é uma das áreas menos povoadas do Médio Oriente, com reduzida presença estatal, vastas extensões desérticas e poucos núcleos populacionais dispersos. Michael Knights, diretor de investigação da Horizon Engage, explicou ao The Wall Street Journal que “é normal reconhecer o terreno antes das operações e estabelecer este tipo de localizações”, lembrando que aquela zona já tinha sido utilizada pelas forças especiais norte-americanas nas guerras contra Saddam Hussein em 1991 e 2003.

A localização permitia aos caças israelitas F-15 e F-35 reduzir significativamente o trajeto até ao território iraniano. Nas bases teriam sido instaladas equipas de busca e salvamento para recuperar pilotos abatidos, forças especiais treinadas para operações de comando, capacidade médica de emergência e infraestruturas de reabastecimento.

Análises de inteligência de fontes abertas (OSINT) através de imagens de satélite terão identificado uma pista improvisada com cerca de 1,6 quilómetros construída sobre um lago seco, a aproximadamente 180 quilómetros a sudoeste de Karbala. A agência AFP confirmou ainda a presença de helicópteros CH-47 Chinook na região, alegadamente a operar “em coordenação com os Estados Unidos”.

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Segundo as informações avançadas, a manutenção do segredo operacional terá sido facilitada pelo facto de Washington ter pressionado Bagdade a desligar os radares iraquianos durante os conflitos regionais de 2025 e 2026, sob o argumento de proteger aeronaves norte-americanas. Sem capacidade autónoma de vigilância aérea, o Iraque passou a depender do CENTCOM — o Comando Central dos Estados Unidos — para monitorizar atividade hostil no seu próprio espaço aéreo.

Fontes citadas pelo The New York Times admitem duas hipóteses: ou os Estados Unidos ocultaram deliberadamente a presença israelita às autoridades iraquianas, ou informaram apenas a cúpula militar do país. Outra possibilidade levantada é que os responsáveis iraquianos tenham assumido que as instalações eram norte-americanas.

Bagdade evita reconhecer presença israelita
A alegada presença militar israelita em território iraquiano criou um profundo embaraço político em Bagdade. O deputado iraquiano Waad al-Kadu denunciou aquilo que classificou como “um desprezo flagrante pela soberania iraquiana”, após uma sessão parlamentar confidencial sobre o caso.

Apesar disso, o Governo iraquiano continua sem reconhecer oficialmente a existência das bases. O porta-voz de segurança do Iraque, Saad Maan, declarou ao The New York Times que o país “não tem qualquer informação sobre a localização de bases militares israelitas”.

A posição das autoridades iraquianas reflete um equilíbrio delicado entre os seus principais aliados e adversários regionais. Os Estados Unidos continuam a ser o principal parceiro militar de Bagdade, enquanto as Forças de Mobilização Popular — milícias xiitas pró-iranianas com forte influência institucional — controlam vastas áreas do país e têm atacado interesses norte-americanos durante o conflito regional.

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Reconhecer oficialmente operações israelitas no Iraque representaria uma humilhação política para Bagdade; negá-las, por outro lado, expõe as fragilidades do controlo estatal sobre o território nacional.

Uma nova arquitetura militar regional
As revelações surgem num momento em que Israel aprofunda a sua integração estratégica com vários países árabes alinhados com os Acordos de Abraão. A existência das bases no Iraque junta-se ao destacamento do sistema antimíssil Cúpula de Ferro nos Emirados Árabes Unidos e aos alegados ataques dos Emirados contra refinarias iranianas em abril, desenhando uma nova arquitetura de segurança regional liderada por Telavive.

O cenário levanta também dúvidas sobre uma eventual cooperação futura entre Israel, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita em operações militares e partilha de infraestruturas estratégicas na região.

A doutrina israelita após 7 de outubro
A construção das bases clandestinas encaixa igualmente na estratégia militar israelita desenvolvida após os ataques do Hamas de 7 de outubro de 2023. Desde então, Israel intensificou operações encobertas em vários países do Médio Oriente, incluindo ações atribuídas aos serviços secretos israelitas no Líbano, Síria e Irão.

Entre os episódios mais mediáticos apontados no texto estão as explosões de dispositivos eletrónicos ligados ao Hezbollah em 2024, a morte do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, em Beirute, e o assassinato do dirigente político do Hamas, Ismail Haniyeh, em Teerão.

Segundo as informações divulgadas, a guerra de junho de 2025 contra o Irão terá sido parcialmente preparada a partir da primeira base instalada em território iraquiano. Já a atual ofensiva regional, iniciada a 28 de fevereiro, começou com um ataque que alegadamente matou o ayatollah Ali Khamenei e elementos da sua cúpula em Teerão.

O primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu terá informado previamente o então presidente norte-americano Donald Trump de que existia uma “oportunidade irrepetível”, segundo o portal Axios.

Entretanto, a base de al-Nukhaib terá sido desativada, enquanto o estado operacional da segunda instalação permanece desconhecido. Ainda assim, as revelações reforçam a perceção de que Israel desenvolveu uma capacidade operacional sem precedentes para atuar militarmente em território estrangeiro, incluindo em países com os quais não mantém relações diplomáticas formais.

A família de Awad al-Shammari continua a exigir uma investigação sobre a morte do pastor beduíno. “Queremos que os seus direitos sejam respeitados”, afirmou um primo da vítima ao The New York Times. Até ao momento, não existe qualquer confirmação oficial de abertura de um inquérito.

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