Alguém sabia antes de Trump falar? EUA investigam negócios milionários no mercado do petróleo

Em causa estão cerca de 690 milhões de euros em contratos futuros de petróleo, negociados pouco antes da publicação feita por Trump a 23 de março em que adiou ataques contra infraestruturas energéticas do Irão

Francisco Laranjeira

O regulador americano dos mercados de futuros está a investigar um aumento repentino no volume de negociações de petróleo momentos antes de Donald Trump anunciar, nas redes sociais, que iria adiar ataques contra infraestruturas energéticas do Irão. A investigação, noticiada pelo’The Wall Street Journal’, procura perceber se alguém com conhecimento antecipado da decisão presidencial usou essa informação para lucrar no mercado.

Em causa estão mais de 800 milhões de dólares em contratos futuros de petróleo, cerca de 690 milhões de euros, negociados pouco antes da publicação feita por Trump a 23 de março. A Commodity Futures Trading Commission, conhecida pela sigla CFTC, está a tentar determinar se houve utilização indevida de informação privilegiada ou se essa informação foi transmitida a terceiros.

A decisão de Trump provocou uma forte reação no mercado petrolífero. Depois de o presidente americano ter adiado os ataques à infraestrutura energética iraniana, os preços do petróleo chegaram a cair até 13%, criando ganhos significativos para operadores que tinham apostado corretamente nesse movimento.

Segundo as fontes citadas pelo ‘The Wall Street Journal’, pelo menos cinco empresas terão conseguido lucros de cinco milhões de dólares, cerca de 4,3 milhões de euros, ou mais com estas operações. Entre os exemplos referidos estão a Qube Research & Technologies, empresa de investimento sediada em Londres, que terá obtido lucros ajustados de cerca de cinco milhões de dólares, e o Forza Fund, que terá lucrado aproximadamente 10 milhões de dólares, cerca de 8,6 milhões de euros.

As empresas mencionadas não foram acusadas de qualquer irregularidade. O motivo do interesse específico da CFTC nessas operações também não é claro, sublinha o site espanhol ’20 Minutos’, uma vez que movimentos bruscos nos mercados podem resultar de vários fatores, incluindo leitura rápida de notícias, modelos algorítmicos ou simples capacidade de antecipação.

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O caso levanta, ainda assim, uma questão sensível: até que ponto os mercados reagiram a sinais públicos disponíveis ou a informação que ainda não era conhecida pela generalidade dos investidores. Algumas empresas contactadas pelo regulador terão atribuído as suas decisões a uma manchete publicada cerca de 15 minutos antes da mensagem de Trump.

A investigação deverá também analisar o papel dos algoritmos nas negociações. Em mercados de alta velocidade, sistemas automáticos conseguem interpretar manchetes, volumes de transação e sinais políticos em segundos, tornando mais difícil distinguir entre uma aposta legítima, uma leitura eficiente do mercado ou uma eventual vantagem obtida através de informação privilegiada.

A linha entre sorte, sofisticação tecnológica e abuso de informação pode, por isso, ser difícil de traçar. Mas o valor das operações, o momento em que ocorreram e o impacto imediato da decisão de Trump nos preços do petróleo foram suficientes para levar o regulador americano a abrir averiguações.

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