Israel e Estados Unidos terão avaliado a possibilidade de libertar Mahmoud Ahmadinejad da prisão domiciliária e transformá-lo numa figura de transição para uma eventual mudança de regime no Irão, segundo uma investigação do ‘The New York Times’ . O plano, que envolvia ataques à liderança política e militar iraniana, campanhas de influência e mobilização de forças internas, terá falhado logo na fase inicial.
O episódio começou com informações contraditórias sobre um ataque à casa do antigo presidente iraniano. A primeira versão, divulgada por meios iranianos, indicava que Ahmadinejad tinha sido morto. Mais tarde, a notícia foi corrigida: o ex-chefe de Estado estava vivo, e as vítimas seriam os seus alegados guarda-costas. Mas, de acordo com a investigação citada pelo ‘El Confidencial’, esses homens não seriam guarda-costas, mas membros da Guarda Revolucionária encarregados de o vigiar e manter em prisão domiciliária.
A operação não teria como objetivo matar Ahmadinejad, mas sim libertá-lo. A escolha do antigo presidente iraniano pode parecer paradoxal: durante os seus mandatos, entre 2005 e 2013, foi uma das figuras mais hostis a Israel e aos Estados Unidos, com discursos marcados por ataques ao Governo israelita, negação do Holocausto e acusações conspirativas contra Washington sobre os atentados de 11 de setembro de 2001.
Ainda assim, segundo o plano descrito, Ahmadinejad tinha um perfil útil para quem procurava uma figura alternativa dentro do próprio sistema iraniano. Continuava a ser conhecido no país, falava a linguagem política da República Islâmica e, ao mesmo tempo, estava afastado da atual direção do regime. Depois de deixar o poder, tentou candidatar-se novamente às presidenciais em 2017, 2021 e 2024, mas o Conselho dos Guardiões bloqueou as suas candidaturas.
Nos últimos anos, o antigo presidente passou também a acusar altos responsáveis iranianos de corrupção, má gestão e abuso de poder. Em paralelo, deu sinais de maior abertura ao exterior. Em 2019, numa entrevista ao ‘The New York Times’, elogiou Donald Trump e defendeu uma aproximação entre Irão e Estados Unidos, descrevendo o então presidente americano como um “homem de ação” capaz de calcular custos e benefícios.
Assim, a “Delcy persa” remete para Delcy Rodríguez, figura do poder venezuelano que acabou por se tornar interlocutora de Washington num momento de transição política na Venezuela. A comparação serve para sublinhar a lógica improvável do plano: encontrar dentro do próprio regime iraniano uma figura conhecida, hostil ao Ocidente no passado, mas potencialmente útil para conduzir uma transição.
A estratégia atribuída aos responsáveis israelitas previa várias fases. Primeiro, ataques aéreos de Israel e dos Estados Unidos contra a cúpula política e militar iraniana. Depois, a mobilização de forças curdas contra unidades iranianas. Em paralelo, campanhas de influência procurariam espalhar a perceção de que o regime tinha perdido o controlo do país. A fase final passaria pela criação de um “Governo alternativo”, no qual Ahmadinejad poderia surgir como rosto reconhecível para parte da população.
Mas a operação terá falhado desde o início. O ataque destinado a libertar Ahmadinejad deixou-o ferido e, segundo uma fonte próxima citada na investigação, destruiu a confiança que ainda pudesse ter na iniciativa. Desde então, o antigo presidente não voltou a aparecer em público e o seu paradeiro é desconhecido.
O restante plano também não produziu o efeito esperado. Os ataques iniciais terão eliminado parte relevante da liderança iraniana, incluindo o líder supremo, Ali Khamenei, mas não provocaram o colapso do sistema. Além disso, vários dos potenciais interlocutores identificados por Washington para uma transição terão morrido nos bombardeamentos.
A mobilização curda e as campanhas de influência também não conseguiram gerar a pressão interna prevista. Perante esses fracassos, a Casa Branca terá abandonado rapidamente a ideia de mudança de regime, apesar de Trump ter iniciado a guerra com um apelo direto aos iranianos para que tomassem o controlo do Governo.
O caso expõe o grau de incerteza das estratégias externas para influenciar a política iraniana. Ahmadinejad, antigo símbolo da linha dura contra o Ocidente, terá sido visto como uma peça improvável para uma transição precisamente por combinar notoriedade interna, conflito com a atual liderança e eventual disposição para negociar com Washington. A aposta, porém, não terá resistido ao primeiro choque com a realidade militar e política no terreno.













