Os trabalhadores da Lusa cumprem esta quarta-feira uma greve de 24 horas e concentram-se em frente à Assembleia da República, num protesto que coincide com a discussão parlamentar sobre o futuro da agência noticiosa portuguesa.
A paralisação foi aprovada esta terça-feira em plenário por uma “larga maioria” dos trabalhadores, segundo uma resolução interna divulgada antes da greve. Tal como aconteceu em anteriores protestos na Lusa, é expectável que a produção noticiosa sofra fortes perturbações ao longo do dia, podendo mesmo ocorrer interrupções totais na emissão de notícias.
No centro das preocupações dos trabalhadores estão os novos estatutos da agência, que consideram representar uma ameaça à independência editorial da Lusa.
Na resolução aprovada em plenário, os profissionais acusam as alterações propostas de agravarem “os riscos de influência política e de governamentalização”, considerando ainda que essas mudanças “contrariam a proteção de independência que a Constituição portuguesa confere aos jornalistas”.
Os trabalhadores receiam que a evolução do modelo da agência possa comprometer a autonomia editorial e institucional da principal agência noticiosa nacional.
Outro dos pontos contestados prende-se com a possibilidade de transferência das instalações da Lusa para o campus onde funciona a RTP, em Lisboa.
Segundo os trabalhadores, essa mudança poderá “diminuir a independência funcional da agência” e abrir caminho, “a prazo, ao seu desmantelamento”.
A hipótese de concentração física com a RTP tem sido encarada com preocupação por parte de estruturas representativas dos trabalhadores, que receiam uma perda gradual de autonomia operacional.
Críticas ao plano estratégico e às condições laborais
A resolução aprovada no plenário critica ainda a ausência de informação sobre o plano estratégico e de investimento da empresa, que, segundo os trabalhadores, “continua a ser um segredo”.
Além disso, os profissionais da agência consideram que os salários “continuam a ser insuficientes para garantir a dignidade laboral e financeira dos trabalhadores”.
Os participantes no plenário lamentaram igualmente que a administração da Lusa não tenha dado resposta, até ao momento, ao caderno reivindicativo entregue em 15 de janeiro de 2025.
Entre as críticas surge também a falta de esclarecimentos sobre o plano de rescisões e a ausência de uma estratégia clara para reforço de pessoal, numa altura em que, afirmam os trabalhadores, persistem situações de precariedade laboral dentro da agência.
Episódios com assessor ministerial agravaram tensão
O clima de tensão intensificou-se nos últimos dias após um incidente envolvendo um assessor do ministro da Presidência, António Leitão Amaro.
Na semana passada, representantes da Comissão de Trabalhadores da Lusa e de três sindicatos acusaram Miguel Ferreira da Silva, assessor do governante, de ter adotado “comportamentos insultuosos e intimidatórios” no final de uma reunião formal.
Segundo os trabalhadores, o assessor acabou por se retratar junto do gabinete ministerial, mas a Comissão de Trabalhadores insistiu na necessidade de um pedido de desculpas formal.
Na resolução aprovada esta terça-feira, os trabalhadores consideram que episódios desta natureza representam “um sinal preocupante de tentativas de intromissão no trabalho editorial da agência, cuja independência urge preservar”.
Debate sobre o futuro da agência coincide com paralisação
A greve desta quarta-feira coincide com um momento considerado decisivo para o futuro da Lusa, numa altura em que o tema está em discussão na Assembleia da República.
Os trabalhadores pretendem aproveitar o debate parlamentar para chamar a atenção para aquilo que consideram ser riscos crescentes para a independência editorial, condições de trabalho e futuro estrutural da agência noticiosa portuguesa.
A paralisação deverá afetar o funcionamento regular dos serviços da Lusa durante todo o dia, incluindo a produção e distribuição de conteúdos para órgãos de comunicação social nacionais e internacionais.








