A declaração de emergência de saúde pública internacional pela Organização Mundial da Saúde (OMS) devido ao novo surto de Ébola na República Democrática do Congo colocou os países europeus em estado de vigilância reforçada. Em Portugal, as autoridades de saúde estão a atualizar protocolos e mecanismos de resposta, enquanto especialistas alertam que, embora o risco seja reduzido, a possibilidade de surgirem casos importados através de viagens internacionais “não é inexistente”.
Em entrevista exclusiva à Executive Digest, Joana Moreno, médica especialista em Saúde Pública e secretária-geral da direção da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública (ANMSP), explicou que a principal preocupação passa pela circulação internacional de pessoas entre países afetados e regiões sem transmissão ativa da doença.
“Relativamente ao risco para a expansão desta doença ou à chegada de casos à Europa, nós não podemos dizer que este risco é inexistente”, afirmou a especialista, sublinhando que “as viagens internacionais fazem com que uma pessoa, de um momento para o outro, possa estar num país afetado e num país não afetado”.
Ainda assim, Joana Moreno considera improvável um cenário de pandemia global. Segundo explicou, “a probabilidade de se propagar a larga escala como uma pandemia é pouco provável, por causa das características da doença”, embora admita que “é sempre possível que um caso seja importado e que venha para a Europa por causa das viagens internacionais de hoje em dia”.
Como se transmite o vírus do Ébola?
A especialista esclareceu que o Ébola não se transmite por via aérea, ao contrário do que acontece com doenças respiratórias altamente contagiosas. “Este é um vírus que se passa pessoa a pessoa, mas não é por via aérea, é por contacto com fluidos da pessoa, como sangue, saliva ou outros materiais contaminados”, explicou.
De acordo com Joana Moreno, o contacto direto com fluidos corporais de pessoas infetadas continua a ser o principal mecanismo de transmissão, o que faz com que as medidas de proteção de barreira sejam essenciais.
“A primeira e mais básica de todas é a lavagem das mãos”, destacou, acrescentando que, perante suspeitas de infeção, “o contacto deve ser feito sempre de forma protegida”, recorrendo a equipamentos como máscara, viseira e outras barreiras utilizadas pelos profissionais de saúde.
A médica deixou ainda recomendações para viajantes que possam deslocar-se a zonas afetadas. Segundo afirmou, estas pessoas devem “manter-se afastadas dos focos conhecidos” e, sempre que possível, “adiar viagens para alturas posteriores onde o surto já esteja mais controlado”.
OMS em alerta devido a estirpe sem vacina
A decisão da OMS de declarar emergência internacional está relacionada com vários fatores que tornam o atual surto particularmente preocupante. Entre eles está o facto de a estirpe Bundibugyo, atualmente em circulação, não ter vacina disponível.
Joana Moreno explicou que “esta declaração por parte da OMS deve deixar os Estados-membros atentos a esta situação”, salientando que a ausência de vacina dificulta significativamente o controlo local da doença.
“Estamos a falar de uma estirpe do vírus que não tem vacina e, portanto, não havendo esta vacina, torna também mais difícil o controlo localmente”, afirmou.
Além disso, acrescentou que estes vírus “normalmente não têm tratamento específico”, o que limita as opções terapêuticas disponíveis para os doentes infetados.
Outro dos problemas identificados prende-se com a capacidade de diagnóstico. A especialista alertou para “alguma dificuldade na capacidade de diagnóstico com os testes que estão disponíveis atualmente”, considerando que a conjugação destes fatores ajuda a explicar o crescimento do número de casos.
“Desde sábado e domingo os números têm crescido e por isso faz sentido que haja aqui esta declaração por parte da OMS”, referiu.
Sintomas iniciais confundem-se com outras doenças
Uma das maiores dificuldades no combate ao Ébola é a identificação precoce dos casos. Segundo Joana Moreno, a doença apenas se torna transmissível quando surgem sintomas, mas esses sinais iniciais são frequentemente confundidos com outras infeções comuns.
“Quando a pessoa desenvolve sintomas é quando ela tem a capacidade de transmitir a doença a outros”, explicou, salientando que pessoas assintomáticas não transmitem o vírus.
No entanto, os primeiros sintomas podem passar despercebidos. “São sintomas muito inespecíficos, como febre, dores musculares, cansaço, dores de cabeça e, em algumas pessoas, dor de garganta”, detalhou.
Só numa fase mais avançada surgem sinais mais associados ao Ébola, como vómitos, diarreia e episódios hemorrágicos. Segundo a médica, é precisamente nessa altura que “as pessoas efetivamente suspeitam que possam estar doentes”, embora possam já ter tido contacto com outras pessoas.
Por isso, Joana Moreno insiste na importância da vigilância epidemiológica e da identificação de histórico de viagens. “Qualquer sintoma, mesmo que inespecífico, deve ser valorizado”, alertou.
A especialista recomenda ainda que pessoas regressadas de zonas afetadas não se dirijam diretamente às urgências hospitalares. “Devem sempre contactar telefonicamente e informar que estiveram nesse destino e que podem ter estado em contacto com alguém com Ébola”, frisou.
Portugal tem protocolos preparados para responder
Apesar do alerta internacional, Joana Moreno garante que Portugal dispõe atualmente de capacidade hospitalar e organizativa para responder a um eventual caso importado.
“Quando começaram a surgir os primeiros casos de Ébola, há mais de 10 anos, o país preparou-se nessa altura com planos específicos para o Ébola”, recordou.
Segundo explicou, existem hospitais de referência e protocolos previamente definidos para lidar com estas situações. “O nosso país tem capacidade e estruturas organizativas para dar resposta a estes casos no caso de surgir algum caso importado”, assegurou.
Ainda assim, admite que o principal desafio poderá ser a deteção precoce. “Como não é uma doença habitual em Portugal, pode realmente haver dificuldade em detetar precocemente estes casos”, reconheceu, acrescentando que a história clínica e epidemiológica dos doentes será determinante para um diagnóstico rápido.
A médica considera, contudo, que Portugal parte de uma posição mais favorável do que muitos países africanos afetados pelo surto. “Nós temos mais meios, mais pessoas especializadas, quer epidemiologistas quer infecciologistas, que são recursos que em Portugal existem”, afirmou.
Joana Moreno revelou ainda que já existem protocolos detalhados para vários cenários, incluindo procedimentos relacionados com funerais e gestão de cadáveres em casos de doenças altamente contagiosas.
“Muitas coisas já foram pré-determinadas nessa altura, continuam vigentes e serão novamente repescadas numa situação destas”, explicou.
DGS reforça vigilância após alerta internacional
Segundo informação avançada pela Direção-Geral da Saúde (DGS) ao Expresso, Portugal está a reforçar mecanismos de deteção precoce, capacidade laboratorial e procedimentos hospitalares após a declaração de emergência internacional pela OMS.
A DGS indicou que estão a ser atualizadas medidas de preparação e resposta em alinhamento com recomendações do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC), incluindo informação dirigida a profissionais de saúde e vigilância de viajantes oriundos de zonas afetadas.
O atual surto tem epicentro na província de Ituri, na República Democrática do Congo, e já se estendeu ao Uganda. Dados citados pela OMS e pelo ECDC apontam para centenas de casos suspeitos e dezenas de mortos.










