A Ucrânia não exclui que Vladimir Putin possa anunciar uma campanha nacional de mobilização depois das próximas eleições para a Duma, a câmara baixa do Parlamento russo, avança o ‘Kyiv Post’. O alerta surge num momento em que Moscovo enfrenta perdas elevadas no campo de batalha e dificuldades crescentes em manter o número de efetivos apenas através do recrutamento voluntário.
A possibilidade foi levantada por Pavlo Palisa, brigadeiro-general e vice-chefe do gabinete presidencial ucraniano, em entrevista ao canal ucraniano ’24 Kanal’. Questionado sobre se o Kremlin poderia avançar para uma mobilização em larga escala depois da votação, Palisa respondeu que esse cenário é possível.
“Muito possivelmente. Não excluímos esse desenvolvimento”, afirmou o responsável ucraniano.
Palisa acrescentou que Kiev já está a avaliar como deverá reagir caso Moscovo decida escalar os esforços de mobilização. “Não excluímos essa possibilidade e reagiremos em conformidade”, disse, sem detalhar eventuais medidas de resposta.
As próximas eleições legislativas russas estão previstas para setembro de 2026, num contexto em que o Kremlin procurará renovar a composição da Duma sem assumir, antes da votação, decisões potencialmente impopulares. Analistas têm apontado que novas vagas de mobilização comportam riscos políticos para o regime, sobretudo pela memória da mobilização parcial decretada em setembro de 2022, que provocou protestos e levou centenas de milhares de russos a abandonar o país.
Até agora, Moscovo tem evitado anunciar uma nova mobilização aberta, preferindo recorrer ao que responsáveis ucranianos descrevem como mecanismos de “mobilização escondida”. Segundo Kiev, autoridades regionais e municipais russas terão recebido instruções para preparar listas de “voluntários” destinados ao envio para a guerra na Ucrânia, numa altura em que os governos locais são pressionados a cumprir quotas de recrutamento.
O alerta de Palisa surge depois de Volodymyr Zelensky ter afirmado, a 28 de abril, que os serviços de informação ucranianos tinham obtido documentos internos do Estado-Maior russo que apontariam para dificuldades de Moscovo em cumprir os objetivos definidos pelo Kremlin. O presidente ucraniano disse ainda que a liderança russa continua a preparar novas operações ofensivas e a procurar mais efetivos para sustentar a guerra.
“A tarefa da Ucrânia é aumentar ainda mais as perdas russas”, afirmou Zelensky, citado pelo ‘Kyiv Post’, defendendo que a pressão militar sobre as forças russas deve aumentar para limitar a capacidade de Moscovo de lançar novas ofensivas.
Segundo o presidente ucraniano, Kiev pretende intensificar as operações com drones ao longo da linha da frente e continuar a pressionar por sanções contra os setores russos das armas e do petróleo. A estratégia passa por aumentar o custo militar e económico da guerra para o Kremlin, num momento em que a Rússia procura preservar capacidade ofensiva.
A questão da mobilização é particularmente sensível para Putin. A mobilização parcial de 2022 foi uma das medidas internas mais controversas desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro desse ano, e expôs o impacto direto da guerra sobre a sociedade russa.
Desde então, o Kremlin tem procurado compensar perdas com incentivos financeiros, recrutamento regional, contratos militares e outras formas menos visíveis de captação de efetivos. A hipótese de uma mobilização nacional, porém, significaria admitir uma necessidade mais ampla de homens para a frente de combate.
Para Kiev, o calendário eleitoral russo pode ser determinante. A leitura ucraniana é que Putin poderá evitar medidas mais impopulares antes da votação para a Duma, mas poderá ter maior margem política para agir depois das eleições, caso o esforço militar russo continue a exigir mais soldados.
O ‘Kyiv Post’ sublinha que a possibilidade não é apresentada como uma certeza, mas como um cenário que as autoridades ucranianas já estão a considerar. Num conflito que entrou no quarto ano, a mobilização russa continua a ser um dos indicadores mais relevantes para medir a capacidade de Moscovo de prolongar e intensificar a guerra.



