O Reino Unido poderá ser recebido de forma favorável caso decida regressar à União Europeia, mas dificilmente voltará a beneficiar das condições especiais que teve durante décadas enquanto Estado-membro. O aviso é deixado por antigos responsáveis europeus envolvidos nas negociações do Brexit, que consideram improvável qualquer novo acordo “à medida” para Londres, defendendo que uma eventual reintegração teria de acontecer nos mesmos moldes aplicados aos restantes países da União.
Segundo o jornal britânico The Guardian, vários veteranos das negociações do Brexit acreditam que os Estados-membros europeus manteriam uma postura “acolhedora”, mas simultaneamente “pragmática e firme”, perante uma eventual candidatura britânica. Georg Riekeles, antigo conselheiro da task force europeia para o Brexit, afirmou que existe uma necessidade estratégica de cooperação entre Bruxelas e Londres, sobretudo perante o atual contexto internacional, mas rejeitou a possibilidade de regressar ao modelo de “excecionalismo britânico” que marcou a permanência do Reino Unido no bloco europeu. “O preço da reentrada seria uma adesão em condições normais”, sustentou.
Durante os 47 anos em que integrou a União Europeia, o Reino Unido conseguiu negociar um estatuto considerado único dentro do projeto europeu, mantendo isenções em áreas centrais como a moeda única e o espaço Schengen, além de obter um mecanismo de compensação financeira nas contribuições para o orçamento comunitário. Sandro Gozi, antigo ministro dos Assuntos Europeus de Itália e atual eurodeputado, considerou que esse modelo “desapareceu” e avisou que futuras negociações teriam de abordar todas as exigências aplicadas a qualquer país candidato, incluindo a adesão ao euro e à livre circulação no espaço Schengen.
O debate sobre um eventual regresso britânico à UE ganhou novo fôlego após declarações recentes de dirigentes trabalhistas. Wes Streeting defendeu durante o fim de semana que o Reino Unido deveria voltar à União Europeia no futuro, enquanto Andy Burnham, presidente da câmara de Greater Manchester e potencial candidato à liderança trabalhista, já admitiu anteriormente desejar ver o país novamente integrado no bloco europeu ainda durante a sua vida. Ainda assim, Burnham esclareceu entretanto que não avançaria com esse objetivo a curto prazo caso chegasse ao cargo de primeiro-ministro.
Para os antigos responsáveis europeus, o contexto geopolítico atual alterou profundamente a relação entre Londres e Bruxelas. Georg Riekeles argumentou que “o mundo do Brexit desapareceu”, apontando para a pressão exercida pelo militarismo russo, pela competição económica chinesa e pela política externa dos Estados Unidos sob Donald Trump. O antigo responsável europeu defendeu que Reino Unido e União Europeia pertencem hoje ao “mesmo espaço estratégico”, mas alertou que Bruxelas só avançaria seriamente com um processo de reentrada caso existisse um consenso nacional sólido e duradouro em território britânico.
Além da possibilidade de adesão plena, responsáveis europeus admitem soluções intermédias para reforçar a cooperação entre ambas as partes. Sandro Gozi referiu, por exemplo, a hipótese de o Reino Unido se associar ao mercado único europeu ou participar num futuro conselho europeu de segurança e defesa. Ainda assim, frisou que caberá ao próprio Reino Unido decidir claramente qual o caminho que pretende seguir. Também o ministro dos Negócios Estrangeiros da Polónia, Radosław Sikorski, já tinha alertado este mês que Londres não deve esperar recuperar a antiga “adesão à la carte”, defendendo que as elites britânicas precisam de aceitar que maiores benefícios europeus implicam igualmente maior partilha de soberania.





