O ataque russo que atingiu um edifício residencial em Kiev, na quinta-feira, provocando pelo menos 24 mortos, envolveu mísseis de cruzeiro Kh-101 produzidos este ano com componentes de origem ocidental, segundo autoridades ucranianas. As informações foram divulgadas pelo responsável ucraniano para sanções, Vladyslav Vlasiuk, e confirmadas pelo Financial Times.
Fotografias dos destroços do edifício atingido sugerem que um Kh-101, considerado um dos mísseis mais avançados da Rússia, foi usado no ataque. O exame das imagens foi realizado por peritos ucranianos e independentes, incluindo especialistas consultados pelo FT.
Cada míssil continha mais de 100 componentes ocidentais
Vlasiuk explicou que todos os Kh-101 avaliados pelos especialistas ucranianos — incluindo o que atingiu o bloco de apartamentos — foram fabricados no segundo trimestre de 2026. “Cada míssil continha mais de 100 componentes de origem ocidental”, detalhou o responsável no X (antigo Twitter).
Um míssil Kh-101 idêntico, analisado após outro ataque a 20 de janeiro, apresentava chips de marcas norte-americanas como Texas Instruments, AMD e Kyocera AVX, assim como componentes alemães da Harting Technology Group e holandeses da Nexperia. Alguns itens tinham números de série de 2024 e 2025, anos posteriores à imposição de sanções, e também foram encontrados componentes chineses e taiwaneses.
O maior ataque combinado da guerra
De acordo com a Força Aérea ucraniana, 35 dos 56 mísseis disparados por Rússia durante este ataque em 24 horas foram Kh-101. Este míssil, lançado sob aeronaves, tem uma variante, o Kh-102, capaz de transportar ogivas nucleares.
O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, acrescentou que mais de 1.560 drones foram lançados contra cidades ucranianas entre quarta e quinta-feira, constituindo o maior ataque combinado de mísseis e drones desde o início da guerra.
O Ministério da Defesa da Rússia descreveu os ataques como uma “ação em massa usando armas de longo alcance de alta precisão, lançadas por terra, ar e mar”, incluindo mísseis hipersónicos Kinzhal e drones, direcionados contra infraestruturas e instalações de defesa ucranianas. Moscovo alegou que os ataques responderam a ações ucranianas e afirmou que todos os mísseis atingiram os alvos previstos, sem comentar o ataque ao prédio residencial.
Produção de mísseis e dependência tecnológica
Desde a invasão a grande escala de 2022, a Rússia aumentou significativamente a produção de mísseis Kh-101, sendo que em 2024 a produção foi oito vezes superior à pré-guerra. Apesar do aumento da capacidade, o país continua dependente de componentes ocidentais em áreas críticas como microeletrónica. Muitos desses produtos são fabricados agora na China devido a restrições de exportação dos EUA.
Fabian Hoffmann, especialista em tecnologia de mísseis na Universidade de Oslo, analisou fotografias dos destroços e confirmou que se tratava de um Kh-101, sublinhando que o padrão de danos indicava que não poderia ser um drone, mas sim um míssil de cruzeiro ou balístico.
Impacto sobre a defesa ucraniana e investigação do ataque
O Ministério da Defesa da Ucrânia afirma que cerca de 88% dos mísseis Kh-101, Kh-55 e Kh-555 lançados em 2026 foram intercetados, mas a neutralização tornou-se mais difícil devido a melhorias tecnológicas russas, incluindo a integração de uma segunda ogiva, munições em cluster com elementos de zircónio, sistemas de navegação aprimorados e proteção contra interferências eletrónicas.
Quanto ao ataque ao prédio em Kiev, especialistas sugerem três hipóteses: míssil fora de curso, decisão deliberada de atingir civis ou falha de inteligência russa, possivelmente associada a interferência eletrónica ou falha sistémica do sistema de guiamento.
Esta sexta-feira, Kiev assinalou um dia de luto em memória das vítimas. Entre os mortos estavam três crianças, incluindo Liubava Yakovleva, de 12 anos, cujo pai faleceu a defender a Ucrânia na frente de combate, informou a Primeira-Ministra Yulia Svyrydenko.
No local, Zelensky apelou aos parceiros ocidentais para exercerem mais pressão sobre Moscovo e interromperem a guerra: “O mundo deve recordar o preço que a Ucrânia paga todos os dias para que a agressão russa não se espalhe a outras nações”, declarou o Presidente.













