A União Europeia começa a discutir uma questão que, durante grande parte da guerra na Ucrânia, permaneceu politicamente sensível: deve Bruxelas preparar-se para falar diretamente com Moscovo? A hipótese, que até Volodymyr Zelensky já terá admitido como necessária, está a dividir os Estados-membros e a expor uma tensão antiga entre os países do Leste europeu e Governos mais disponíveis para uma abordagem diplomática, escreve o ‘El Confidencial’.
O debate ganhou força depois de o Kremlin ter sugerido o antigo chanceler alemão Gerhard Schröder como possível mediador entre a União Europeia e a Rússia. A proposta foi rejeitada por Kaja Kallas, Alta Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, e por vários ministros europeus. Mas a recusa do nome de Schröder não resolve o problema de fundo: a União Europeia não tem uma posição clara sobre se quer falar com Moscovo, quando o deve fazer e com que objetivos.
A dúvida foi expressa de forma direta por Kestutis Budrys, ministro dos Negócios Estrangeiros da Lituânia. “Sobre o que vamos conversar?”, questionou. “Quais seriam as nossas exigências? Podemos chegar a um acordo?” Para a Lituânia e outros países da fronteira oriental da União Europeia, abrir um canal de diálogo com Moscovo é uma decisão especialmente sensível, porque pode ser interpretada como uma legitimação da agressão russa contra a Ucrânia.
A posição destes países resulta de uma experiência histórica muito concreta. Muitos viveram durante décadas sob domínio soviético e continuam a ver a Rússia como uma ameaça permanente à sua segurança. A invasão da Ucrânia, em 2022, reforçou a convicção de que Moscovo é um vizinho predador e de que a Europa deve estar preparada para novas formas de pressão ou agressão.
Desde o início da guerra, a política externa europeia deslocou-se de forma clara para leste. As posições dos países bálticos, da Polónia e de outros Estados mais próximos da Rússia passaram a influenciar mais fortemente o centro de decisão em Bruxelas. A escolha de Kaja Kallas, antiga primeira-ministra da Estónia e uma das vozes mais duras contra o Kremlin, para liderar a diplomacia europeia simboliza essa viragem.
Mas a unidade europeia é menos sólida quando se passa do apoio à Ucrânia para a pergunta sobre uma eventual negociação com Moscovo. Países com relações historicamente mais pragmáticas com a Rússia, como Itália e Áustria, mostram maior disponibilidade para que a União Europeia tenha voz própria nas conversações. O argumento é simples: se a Europa ficar fora da mesa, continuará dependente dos Estados Unidos para qualquer solução que afete diretamente a segurança do continente.
Zelensky conhece esse risco. O presidente ucraniano sabe o que significa depender quase por completo de Washington no contacto com o Kremlin e tem interesse em que outras vozes participem na conversa. Para Kiev, uma Europa ausente das negociações significaria também uma Europa com menor capacidade de defender os seus próprios interesses e os da Ucrânia.
O problema é que a experiência recente torna o diálogo difícil de vender no Leste europeu. Entre 2014, ano da primeira agressão russa contra a Ucrânia, e 2022, a União Europeia tentou combinar sanções com canais de diálogo. Essa estratégia não impediu a invasão em larga escala. Para os governos mais duros em relação a Moscovo, voltar a falar sem condições muito claras seria repetir um erro.
O analista Arkady Moshes, do Instituto Finlandês de Relações Internacionais, defende que a prioridade europeia deve ser garantir um lugar oficial à mesa de negociações ao lado dos Estados Unidos, e não abrir um diálogo paralelo com o Kremlin. Na sua visão, um canal europeu autónomo poderia acabar apenas por criar a ilusão de progresso, sem resultados concretos e com o risco de concessões unilaterais por parte da Europa.
A proposta de Putin para que Schröder fosse mediador teve também uma carga simbólica. O antigo chanceler alemão é amigo pessoal do presidente russo e tornou-se o exemplo de uma geração de políticos europeus que apostou na energia russa barata como base de uma relação pragmática com Moscovo.
Para o Kremlin, Schröder representa o tipo de interlocutor europeu desejável: alguém disposto a aceitar a esfera de influência russa em troca de estabilidade e energia a baixo custo. Para os países do Leste europeu, porém, é precisamente o símbolo do erro que alertaram durante anos: a dependência económica e energética de Moscovo como vulnerabilidade estratégica.
É por isso que, em várias capitais orientais, qualquer abertura ao diálogo é vista como o primeiro passo de uma possível normalização. O receio é que, depois da conversa diplomática, surjam pressões para reatar relações económicas e, a prazo, para reconstruir algum tipo de dependência energética em relação à Rússia.
Em Bruxelas, esse cenário é oficialmente afastado. A redução da dependência do gás russo é apresentada como praticamente consolidada e a legislação europeia prevê o fim completo das compras de gás natural russo até 2027. Ainda assim, a memória da dependência energética continua a pesar no debate.
A questão central, por isso, não é apenas se a União Europeia deve falar com Moscovo. É saber em que condições, com que mandato, com que exigências e com que garantias para a Ucrânia e para os Estados-membros mais expostos à ameaça russa. Sem essa definição, qualquer tentativa de diálogo arrisca transformar-se numa nova fonte de divisão dentro de uma União Europeia que se manteve unida na resposta à invasão, mas que agora terá de decidir como agir quando a guerra entrar numa fase de negociação.



