O ano de 2026 está no caminho para registar fenómenos meteorológicos extremos “extraordinários” na segunda metade do ano, num cenário que poderá incluir temperaturas recorde, incêndios florestais sem precedentes e eventos climáticos severos à escala global. O alerta é lançado por vários especialistas internacionais, que acompanham a evolução das temperaturas oceânicas e o desenvolvimento de um possível fenómeno “Super El Niño”.
Os primeiros quatro meses de 2026 já revelam sinais alarmantes. De acordo com especialistas da organização World Weather Attribution (WWA), a área ardida a nível mundial superou qualquer registo anterior para o mesmo período.
Cerca de 150 milhões de hectares — aproximadamente 580 mil milhas quadradas — já foram destruídos por incêndios florestais, valor que representa mais do dobro da média recente.
Este cenário surge num contexto em que as temperaturas globais da superfície do mar se aproximam dos níveis mais elevados alguma vez registados. Dados recentes do programa europeu Copernicus indicam que, no mês passado, a temperatura média da superfície do mar entre as latitudes 60°S e 60°N atingiu 21°C, aproximando-se dos máximos históricos e, em alguns dias, superando os recordes estabelecidos em 2024.
Super El Niño pode agravar aquecimento global
Os cientistas estão agora a acompanhar o desenvolvimento de uma fase de “Super El Niño” no ciclo natural conhecido como Oscilação Sul do El Niño. Este padrão climático alterna entre fases quentes (El Niño) e frias (La Niña) a cada dois a sete anos.
Durante a fase El Niño, as águas quentes acumuladas no Pacífico espalham-se e contribuem para aumentar a temperatura média global. Atualmente, o planeta encontra-se ainda sob a influência de uma fase de arrefecimento La Niña, que tem atenuado parcialmente o aquecimento. No entanto, os dados indicam que essa tendência poderá inverter-se rapidamente.
Vários especialistas consideram que o mundo poderá enfrentar um dos episódios de El Niño mais fortes do século, o que, conjugado com o aquecimento provocado pela atividade humana, poderá amplificar drasticamente os impactos.
A climatologista Dr. Friederike Otto, líder da WWA e investigadora no Imperial College London, afirmou: “El Niño é um fenómeno natural que vem e vai, mas agora ocorre sobre uma base climática cada vez mais quente.” E acrescentou: “O que o torna tão dramático não é o evento El Niño em si, mas o facto de estar a acontecer num clima dramaticamente alterado.”
2026 pode superar recorde de 2024
Um estudo recente aponta que 2026 tem forte probabilidade de se tornar o ano mais quente alguma vez registado, ultrapassando o recorde de 2024 em cerca de 0,06°C.
Entre os anos mais quentes registados globalmente destacam-se:
- 2024 (15,1°C)
- 2023 (14,98°C)
- 2025 (14,87°C)
- 2016 (14,814°C)
Os valores referem-se à temperatura média global anual do ar, segundo dados do Copernicus.
O climatologista Dr. Daniel Swain, do California Institute for Water Resources, sublinha a singularidade do momento atual: “Na história moderna da humanidade, nunca experienciámos um evento El Niño forte ou muito forte num contexto global já tão quente.”
Segundo o investigador, “não seria surpreendente assistir a impactos globais sem precedentes no final de 2026 e ao longo de 2027, em termos de cheias, secas e extremos associados a incêndios”.
Incêndios históricos já marcam 2026
O receio mais imediato prende-se com o aumento da intensidade e frequência dos incêndios florestais.
De acordo com a WWA, algumas das temperaturas registadas este ano seriam “virtualmente impossíveis” sem a influência das alterações climáticas.
Nos Estados Unidos, vários estados registaram o inverno mais quente de sempre, enquanto uma onda de calor em março foi a mais abrangente geograficamente na história do país.
Na Índia, as temperaturas atingiram os 46°C. Nas Américas, o Chile e a Argentina perderam quase 25 acres por minuto devido aos incêndios, enquanto estados norte-americanos como Nebraska, Florida e Geórgia enfrentaram fogos de dimensão histórica.
Na Ásia, milhares de pessoas foram forçadas a abandonar as suas casas no Japão, onde 1.400 bombeiros combateram vários dias de incêndios intensos.
Regiões húmidas também em risco
Os especialistas alertam que as condições quentes e secas típicas de um ano El Niño poderão combinar-se com o aquecimento global para agravar o risco em regiões tradicionalmente húmidas.
A floresta amazónica, a Oceânia e o Sudeste Asiático estão entre as áreas mais vulneráveis.
Dr. Swain explica que “um El Niño forte num contexto de temperaturas de base elevadas pode aumentar o risco de incêndios generalizados ou invulgarmente intensos em regiões normalmente húmidas, onde tais fogos não são comuns”, advertindo para “grandes impactos” nos ecossistemas e nas populações humanas.
Também o especialista em fenómenos extremos Dr. Theodore Keeping, do Imperial College London, sublinha que “El Niño tem um forte efeito nas condições quentes e secas” e que os impactos poderão ser particularmente evidentes “ao longo da costa oeste da América do Sul, incluindo partes da Amazónia”.
Secas, tempestades e ‘chicote climático’
Para além dos incêndios, o aumento das temperaturas poderá desencadear uma multiplicação de eventos extremos.
Anos de El Niño estão geralmente associados a verões mais quentes e secos na Europa, Austrália, Sudeste Asiático e África Austral. Contudo, o aquecimento adicional permite que a atmosfera retenha mais vapor de água e energia, potenciando episódios de precipitação extrema e tempestades violentas noutras regiões.
Este contraste pode originar períodos consecutivos de seca seguidos de cheias severas — fenómeno descrito como “climate whiplash” ou “chicote climático”.
Espanha é apontada como exemplo recente desta volatilidade: registou o janeiro e fevereiro mais chuvosos de sempre poucos anos após atravessar o período mais seco em pelo menos 1.200 anos.
Segundo os especialistas, esta instabilidade climática dificulta a capacidade dos governos para mitigar os impactos das alterações climáticas e aumenta significativamente o risco de inundações repentinas.
Para o climatologista Dr. Zachary Labe, da Climate Central, o ano de 2026 já envia sinais claros: “Desde ondas de calor fora de época e incêndios crescentes até à ausência de neve nos picos montanhosos mais altos, 2026 está a mostrar como as alterações climáticas amplificam os extremos.”
Com as temperaturas oceânicas a aproximarem-se de máximos históricos e um potencial Super El Niño em formação, os cientistas alertam que o segundo semestre poderá marcar um ponto crítico.







