Tim Leiweke, antigo executivo de referência nas áreas do desporto e entretenimento, recebeu em dezembro do ano passado um perdão presidencial de Donald Trump. Agora, está à procura de negócios no futebol europeu, incluindo uma possível entrada no Benfica, avança a ‘Bloomberg’.
O fundo Entrepreneur Equity Partners, liderado por Leiweke, investiu este mês no Venezia FC, em Itália, e está atualmente em conversações para comprar uma participação no Benfica. O objetivo passa por construir uma presença multiclubes no futebol europeu, através de participações minoritárias em várias equipas.
Leiweke junta-se assim a uma vaga crescente de investidores americanos interessados em clubes europeus. Fundos como a Apollo Global Management e a Arctos, bem como bilionários como Bill Foley e Dan Friedkin, têm vindo a criar carteiras com participações em diferentes equipas de futebol.
O passado recente do empresário, porém, acrescenta um elemento sensível à operação. Leiweke recebeu o perdão de Trump poucos meses depois de ter sido acusado, em julho de 2025, num processo relacionado com a Oak View Group, empresa de que foi CEO. A acusação envolvia uma alegada coordenação ilegal com a rival Legends no concurso para desenvolver e operar o Moody Center, uma arena de 338 milhões de dólares, cerca de 291 milhões de euros, na Universidade do Texas, em Austin.
A Oak View Group e a Legends aceitaram acordos de não acusação com o Departamento de Justiça americano e concordaram em pagar multas de 15 milhões de dólares, cerca de 12,9 milhões de euros, e 1,5 milhões de dólares, cerca de 1,3 milhões de euros, respetivamente. Leiweke deixou a liderança executiva da Oak View pouco depois da apresentação das acusações. O processo contra si acabou por ser arquivado na sequência do perdão presidencial.
A proposta de Leiweke aos clubes europeus assenta, em parte, na sua experiência em imobiliário, gestão de arenas e desenvolvimento de estádios. Enquanto CEO da Anschutz Entertainment Group, esteve ligado ao desenvolvimento do complexo L.A. LIVE, avaliado em 2,5 mil milhões de dólares, cerca de 2,15 mil milhões de euros, e da O2 Arena, em Londres. Mais tarde, em 2015, cofundou a Oak View Group, responsável por projetos como a Climate Pledge Arena, em Seattle, e a Co-op Live, em Manchester.
No caso do Benfica, a ‘Bloomberg’ escreve que o clube procura financiamento para uma grande remodelação do estádio e da zona envolvente, com o objetivo de transformar essa área num polo de entretenimento, comércio e lazer durante todo o ano. Já o Venezia FC está a construir um novo estádio com capacidade para 18.500 lugares, cuja abertura está prevista para o próximo ano.
O consórcio de Leiweke chegou a acordo, no mês passado, para comprar uma participação de 16,4% no Benfica. O negócio ainda precisa, contudo, da aprovação do Sport Lisboa e Benfica, a estrutura associativa que controla cerca de 64% da sociedade cotada.
A administração do clube português deverá reunir-se nos próximos dias para discutir a operação, segundo fontes conhecedoras do processo citadas pela agência financeira.
A entrada no Venezia FC já deu a Leiweke um papel formal no clube italiano, onde ocupa o cargo de copresidente do comité operacional. A filha, Francesca Bodie, assumiu a presidência do clube. Embora seja considerado improvável, uma eventual promoção do Venezia à Serie A e uma presença simultânea em competições europeias com o Benfica poderiam levantar questões regulatórias junto da UEFA.
As regras da UEFA definem controlo significativo a partir de uma participação de 30%, mas também impõem limitações quando há membros comuns em órgãos de direção de clubes que disputem a mesma competição. Segundo as fontes citadas pela ‘Bloomberg’, Leiweke e Bodie não planeiam assumir cargos de liderança no Benfica.
A estratégia multiclubes tem atraído cada vez mais capital estrangeiro, mas também enfrenta resistência de adeptos e reguladores, preocupados com a concentração de influência em várias equipas. O caso recente da Eagle Holdings, de John Textor, que tinha participações em clubes como Crystal Palace e Lyon e acabou por entrar em incumprimento da dívida, é visto como um alerta para os riscos deste modelo.
“Estes clubes precisam de capital para modernizar os seus recintos e aumentar receitas e envolvimento dos adeptos”, afirmou João Caiado Guerreiro, advogado em Lisboa especializado em direito empresarial. “Mas é um equilíbrio delicado entre satisfazer adeptos que querem manter o controlo e atrair investidores estrangeiros que procuram ter uma palavra a dizer no futuro do clube.”
No caso do Benfica, esse equilíbrio será decisivo. A operação promete trazer capital e experiência em infraestruturas desportivas, mas terá de passar pelo escrutínio interno de um clube onde a componente associativa continua a ter um peso determinante.



