A demissão de Wes Streeting do cargo de ministro da Saúde abriu a crise mais séria no Governo de Keir Starmer desde a chegada dos trabalhistas ao poder. Streeting deixou o Executivo depois de afirmar que “perdeu a confiança” na liderança do primeiro-ministro e que seria “desonroso” continuar no cargo, numa carta em que acusou Starmer de criar um “vácuo” onde o país precisava de “visão”.
Segundo o ‘The Independent’, a saída é vista em Westminster como o primeiro passo para um eventual desafio à liderança trabalhista.
A demissão chega depois de resultados eleitorais desastrosos para o Labour nas eleições locais e regionais, que fizeram disparar a contestação interna a Starmer. Na carta, Streeting escreveu que a impopularidade do Governo foi um fator comum nas derrotas em Inglaterra, Escócia e País de Gales, criticou decisões como o corte no subsídio de aquecimento para pensionistas e afirmou que, “onde precisamos de visão, temos um vácuo; onde precisamos de direção, temos deriva”. Downing Street garante, porém, que Starmer pretende “continuar a lutar” e resistir a qualquer tentativa de afastamento.
— Wes Streeting (@wesstreeting) May 14, 2026
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Quem é Wes Streeting?
Wes Streeting, de 43 anos, era ministro da Saúde e um dos rostos mais visíveis do Governo trabalhista. Deputado por Ilford North, no leste de Londres, construiu reputação como comunicador eficaz, combativo e politicamente pragmático. Antes de chegar ao Parlamento, foi presidente da National Union of Students, trabalhou na área da mobilidade social, passou pela organização Stonewall, ligada aos direitos LGBT+, e pela consultora PwC. Foi eleito deputado em 2015 e tornou-se uma das vozes mais críticas da liderança de Jeremy Corbyn, a quem considerava inelegível.
No Governo, Streeting assumiu a pasta da Saúde, uma das mais difíceis da política britânica, devido às longas listas de espera no NHS. Na carta de demissão, procurou sair com um balanço positivo: afirmou que as listas de espera caíram 110 mil em março, que os tempos de resposta das ambulâncias melhoraram e que o NHS tinha atingido metas de produtividade. O ‘Guardian’ confirma que Streeting usou a carta para apresentar o seu desempenho na Saúde como prova de capacidade executiva, antes de virar o ataque para a liderança de Starmer.
O neto de um assaltante e a biografia pouco comum
A biografia de Streeting é invulgar para um político britânico de primeira linha. Cresceu num apartamento social no East End de Londres, filho de pais adolescentes que se separaram, e contou na autobiografia “One Boy, Two Bills and a Fry-Up” que visitava o avô materno, Bill Crowley, na prisão quando ainda andava na escola primária.
Segundo o ‘The Independent’, Crowley era um criminoso de carreira, conhecido dos irmãos Kray, famosos gangsters londrinos, e fazia assaltos à mão armada usando uma máscara de borracha a que chamava “Claude”. A avó materna de Streeting, Libby Crowley, também esteve presa em Holloway, onde partilhou cela com Christine Keeler, figura central do escândalo Profumo. A mãe de Streeting, Corinna, poderá até ter nascido na prisão.
Essa história familiar tornou-se parte da identidade política de Streeting. O antigo ministro apresenta-se como alguém que escapou à pobreza e que vê na educação, na segurança e na mobilidade social uma missão central. Estudou História em Cambridge, assumiu publicamente a homossexualidade durante a universidade e construiu uma carreira associada ao centro reformista do Labour. Para apoiantes, essa trajetória dá-lhe autenticidade e capacidade de falar com eleitores que o partido perdeu; para críticos internos, confirma um perfil demasiado próximo da direita trabalhista.
O que acontece agora ao Governo?
A demissão de Streeting não derruba automaticamente Keir Starmer, mas torna a sua permanência muito mais frágil. O antigo ministro é o primeiro membro do gabinete a abandonar o Governo nesta crise e fá-lo deixando uma acusação política direta: Starmer já não terá condições para levar o Labour às próximas eleições. A ‘Associated Press’ refere que mais de 80 deputados trabalhistas já terão pedido a saída do primeiro-ministro, embora Starmer continue a resistir e a advertir que uma disputa de liderança agravaria a instabilidade.
O passo seguinte depende de duas coisas: se Streeting formaliza uma candidatura à liderança e se consegue reunir apoio suficiente entre deputados trabalhistas. O ‘Guardian’ nota que, apesar da demissão, Streeting ainda não lançou formalmente o desafio, o que pode indicar cautela na contagem de apoios. Se avançar, outros nomes podem entrar na corrida, tornando a crise mais ampla e menos controlável para Downing Street.
Quem pode disputar a liderança?
Streeting não é o único nome em circulação. Angela Rayner, antiga vice-primeira-ministra, foi ilibada pela autoridade fiscal britânica de irregularidade intencional nos seus assuntos fiscais, o que reabre espaço para uma eventual candidatura pela ala esquerda ou social-democrata do partido. O ‘Guardian’ relata que Rayner não excluiu um papel numa disputa futura, embora tenha dito que não seria ela a “desencadear” a crise.
Andy Burnham, presidente da câmara da Grande Manchester, surge como o nome mais popular entre militantes trabalhistas, mas enfrenta um problema prático: não é deputado em Westminster, condição normalmente necessária para disputar a liderança parlamentar. O ‘The Independent’ refere que a antecipação da jogada de Streeting pode também ter servido para impedir que aliados de Burnham encontrassem tempo para abrir uma vaga parlamentar que lhe permitisse regressar à Câmara dos Comuns.
Ed Miliband, antigo líder trabalhista, também é mencionado como possível candidato, assim como figuras de perfil governativo ou securitário, embora com menor tração. O problema de Streeting é claro: é conhecido, articulado e ideologicamente próximo de Starmer, mas não é consensual. Uma sondagem da LabourList, feita pela Survation, indicava que Streeting perderia um confronto direto com Starmer entre militantes trabalhistas, com 23% contra 53% para o primeiro-ministro.
Streeting pode chegar a Downing Street?
Pode, mas o caminho é difícil. A vantagem de Streeting é apresentar-se como alguém capaz de comunicar melhor do que Starmer, disputar o eleitorado centrista e responder à ameaça de Nigel Farage e do Reform UK. A sua carta insiste precisamente nesse ponto: o Labour estaria a falhar a missão de oferecer esperança democrática num país cada vez mais vulnerável ao nacionalismo populista.
A fraqueza está dentro do próprio Labour. Parte substancial dos militantes vê Streeting como demasiado à direita, demasiado próximo da tradição blairista e demasiado hostil à herança corbynista. A sua defesa de maior recurso ao setor privado para reduzir listas de espera no NHS, embora apresentada como pragmatismo, gerou críticas internas. As posições sobre diversidade, saúde e direitos trans também o tornaram uma figura polarizadora.
Há ainda uma regra política difícil de contornar: o primeiro a empunhar a faca nem sempre fica com a coroa. Ao demitir-se nestes termos, Streeting tornou-se o homem que abriu formalmente a ofensiva contra Starmer. Isso pode dar-lhe estatuto de coragem e liderança, mas também pode torná-lo vulnerável à acusação de ambição pessoal. Se a crise derrubar Starmer, Streeting estará no centro da sucessão; se não conseguir unir deputados, sindicatos e militantes, poderá apenas ter acelerado o fim de um primeiro-ministro sem garantir o seu próprio lugar em Downing Street.




