A recente propagação de informações falsas sobre o hantavírus nas redes sociais voltou a reavivar teorias da conspiração semelhantes às que circularam durante a pandemia da Covid-19. Alegações infundadas sobre a origem do vírus, o uso de medicamentos e o envolvimento de empresas farmacêuticas multiplicam-se online, e estão a gerar desinformação e pânico desnecessário.
O surto de hantavírus ocorreu a bordo do navio MV Hondius, que partiu da Argentina a 1 de abril e atracou na ilha de Tenerife, nas Canárias, em 10 de maio. Onze passageiros adoeceram, com pelo menos nove casos confirmados. Três passageiros morreram, incluindo um casal neerlandês que terá sido exposto ao vírus na América do Sul.
A transmissão do hantavírus ocorre principalmente através do contacto com fezes, urina ou saliva de roedores. Posteriormente, é possível que a infeção se propague entre humanos em casos específicos. Não existem tratamentos antivirais ou vacinas aprovadas, sendo a gestão clínica centrada em cuidados de suporte e acesso precoce a cuidados críticos.
Ivermectina não é cura para hantavírus
Nas redes sociais, surgiram alegações de que o medicamento antiparasitário ivermectina — anteriormente promovido de forma falsa como tratamento da COVID-19 — poderia tratar o hantavírus. Entre os que divulgaram estas informações esteve a ex-congressista Marjorie Taylor Greene, conhecida por partilhar teorias conspiratórias.
Contudo, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) confirmou que não existe qualquer evidência científica que sustente o uso da ivermectina contra hantavírus. Tal como no caso da COVID-19, o fármaco não é eficaz contra este vírus e não constitui tratamento autorizado.
Moderna e o desenvolvimento da vacina
Alguns utilizadores nas redes sociais têm alegado que o facto de a farmacêutica norte-americana Moderna desenvolver uma vacina contra o hantavírus seria prova de manipulação do surto. Uma publicação no X, com mais de quatro milhões de visualizações, sugeria que a empresa “previu” o vírus.
Especialistas desmentem estas teorias. Amesh Adalja, investigador sénior no Johns Hopkins Centre for Health Security, explicou que o trabalho da Moderna reflete a natureza de saúde pública do vírus, que tem sido estudado há décadas. A colaboração com o Vaccine Innovation Center da Universidade da Coreia ainda se encontra em fase pré-clínica, sem ensaios em humanos a curto prazo.
Nome do vírus não tem origem hebraica
Outra teoria viral nas redes sociais sugere que a palavra “hanta” seria derivada do hebraico, significando “fraude” ou “falso”, sendo usada como argumento para alegar que o vírus seria um esquema israelita. A informação revelou-se incorreta: o termo hebraico correto é “khartah” (ou chartah), de origem árabe, e não tem qualquer relação com o hantavírus.
Na realidade, o nome hantavírus deriva da “febre hemorrágica coreana” identificada durante a Guerra da Coreia, nos anos 1950. Nos anos 1970, cientistas isolaram o vírus em ratos de campo junto ao rio Hantaan, dando origem ao nome “Hantaan virus”. À medida que mais vírus relacionados foram descobertos, passaram a ser designados coletivamente como “hantavírus”.





