Irão prepara-se para guerra ‘renovada’ com EUA e Israel com arsenal de mísseis intacto

O Irão estará a preparar-se para uma possível retoma da guerra com os Estados Unidos e Israel, numa altura em que a frágil trégua alcançada no Médio Oriente continua sob forte pressão diplomática e militar.

Pedro Zagacho Gonçalves

O Irão estará a preparar-se para uma possível retoma da guerra com os Estados Unidos e Israel, numa altura em que a frágil trégua alcançada no Médio Oriente continua sob forte pressão diplomática e militar. O alerta foi lançado pelo Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), centro de análise sediado em Washington, que aponta uma série de movimentações militares iranianas, exercícios de segurança interna e reposicionamento estratégico de ativos militares como sinais claros de preparação para um novo conflito.

Segundo a avaliação divulgada pelo ‘think tank’ norte-americano, o regime iraniano considera que a preparação para uma eventual nova fase da guerra está diretamente ligada à necessidade de conter possíveis distúrbios internos, num contexto de elevada tensão política e económica dentro do país.

Na terça-feira, a unidade Mohammad Rasoul Ollah da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), uma das principais forças responsáveis pela segurança interna da capital iraniana, realizou exercícios militares em Teerão. A própria Guarda Revolucionária confirmou, através da imprensa estatal iraniana, que os exercícios tiveram como objetivo preparar as forças “para enfrentar qualquer movimento do inimigo”.

O ISW sublinha que estas operações não representam apenas um treino defensivo, mas também uma demonstração de prontidão militar perante a possibilidade de colapso do cessar-fogo atualmente em vigor.

Exercícios militares junto ao Golfo aumentam receios
Além das operações em Teerão, as forças militares iranianas tinham igualmente previsto realizar exercícios no porto de Mahshahr, localizado a cerca de 100 quilómetros da ilha de Bubiyan, zona considerada estratégica devido à proximidade com importantes rotas marítimas da região do Golfo.

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De acordo com o instituto norte-americano, a marinha da Guarda Revolucionária poderá utilizar estas manobras tanto para preparar novas operações militares como para dispersar embarcações antes de eventuais ataques aéreos israelitas ou norte-americanos.

Os analistas acreditam ainda que Teerão está a tentar proteger os seus ativos militares através do reposicionamento de equipamento e armamento para países onde considera improvável uma ação militar direta dos Estados Unidos.

Arsenal iraniano terá resistido à ofensiva aérea
A avaliação surge numa altura em que vários relatórios indicam que o Irão conseguiu preservar grande parte do seu arsenal de mísseis apesar da campanha aérea conduzida por Israel e pelos Estados Unidos desde 28 de fevereiro.

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Segundo estimativas citadas pelo ISW, Teerão ainda manterá aproximadamente 70% do número de mísseis existentes antes do início da guerra. Paralelamente, avaliações militares norte-americanas publicadas pelo jornal norte-americano The New York Times indicam que o Irão restaurou o acesso operacional a 30 das suas 33 bases de mísseis situadas ao longo do estreito de Ormuz.

O estreito continua a ser um dos pontos mais sensíveis da crise, devido à sua importância estratégica para o comércio energético mundial. Grande parte do petróleo exportado pelos países do Golfo atravessa aquela rota marítima, tornando qualquer instabilidade na região uma ameaça direta à economia global.

Guarda Revolucionária reforça influência política
O relatório do ISW refere ainda que a Guarda Revolucionária está a consolidar o seu controlo sobre a estrutura de poder interna iraniana, sob liderança do comandante Ahmad Vahidi e do seu círculo mais próximo.

Ao mesmo tempo, as negociações de paz continuam praticamente bloqueadas. O regime iraniano insiste que não aceitará negociar sem garantias concretas contra futuras ações militares norte-americanas ou israelitas. Entre as exigências de Teerão está também o reconhecimento internacional da soberania iraniana sobre o estreito de Ormuz.

Segundo os analistas do instituto norte-americano, essa reivindicação representa um dos principais instrumentos de dissuasão estratégica do Irão. O reconhecimento formal dessa soberania poderia ter consequências profundas para o comércio marítimo internacional e para os países do Golfo fortemente dependentes das rotas marítimas da região.

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Donald Trump diz que cessar-fogo está em “suporte de vida”
O Presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou na segunda-feira que o cessar-fogo se encontra em “suporte de vida massivo” e que existe apenas “um por cento de hipóteses” de sobreviver.

A guerra, iniciada há mais de dois meses, espalhou-se rapidamente por várias zonas do Médio Oriente, provocando impacto na economia global e agravando a instabilidade internacional, apesar da atual trégua.

Tanto Washington como Teerão têm mantido posições rígidas nas negociações e continuam a trocar ameaças sobre um eventual regresso aos combates.

Irão exige aceitação do plano de paz
O principal negociador iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou na terça-feira que os Estados Unidos terão de aceitar a mais recente proposta de paz apresentada por Teerão ou enfrentar o fracasso total das negociações.

Numa publicação na rede social X, Ghalibaf declarou que “não existe alternativa além de aceitar os direitos do povo iraniano conforme estabelecidos na proposta de 14 pontos”. O responsável acrescentou ainda que “qualquer outra abordagem será completamente inconclusiva, apenas uma sucessão de fracassos”.

O dirigente iraniano deixou também críticas diretas a Washington, afirmando que quanto mais tempo os Estados Unidos demorarem a aceitar a proposta iraniana, maior será o custo para os contribuintes norte-americanos.

Custos da guerra aproximam-se dos 29 mil milhões de dólares
O Pentágono revelou na terça-feira que os custos da guerra já atingiram quase 29 mil milhões de dólares, cerca de 24,7 mil milhões de euros.

O valor representa um aumento de aproximadamente 4 mil milhões de dólares face à estimativa divulgada apenas duas semanas antes, demonstrando o peso crescente do conflito para os cofres norte-americanos.

Segundo informações divulgadas pela imprensa internacional, a proposta norte-americana apresentada ao Irão consistia num memorando de entendimento de uma página destinado a encerrar os combates e criar um quadro negocial para discutir o programa nuclear iraniano.

Contudo, os detalhes do plano permanecem limitados.

Teerão exige fim do bloqueio naval e libertação de ativos
O Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano afirmou que a resposta enviada aos Estados Unidos exige o fim da guerra em todas as frentes, incluindo no Líbano, o levantamento do bloqueio naval norte-americano aos portos iranianos e a libertação dos ativos financeiros iranianos congelados no estrangeiro devido às sanções internacionais.

Donald Trump rejeitou duramente a proposta iraniana, classificando-a como “totalmente inaceitável”. O Presidente norte-americano afirmou ainda que os Estados Unidos alcançarão uma “vitória completa” sobre o Irão e voltou a insistir que a trégua está perto do colapso.

Antes de partir para uma viagem oficial à China, Trump revelou que teria uma “longa conversa” com o Presidente chinês, Xi Jinping, sobre a situação iraniana, embora tenha sublinhado que não necessita da ajuda de Pequim para terminar a guerra.

Do lado iraniano, o porta-voz do Ministério da Defesa, Reza Talaei-Nik, advertiu que caso Washington rejeite a via diplomática “deverá esperar uma repetição das suas derrotas no campo de batalha”.

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